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A AGONIA DO TRANSPORTE COLETIVO

Artigo publicado na Coluna Ponto de vista (site ANTP), em 23/05/14

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Em maio de 1984, quando fui designado titular da Secretaria de Estado dos Transportes, encontrei uma situação de impasse entre autoridades governamentais e moradores nas vizinhanças da rodovia Piaçaguera-Guarujá, que reclamavam por maior segurança. Aliás, em revide a um acidente grave ocorrido, populares haviam interrompido o tráfego com pneumáticos queimados na pista.

Ficou para mim receber os queixosos e dizer-lhes o que o Estado faria, tudo em caráter de urgência. Assim foi feito, começando por uma audiência a cerca de 10 pessoas, incluindo um deputado da região e o prefeito de Cubatão.

Iniciei o encontro dizendo que já havíamos deliberado implantar uma passarela metálica, de montagem mais rápida, que seria liberada em 60 dias. A informação tão célere incomodou algumas lideranças presentes, que ficaram sem discurso e que, então, acrescentaram exigências: a passarela deveria ficar pronta em 15 dias e com iluminação. Iluminada para que os usuários não roubassem os parafusos, no escuro, o que me levou a perguntar se os reclamantes queriam passarela ou parafusos. Fornecer parafusos seria mais rápido…

Quanto ao prazo de 15 dias, era impossível, pois o Estado tem normas de licitação que deveriam ser obedecidas. Mas a resposta foi rápida: “se a obra não for entregue em 15 dias, a comunidade vai por fogo na estrada, novamente”.

O tom da conversa mudou: adverti os reclamantes que, se a rodovia fosse interrompida, nós acionaríamos a polícia rodoviária para deter os baderneiros. “Entendimento” encerrado.

Tempos depois outro entrevero curioso. Viajando pelo Interior num fim de semana, deparei com um longo congestionamento da rodovia, monitorado pela Polícia Rodoviária. Indagado sobre a ocorrência, o oficial responsável pelo controle do tráfego disse-me que se tratava de uma manifestação, com interrupção de 2 km de uma das faixas, em protesto pelo baixo preço da soja…

Pedi ao oficial que reagrupasse os seus homens, para tratarmos da desocupação da estrada; mas lembrei-me de que poderia haver reações negativas contra o Governo, atingindo o próprio governador Montoro, homem do diálogo por excelência, com quem, por vezes, discuti ações em posições divergentes. O caso mais complexo que enfrentamos foi a ameaça sem prévio aviso feita, através dos jornais, de paralisação da Via Anchieta, numa 6ª feira à tarde, quando se esperava um tráfego de 60.000 veículos. Caminhoneiros em protesto contra o preço do pedágio ameaçaram sem rodeios o Governo e arregimentaram jornalistas e deputados em favor de sua causa.

Decidi reagir, obviamente dentro da lei. Mas o possível confronto levou o governador a me fazer ponderações, um pouco na linha da transigência. Então chegamos a um acordo: “eu vou mobilizar os meus recursos e, caso seja mal sucedido, o senhor interfere e me demite”.

Na 2ª feira seguinte ele me telefonou, cumprimentando pelo resultado: “nem notícia no jornal saiu. Como isso ocorreu?”.  Ao que respondi: “isolando os baderneiros dos trabalhadores”.

Diante do novo caso resolvi telefonar ao Governador prevenindo-o da medida que resolvera adotar, de desobstruir a estrada. E dele veio a sugestão: “Você intime o primeiro da fila a liberar a estrada; se ele recusar, dê-lhe ordem de prisão e conduza-o à delegacia. Repita o procedimento quantas vezes for necessário; com 5 ou 6 prisões, o restante desiste”. Na verdade, não foi preciso ir além de quatro.

Agora vejo estarrecido, na excelente matéria da Globo na 4ª feira, que motoristas estacionam nas faixas de circulação privativas, para que a linha não funcione. Outros param de maneira enviesada na rua, interrompendo o trânsito. Terceiros furam os pneumáticos e ameaçam botar fogo nos carros. E não faltaram ainda alguns “grevistas” armados, ameaçando condutores e passageiros.

É inacreditável a imagem dos passageiros desalojados de seus ônibus no meio do Expresso Tiradentes, numa via sem saída, a 10 metros de altura.

O que acontecerá a você ou a mim, nesta cidade, se desobedecermos o rodízio, excedermos a velocidade, circularmos nas faixas dos ônibus ou estacionarmos em local proibido? Milhões de multas respondem a pergunta, Algumas prisões por conta de desacato á autoridade, também.

E se milhões de pessoas forem expulsas do transporte coletivo, perdendo a tarifa paga, o dia de serviço e a possibilidade real de se locomover, o que é que acontece? Seremos certamente brindados por mais algum bem intencionado plano de mobilidade urbana, a se desenvolver nos próximos 40 ou 70 anos.

A Prefeitura paulistana adotou como meta principal de sua ação na área de transportes a prioridade ao transporte coletivo, conforme recomendou a sua Comissão de Estudos de Transporte Coletivo, em 1943. Em 1975 formulou o Plano SISTRAN, que previu a implantação de 280 km de corredores exclusivos para tróleibus. São passados 71 e 39 anos respectivamente, sem que as principais medidas fossem implementadas. Vamos tentar agora algo mais radical?: botar os passageiros para correr ou atear fogo nos ônibus.

Adriano M. Branco

 


 

 

 

Sobre Adriano Branco

Eng. Adriano Murgel Branco Adriano Murgel Branco, paulistano de 76 anos, é administrador e engenheiro eletricista formado por uma das melhores escolas de engenharia do país - a Universidade Mackenzie. Branco, foi consultor no Brasil e em Moçambique, professor universitário, ocupou inúmeros cargos públicos, entre eles o de secretário da Habitação e secretário dos Transportes do Estado de São Paulo, nos anos 80. Ocupou também, cargos privados como o de diretor da Coplan, da Trol S.A., da TCL, da Caio entre outras. Ministrou palestras no Brasil,México,Colômbia,Venezuela,Equador, Paraguai, Argentina, Uruguai, Peru e Chile sobre transporte, segurança rodoviária e habitação. É autor de mais de duas centenas de artigos em jornais e revistas, publicadas até na Inglaterra e Alemanha. Em 1972, foi publicada sua primeira monografia sobre Acidentes Rodoviários; em 1975 é publicada a Normatização Brasileira de Defesa Rodoviárias. Teve também três de suas monografias publicadas em 1978: Trólebus,Tendências Modernas dos transportes Coletivos Pneumáticos e Transportes Urbanos por Trólebus; nos anos oitenta foram publicadas: Uma visão Sistêmica do Transporte Urbano, O Transporte Urbano no Brasil e A Prevenção dos Recursos Hídricos no Estado de São Paulo. Seus livros mais ressentem são Segurança Rodoviária, O Financiamento de Obras e de Serviços Públicos, em parceria com o Adilson Abreu Dallari, e Desenvolvimento Sustentável na Gestão de Serviços Públicos, em parceria com o economista Márcio Henrique Bernardes Martins.

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