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ECOS DA MODERNIDADE

Artigo publicado na Coluna Ponto de vista (site ANTP), em 03/08/13
http://www.antp.org.br/website/noticias/ponto-de-vista/show.asp?npgCode=EFA7749D-582A-4A6F-B404-42F393806FE1

Há 55 anos avaliou-se em São Paulo que a má qualidade dos transportes públicos e a consequente precariedade do trânsito causavam prejuízos à sociedade equivalentes a 1,5 vezes o orçamento municipal! E dentre as causas de tais perdas estava a queda da produtividade de toda a população submetida às más condições da mobilidade urbana.

Venho insistindo nessa tese desde que os professores Paulo Assiz Ribeiro e Antonio Dias Leite elaboraram o estudo, em 1958, que deu origem a tal constatação. Não obstante, poucos analistas dessa questão deram a devida importância a esse fator de devida perda de produtividade, que é comparável aos “coeficientes de fadiga”, tão estudados pela indústria.

Insisti muito nessa análise, quando fui conselheiro da CPTM e do Metrô (1995/2000). Escrevi artigos e batalhei para que aquelas companhias desenvolvessem avaliações dos “lucros” sócio-ambientais resultantes das qualidades técnicas e operacionais do transporte de massa, do que resultaram os “balanços sociais” publicados anualmente pelas duas empresas. Todavia, não tem feito parte desses balanços – como, de resto, dos demais estudos assemelhados – a avaliação das perdas oriundas das quedas de produtividade que o “estresse urbano” promove.

Mas o mundo prospera, embora lentamente. Vários estudos recentes vêm procurando avaliar objetivamente os custos das fadigas sociais. Destaco, dentre eles, o artigo de Della Bradshaw, publicado pelo Financial Times e reproduzido pelo VALOR (17/7/13), cujo título é muito significativo: “Escolas dizem que ser feliz aumenta a produtividade”.

Trata-se de verdade universal: a produtividade almejada por Frederich Taylor em seus estudos de racionalização do trabalho, tanto quanto aquela de que o Brasil precisa para se desenvolver, depende essencialmente do que o articulista chamou de “bem-estar subjetivo”.

Considerando o tema sob o enfoque administrativo, afirmam os analistas que “promover a felicidade na empresa faz sentido do ponto de vista comercial”. Esse tema, em estudo desde a década de 1980, sob a designação de “psicologia positiva”, ganhou ênfase com os avanços na neuropsicologia, que lhe acrescentaram rigor e transparência.

A produtividade, portanto – e esse conceito não é exclusivo do ensino – depende essencialmente da agenda da felicidade. “Mutatis, mutandis”, as várias formas de infelicidade tem a ver com a perda de produtividade.

O que dizer, então, da produtividade quotidiana de quem, para ir e vir do trabalho, despende quatro horas no transporte? De quem, além do tempo perdido e, com ele, as oportunidades de descanso, de convivência com a família, e de aprimoramento nos estudos, disputa à força o espaço nos veículos coletivos, submetendo-se não raro a assaltos e assédio sexual?

Várias formas desse crescente estresse urbano tem assustado a coletividade, como as brigas nos prédios de moradia ou nos condomínios, devido ao ruído insuportável que uns infligem a outros. É recente a notícia do assassinato de um jovem casal por um vizinho enfurecido que, ademais, suicidou. Sobre o tema, o jornal O Estado de São Paulo publicou artigo do antropólogo David Le Breton (em 2/6/2013) que, sob o título “Ecos da Modernidade”, discutiu as fronteiras entre o silêncio e o barulho na vida moderna.

Outra consequência danosa do estilo de vida atual é a poluição ambiental, que responde por boa parcela das perdas sociais, atingindo diretamente a qualidade de vida. Notícia publicada pelo jornal Valor Econômico (9/7/2013) nos dá conta de que a contaminação atmosférica no Norte da China está encurtando a vida das pessoas em cerca de 5,5 anos, em relação às do Sul. Em grande parte, isso decorre da política de distribuição gratuita de carvão, para o aquecimento domiciliar, uma aparente conquista social, de elevado custo para a população.

Todos esses incômodos da modernidade, com grande destaque para aqueles promovidos pela mobilidade (ou pela falta dela) assumem hoje, visivelmente, dimensões assustadoras. Como não levá-los em conta, então, nos cálculos dos prejuízos causados pela dificuldade de locomoção? Eles fazem parte da “infelicidade” resultante do que se poderá classificar como “estresse urbano”, que reduz a produtividade de todos nós, agentes ativos ou passivos da grande desordem.

Adriano Murgel Branco

 


 

 

 

Sobre Adriano Branco

Eng. Adriano Murgel Branco Adriano Murgel Branco, paulistano de 76 anos, é administrador e engenheiro eletricista formado por uma das melhores escolas de engenharia do país - a Universidade Mackenzie. Branco, foi consultor no Brasil e em Moçambique, professor universitário, ocupou inúmeros cargos públicos, entre eles o de secretário da Habitação e secretário dos Transportes do Estado de São Paulo, nos anos 80. Ocupou também, cargos privados como o de diretor da Coplan, da Trol S.A., da TCL, da Caio entre outras. Ministrou palestras no Brasil,México,Colômbia,Venezuela,Equador, Paraguai, Argentina, Uruguai, Peru e Chile sobre transporte, segurança rodoviária e habitação. É autor de mais de duas centenas de artigos em jornais e revistas, publicadas até na Inglaterra e Alemanha. Em 1972, foi publicada sua primeira monografia sobre Acidentes Rodoviários; em 1975 é publicada a Normatização Brasileira de Defesa Rodoviárias. Teve também três de suas monografias publicadas em 1978: Trólebus,Tendências Modernas dos transportes Coletivos Pneumáticos e Transportes Urbanos por Trólebus; nos anos oitenta foram publicadas: Uma visão Sistêmica do Transporte Urbano, O Transporte Urbano no Brasil e A Prevenção dos Recursos Hídricos no Estado de São Paulo. Seus livros mais ressentem são Segurança Rodoviária, O Financiamento de Obras e de Serviços Públicos, em parceria com o Adilson Abreu Dallari, e Desenvolvimento Sustentável na Gestão de Serviços Públicos, em parceria com o economista Márcio Henrique Bernardes Martins.

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