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PLÍNIO DE ARRUDA SAMPAIO

Descrever a personalidade do notável homem público, recém-falecido, não é tarefa fácil. Mas, descrevendo episódios de sua vida, poderemos ir aos poucos construindo a personalidade de um dos mais sérios e destacados políticos de nossa época.

Conheci Plínio Sampaio em 1954, eu estudante de engenharia e ele presidente da JUC – Juventude Universitária Católica, cursando o último ano de Direito. A entidade estudantil possuía uma colônia de férias na cidade de Itanhaém, onde minha família tinha casa de veraneio, nascendo assim uma aproximação natural, quando menos motivada pelas mútuas “caronas” em fins de semana.

Mas através desses contatos fortuitos, foi possível, desde cedo, conhecer os pendores religiosos e políticos, que constituíram pilares da formação católica e política em que se assentou toda a militância de Plínio.

Passados 10 anos em que cada qual cuidou de sua carreira, com poucos contatos, voltamos a nos identificar através das ligações pessoais entre brasileiros agredidos pelo regime militar que se instaurou em 1964 e que expulsou do país um grande número de patriotas, para não falar daqueles que a ditadura torturou e matou. Plínio Sampaio fez parte de uma comunidade de jovens políticos que recebeu asilo no Chile, dentre os quais havia amigos e parentes meus, instalando-se então um “correio” entre os de lá e os de cá, para intercâmbio de notícias e ideias e, por vezes, de “recuerdos”, que iam de alimentos a valores. Era preciso ajudar os exilados em sua manutenção e a muitos de nós coube a tarefa de intercâmbio.

Plínio Sampaio, deputado federal então, fizera parte dos 100 primeiros brasileiros a terem os seus direitos políticos cassados, porque vinha de uma jornada patriótica de denúncias contra a trama golpista que se desenrolava, tendo como companheiros os também deputados Almino Affonso e Rubens Paiva igualmente exilados. Rubens Paiva pagou com a própria vida os seus pudores democráticos.

Mas no exercício do seu curto mandato até então (1963/1964) Plínio Sampaio já havia traçados em fortes linhas os rumos de sua ação política, apoiada numa visão humanista e socialista do mundo, que o acompanhou por toda a vida. Em destaque dessa visão, Plínio Sampaio emergira no cenário federal como um intransigente defensor da reforma agrária, tendo se destacado nos debates da Emenda Constitucional em favor da Reforma Agrária, tendo sido relator dessa matéria e elaborado um brilhante parecer, posição essa que voltou a defender ardorosamente durante o seu mandato federal constituinte (1987/1991). No intervalo dessas ações de proposta e defesa da reforma agrária, aproveitou um período de exílio nos Estados Unidos para fazer um mestrado em Economia Agrícola na Universidade Cornell e para trabalhar na Organização das Nações Unidas para Alimentação (FAO).

No campo estritamente político, Plínio atuou com firmeza em busca de uma solução partidária apoiada nos princípios da economia humana, das liberdades fundamentais e do socialismo, influindo muito positivamente na criação de espaços políticos, mas colhendo também desesperanças advindas da tibieza de muitos companheiros e até da traição de oportunistas. Mas nunca desistia e, por isso, se vê o seu nome ligado à militância em quatro ou cinco agremiações políticas.

O que não se vê na carreira de Plínio Sampaio é a transigência com princípios morais, o afastamento de sua linha de conduta democrata-cristã, a fuga dos propósitos de combate à desigualdade social, a transigência com os direitos humanos. Esses valores que permeiam a carreira e a vida do Plínio têm muito a ver com a sua formação humanística e religiosa, permanente em todos os seus atos.

Nas análises biográficas de Plínio de Arruda Sampaio, entretanto, são escassas as referências ao seu trabalho como assessor especial do governador Carvalho Pinto (1959/1963) para concepção, coordenação e implantação do Plano de Ação do Governo do Estado – PAGE, assim como Coordenador do Grupo de Planejamento do PAGE. Nessas atividades, ele inovou em matéria de planejamento governamental, produzindo notável avanço nas políticas de governo e congregando um grande grupo de técnicos que deram substância ao planejamento.

Mas não foi apenas reunindo profissionais de notável saber, apesar de muitos jovens (Plínio tinha menos de 30 anos quando coordenou o I Plano de Ação, para o período governamental de 1959/1963) que se deu substância ao Plano de Ação: partindo de ingente esforço de ouvir experientes administradores políticos e da análise de muitas iniciativas continentais visando ao desenvolvimento econômico e social (Aliança para o Progresso, BID, ALALC, dentre várias outras), o Plano de Ação apoiou-se em valores salientados pelo Governador Carvalho Pinto, quando afirmou:

“Sentimo-nos, ainda, perfeitamente identificados, em tudo aquilo que foi feito em nossa Administração, com a doutrina expressa por João XXIII na Encíclica “Mater et Magistra” e que visa, fundamentalmente, a dar uma nota humana e cristã à civilização moderna”.

Na conciliação dos princípios humanísticos do trabalho com as ações executivas planejadas, teve grande influência o apoio recebido do padre Louis Joseph Lebret, da SAGMACS, responsável pelos fundamentos ideológicos da economia humana e pela sua introdução no Brasil, que influenciou o Partido Democrata Cristão Brasileiro, ao qual se filiou.

Esta fase da vida de Plínio de Arruda Sampaio foi uma das mais ricas e ele a viveu com plenitude, com visão de futuro, como base de toda a sua ação político-administrativa.

Humanista, Cristão, Democrata, discípulo do padre Lebret e do Papa João XXIII, experiente no planejamento, na ação pública e no debate político, aberto para as novas ideias e firme em seus princípios, Plínio de Arruda Sampaio só poderia ter sido o cidadão notável que foi.

Adriano M. Branco

 


 

 

 

Sobre Adriano Branco

Eng. Adriano Murgel Branco Adriano Murgel Branco, paulistano de 76 anos, é administrador e engenheiro eletricista formado por uma das melhores escolas de engenharia do país - a Universidade Mackenzie. Branco, foi consultor no Brasil e em Moçambique, professor universitário, ocupou inúmeros cargos públicos, entre eles o de secretário da Habitação e secretário dos Transportes do Estado de São Paulo, nos anos 80. Ocupou também, cargos privados como o de diretor da Coplan, da Trol S.A., da TCL, da Caio entre outras. Ministrou palestras no Brasil,México,Colômbia,Venezuela,Equador, Paraguai, Argentina, Uruguai, Peru e Chile sobre transporte, segurança rodoviária e habitação. É autor de mais de duas centenas de artigos em jornais e revistas, publicadas até na Inglaterra e Alemanha. Em 1972, foi publicada sua primeira monografia sobre Acidentes Rodoviários; em 1975 é publicada a Normatização Brasileira de Defesa Rodoviárias. Teve também três de suas monografias publicadas em 1978: Trólebus,Tendências Modernas dos transportes Coletivos Pneumáticos e Transportes Urbanos por Trólebus; nos anos oitenta foram publicadas: Uma visão Sistêmica do Transporte Urbano, O Transporte Urbano no Brasil e A Prevenção dos Recursos Hídricos no Estado de São Paulo. Seus livros mais ressentem são Segurança Rodoviária, O Financiamento de Obras e de Serviços Públicos, em parceria com o Adilson Abreu Dallari, e Desenvolvimento Sustentável na Gestão de Serviços Públicos, em parceria com o economista Márcio Henrique Bernardes Martins.

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