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ECOS DE PASADENA

Ao longo de meus 58 anos de atividade profissional com quase 40 anos dedicados à questões de serviços públicos, como consultor, conselheiro, funcionário e diretor de estatal, além de Secretário de Estado por duas vezes, jamais imaginei defrontar-me com uma embaralhada igual à que se vê no caso da compra da Refinaria de Pasadena, pela Petrobrás. Nem eu e nem os demais 190 milhões de brasileiros.

Em primeiro lugar, é incompreensível que os dois últimos presidentes da Estatal tenham posições tão díspares quanto aos valores em jogo e, principalmente, quanto à oportunidade e resultado prático da aquisição da refinaria norte-americana. Da Petrobrás pode-se esperar divergências internas, mas nunca incompetência, dado o elevado grau de conhecimento e experiência no ramo em que opera. À divergência radical entre os presidentes, somam-se os contraditórios na explicação dos fatos e dos números expostos num debate que abrangeu desde a prisão de um ex-diretor até a demissão de um diretor de subsidiária da estatal.

De passagem, a estranha informação de que transferir um diretor de uma diretoria da Petrobrás para uma diretoria equivalente na Transpetro – a gigante dos transportes da própria Petrobras – equivaleu a um “castigo” imposto por incompetência, má conduta, ou falha no desempenho de suas atividades.

Mas, em segundo lugar, não se explicou por que a Petrobrás comprou Pasadena. Poderia ser para aumentar a sua capacidade de refino a curto prazo; mas, também, para inserir-se no fabuloso mercado internacional, com fichas adicionais às de simples exportador; mas poderia ser ainda, para que o governador do estado americano recebesse festivamente o presidente da Petrobrás e o Brasil ganhasse alguns pontos no cenário internacional; etc.

Se a compra foi feita para aumentar as vendas do petróleo ou para melhor abastecer o mercado brasileiro, a análise da viabilidade poderá se limitar à conta dos retornos financeiros, de fácil elaboração. Mas se a razão do negócio foi de natureza estratégica, visando situações mercadológicas futuras ou ainda um melhor posicionamento do Brasil no concerto das nações e da Petrobrás no mercado internacional, então o resultado financeiro poderia ser até negativo, não sendo considerado lesivo aos interesses da empresa.

É estranho que considerações desse tipo não tenham aparecido nos debates. A discussão gira em torno dos resultados do negócio, tidos hoje como ruinoso e considerado, à luz da economia internacional da época, como muito atraente. E, se foi ruinoso, procura-se um mau gestor ou até mesmo um criminoso, sem levar em conta que resultados de empresas são, geralmente, oscilantes. Imagine-se o que seria dos diretores da General Motors, em 2008, quando a empresa foi “comprada” pelo governo norte-americano para não falir.

Mas, e se houve corrupção? Trata-se de investigação à parte e que deve ser feita.

Na linha dos debates que se travam, que precisam se aprofundar nas indagações das finalidades estratégicas dos negócios, sou tentado a pensar no futebol. Copa do Mundo ou Educação Nacional?

Este dilema, não discutido em tempo hábil, leva hoje adversários do governo e movimentos populares a contestar a “opção” pelo futebol e a considerar que o governo não pode aplicar dinheiro nisso. Ou seja, trata-se da copa como um negócio que deve dar lucros. Mas é só isso que se deve esperar, ou a grande motivação do povo, a redução do estresse nacional, a projeção internacional do País, o desenvolvimento de tecnologias, o emprego, o consumo adicional, etc., etc. devem ser considerados?

Eu não sou um aficcionado pelo futebol. Mas impressiona-me a vibração brasileira em torno do esporte, qualificando-o como um bem nacional, a ser preservado e estimulado. Não faz sentido tratá-lo como um negócio de ocasião, como não se quer ver assim tratados a educação, a cultura, a saúde, a moradia popular, os transportes.

Nem as refinarias.

Adriano M. Branco

 


 

 

 

Sobre Adriano Branco

Eng. Adriano Murgel Branco Adriano Murgel Branco, paulistano de 76 anos, é administrador e engenheiro eletricista formado por uma das melhores escolas de engenharia do país - a Universidade Mackenzie. Branco, foi consultor no Brasil e em Moçambique, professor universitário, ocupou inúmeros cargos públicos, entre eles o de secretário da Habitação e secretário dos Transportes do Estado de São Paulo, nos anos 80. Ocupou também, cargos privados como o de diretor da Coplan, da Trol S.A., da TCL, da Caio entre outras. Ministrou palestras no Brasil,México,Colômbia,Venezuela,Equador, Paraguai, Argentina, Uruguai, Peru e Chile sobre transporte, segurança rodoviária e habitação. É autor de mais de duas centenas de artigos em jornais e revistas, publicadas até na Inglaterra e Alemanha. Em 1972, foi publicada sua primeira monografia sobre Acidentes Rodoviários; em 1975 é publicada a Normatização Brasileira de Defesa Rodoviárias. Teve também três de suas monografias publicadas em 1978: Trólebus,Tendências Modernas dos transportes Coletivos Pneumáticos e Transportes Urbanos por Trólebus; nos anos oitenta foram publicadas: Uma visão Sistêmica do Transporte Urbano, O Transporte Urbano no Brasil e A Prevenção dos Recursos Hídricos no Estado de São Paulo. Seus livros mais ressentem são Segurança Rodoviária, O Financiamento de Obras e de Serviços Públicos, em parceria com o Adilson Abreu Dallari, e Desenvolvimento Sustentável na Gestão de Serviços Públicos, em parceria com o economista Márcio Henrique Bernardes Martins.

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