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O RELÓGIO DA NATUREZA – II

Em março publiquei o artigo “O relógio da Natureza – I”, dedicado ao tema que hoje se conclui. Aproveitando o título que se refere a uma genial idéia do Prof. José Carlos Teixeira Moreira, vamos hoje medir o tempo consumido para a realização de mais algumas iniciativas públicas de grande relevância.

A primeira delas refere-se à produção de eletricidade, capturando-se a energia dos ventos, tecnologia hoje muito desenvolvida e utilizada em escala industrial, para se incorporar às chamadas “energias limpas”.

Mas foi em 1935 que o eng. Catullo Branco, da Inspetoria de Serviços Públicos, da Secretaria da Viação e Obras Públicas do Estado de São Paulo escreveu trabalho talvez inédito, até então, em língua portuguesa, acerca das “Instalações Eolianas”, publicado por aquela Inspetoria.

Percorrendo a vasta experiência mundial nesse mister, a começar pelo emprego dessa tecnologia pelos egípcios, na elevação das águas do rio Nilo para irrigação dos campos de trigo, assim como a referência à antigas rodas de Alexandria, Catullo discorre sobre o histórico e o estado da arte da produção de energia eólica, em todo o mundo, por volta de 1935. Também aproveita o ensejo para mostrar como se calculam os diversos dispositivos captadores do vento.

Mas o que mais impressiona no texto é a referencia a um grande número de experimentos nessa área, proporcionados pela antiga Inspetoria de Serviços Públicos, e a construção de artefatos experimentais nas oficinas da Repartição de águas e Esgotos e da Estrada de Ferro Campos do Jordão.

O Relógio da natureza estava, à época, em marcha acelerada para dominar a tecnologia da captação dos ventos para produzir energia, especialmente a elétrica. Pena que só agora, passados mais de 70 anos, o nosso país se de conta da importância da produção de energia limpa.

Retornando ao tema da energia limpa, é o mesmo Catullo que dá novas demonstrações do antigo empenho do setor público em caminhar em tal direção. Em 1939, preocupado com a difusão dos conhecimentos acerca da produção da hidroeletricidade, escreveu o livro Técnica Hidro Elétrica, destinado aos estudantes do Instituto de Tecnologia de São Paulo e aos estudiosos do assunto.

Assentadas as bases de seu conhecimento, Catullo visitou, em 1941, nos Estados Unidos, as obras do TVA – Tenessee Valley Authority, instituição símbolo da presença do estado no famoso programa de recuperação da economia nacional, idealizado e implantado pelo presidente Franklin D. Roosevelt, em seu programa New Deal. Mas não só se dispunha a TVA a produzir eletricidade: em seu ideário estava o aproveitamento múltiplo das águas para a navegação, irrigação, piscicultura, saneamento, regularização das cheias e…produção de eletricidade.

De volta ao Brasil, Catullo deu ênfase à concepção de um plano de aproveitamento dos rios paulistas, nos termos da experiência norte-americana, plano esse que só vingou na bacia do rio Tietê, cujas obras se iniciaram na década de 1950 e cujos reservatórios foram concluídos na década de 2000.

Pensada na década de 1940 e praticamente exitosa, quanto ao uso múltiplo das águas, na década de 2000, ou seja 60 anos depois, a navegação na bacia do Tietê/Paraná é hoje muito promissora, especialmente após a Transpetro haver encomendado 80 barcaças e 20 empurradores para o transporte de etanol, triplicando a participação do modo hidroviário na matriz de transportes do estado de São Paulo, onde caminhões respondem por mais de 80%, consumindo combustível, produzindo danos ambientais e vários outros inconvenientes para a natureza e para a sociedade.

O “relógio da natureza” pareceu emperrado por longos anos. Mas o País toma hoje consciência da importância da navegação fluvial e costeira, dedicando-se sobretudo ao planejamento da utilização dos 40.000 km de rios navegáveis que possui para o transporte e para a energia limpos.

Adriano M. Branco

 


 

 

 

Sobre Adriano Branco

Eng. Adriano Murgel Branco Adriano Murgel Branco, paulistano de 76 anos, é administrador e engenheiro eletricista formado por uma das melhores escolas de engenharia do país - a Universidade Mackenzie. Branco, foi consultor no Brasil e em Moçambique, professor universitário, ocupou inúmeros cargos públicos, entre eles o de secretário da Habitação e secretário dos Transportes do Estado de São Paulo, nos anos 80. Ocupou também, cargos privados como o de diretor da Coplan, da Trol S.A., da TCL, da Caio entre outras. Ministrou palestras no Brasil,México,Colômbia,Venezuela,Equador, Paraguai, Argentina, Uruguai, Peru e Chile sobre transporte, segurança rodoviária e habitação. É autor de mais de duas centenas de artigos em jornais e revistas, publicadas até na Inglaterra e Alemanha. Em 1972, foi publicada sua primeira monografia sobre Acidentes Rodoviários; em 1975 é publicada a Normatização Brasileira de Defesa Rodoviárias. Teve também três de suas monografias publicadas em 1978: Trólebus,Tendências Modernas dos transportes Coletivos Pneumáticos e Transportes Urbanos por Trólebus; nos anos oitenta foram publicadas: Uma visão Sistêmica do Transporte Urbano, O Transporte Urbano no Brasil e A Prevenção dos Recursos Hídricos no Estado de São Paulo. Seus livros mais ressentem são Segurança Rodoviária, O Financiamento de Obras e de Serviços Públicos, em parceria com o Adilson Abreu Dallari, e Desenvolvimento Sustentável na Gestão de Serviços Públicos, em parceria com o economista Márcio Henrique Bernardes Martins.

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