Imprimir este post Imprimir este post

DEMOCRACIA DO OUTONO OCIDENTAL NA PRIMAVERA ÁRABE

            Em quase todos os comentários sobre o advento e progresso da Primavera Árabe, leu-se e ouviu-se que, nascido na Tunísia, passado pelo Egito e chegado à Líbia, esse movimento buscava tirar países das mãos de governantes despóticos, donos do poder ao longo de décadas, para neles instalar democracias. E, quando se fala em democracia é necessário reconhecer os Estados Unidos como “a maior democracia do planeta”, escrevem os órgãos de comunicação.

            Nesse movimento democratizante os países democratizados logo procuraram ajudar aqueles que buscavam derrubar as suas ditaduras. Ajudar significava fornecer armas (o que os democratas sempre fizeram em favor de qualquer governo de seu interesse, democrata ou não), liberar créditos eventualmente congelados em represália a alguma rusga com as Nações Unidas, dar cobertura política no seio das demais nações. Mas não significava invadir o território do país que se quer democratizar.

            Mas logo veio a exceção: na Líbia, como o governante, além de ditador era antipatizado e/ou hostilizado pelos democráticos, admitiu-se uma ajuda que incluía a defesa do espaço aéreo em favor dos insurgentes. Mas como tudo que sobe termina descendo, a artilharia aérea acabou despejando artefatos no solo, o que se converteu num convite a uma destruição maciça das cidades, com, evidentemente, muitas mortes. Foi uma Primavera sem flores e com muita pólvora…

           

            De qualquer maneira, abriu-se o espaço para a democracia, tendo desde logo o povo exercido a sua soberania, matando Kadafi. Foi um aprendizado colhido junto à maior democracia do mundo, que matou Saddam Hussein e matou Bin Laden…

            Agora é o momento de definir a democracia que se deseja. No plano puramente teórico, DEMOCRACIA, segundo o Dicionário Houaiss, é:

 Democracia

1. Governo em que o povo exerce a soberania

2. Sistema político em que os cidadãos elegem os seus dirigentes por meio de eleições periódicas.

3. Regime em que há liberdade de associação e de expressão e no qual não existem distinções ou privilégios de classe hereditários ou arbitrários.

4. País em que prevalece um governo democrático

              No rol das definições, cabe ainda dizer:

a)     democracia direta é a forma de organização política em que o povo controla diretamente a gestão da sociedade, por meio de referendos, plebiscitos e outros instrumentos legais.

b)     Democracia representativa é organização social em que o povo, através de eleições, outorga mandatos a representantes que passarão a exercer a autoridade em seu nome.

 

            Os novos democratas, entretanto, não sabem exatamente como aplicar esses conceitos. Hão de buscar o exemplo, então, nas grandes democracias.

            A Inglaterra, por exemplo, é uma democracia. Mas, ao arrepio da ONU e por mera sabujice junto aos Estados Unidos, ela enviou tropas para ajudar o país amigo a derrotar o Iraque e matar o seu governante. Depois, o seu primeiro ministro, que dizia estar defendendo o mundo de possíveis ataques nucleares a partir do Iraque, desculpou-se dizendo: “eu não sabia que o Iraque não tinha esses artefatos”. Na verdade, ele deliberadamente ignorou as informações da Agência Internacional de Energia Atômica, segundo as quais o país atacado não tinha tecnologia nuclear.

            Como entender essa democracia inglesa, cujos os governantes invadem o país adversário, mentem para o povo que os elegeu, cooptam o legislativo e fica tudo por isso mesmo?

            Mas os Estados Unidos são uma democracia. Veja-se que, hoje, boa parte do seu povo está nas praças públicas reclamando livremente da desigualdade entre os cidadãos, que se amplia cada vez mais com a crise econômica. E também reclamam da prevalência das forças econômicas sobre as forças da democracia. Mas ainda reclamam das trapaças engendradas nos bancos e que levaram à crise econômica mundial, que duplicou o número de desempregados e empobreceu os norte-americanos. Mais ainda, reclamam que o seu governo, ao tentar reequilibrar a situação, premiou com gordos subsídios os bancos e empresas que trapacearam com o povo, deixando milhares (ou milhões) de cidadãos sem as suas poupanças duramente amealhadas, sem as moradias hipotecadas e até mesmo sem os recursos de sua aposentadoria; para completar, as empresas falidas agradeceram aos seus dirigentes, disponibilizando para eles centenas de milhões de dólares, a título de “bônus” pela sua competência e esforço.

            Mas, e a democracia?

            Ela já vem sendo posta em dúvida nos EUA, porque lá somente um terço dos cidadãos é que votam. Depois, o candidato que tem o maior quociente eleitoral pode não ser o eleito. E, finalmente, os resultados podem ser fraudados, como ocorreu na derrota de Al Gore. Assim, fica difícil dizer que há um governo “ do povo, pelo povo, para o povo”.

            Por outro lado, quanto mais liberal é essa democracia, menos controle o estado exerce sobre as forças econômicas. E, de repente, descobre que os bancos e as grandes empresas – aqueles que não podem falir – viraram a economia de cabeça para baixo e arrastaram o mundo nessa aventura.

            Mas resta o poder, ao cidadão, de estrilar em praça pública. Resta mesmo? Em artigo publicado no Estadão de 04/11/11, a ativista política Naomi Wolf escreve: “Políticos fartos de democracia, polícia contra o povo”. E o mesmo jornal noticia, através da pena (ou do computador) da jornalista Denise Marin, que “Zona Portuária Vira Campo de Batalha – Polícia dispersou manifestantes e grevistas”, em Oakland, na Califórnia. É o “Ocupe Oakland” em marcha, protestando em várias  cidades contra os ganhos do setor financeiro e as manobras nada democráticas e sem controle que estão afetando profundamente a vida dos americanos.

            Curiosamente, a democracia está sendo vista, cada vez mais, como um valor independente da moralidade administrativa, das liberdades, etc. À guisa de exemplo, vale citar o embaixador Rubens Barbosa que, em seu interessante livro “O Dissenso de Washington”, diz que “Lula e Bush concordaram em estabelecer consultas regulares e trabalhar em conjunto para a prosperidade, a governabilidade democrática e a paz nas Américas e, mais particularmente, para defender a democracia, a tolerância, a liberdade religiosa e de imprensa, a ampliação das oportunidades econômicas e o primado da lei”. E o mundo pensava que tudo isso já fosse a DEMOCRACIA. Tanto assim que as intervenções militares e as sansões econômicas, que os principais manda-chuvas praticam contra terceiros, sempre são defendidas como o caminho para a democracia, que parece ser um bem único, de caráter universal.

            Em nome desse valor, Inglaterra e Israel ameaçam agora bombardear o Irã, sob as vistas complacentes das demais democracias. É uma ação mais agressiva do que aquela que os Estados Unidos praticaram,  anos atrás, contra o mesmo Irã, derrubando o primeiro ministro constitucional e restabelecendo a monarquia. Em nome da paz democrática?

            Nada a estranhar, portanto, que as nações oprimidas recorram à Primavera Árabe para se libertar, enquanto aquelas dominadas por forças econômicas sem entranhas engendram o seu Outono do Ocidente. Ao mesmo tempo, os países da liberdade ameaçam a Palestina por querer participar da ONU e de seus organismos multilaterais e chantageiam as demais nações com o corte de verbas da UNESCO.

            Para onde vamos? É a pergunta cada vez mais difícil de responder.

 

Adriano M. Branco

 


 

 

 

Sobre Adriano Branco

Eng. Adriano Murgel Branco Adriano Murgel Branco, paulistano de 76 anos, é administrador e engenheiro eletricista formado por uma das melhores escolas de engenharia do país - a Universidade Mackenzie. Branco, foi consultor no Brasil e em Moçambique, professor universitário, ocupou inúmeros cargos públicos, entre eles o de secretário da Habitação e secretário dos Transportes do Estado de São Paulo, nos anos 80. Ocupou também, cargos privados como o de diretor da Coplan, da Trol S.A., da TCL, da Caio entre outras. Ministrou palestras no Brasil,México,Colômbia,Venezuela,Equador, Paraguai, Argentina, Uruguai, Peru e Chile sobre transporte, segurança rodoviária e habitação. É autor de mais de duas centenas de artigos em jornais e revistas, publicadas até na Inglaterra e Alemanha. Em 1972, foi publicada sua primeira monografia sobre Acidentes Rodoviários; em 1975 é publicada a Normatização Brasileira de Defesa Rodoviárias. Teve também três de suas monografias publicadas em 1978: Trólebus,Tendências Modernas dos transportes Coletivos Pneumáticos e Transportes Urbanos por Trólebus; nos anos oitenta foram publicadas: Uma visão Sistêmica do Transporte Urbano, O Transporte Urbano no Brasil e A Prevenção dos Recursos Hídricos no Estado de São Paulo. Seus livros mais ressentem são Segurança Rodoviária, O Financiamento de Obras e de Serviços Públicos, em parceria com o Adilson Abreu Dallari, e Desenvolvimento Sustentável na Gestão de Serviços Públicos, em parceria com o economista Márcio Henrique Bernardes Martins.

Your email is never shared.
Required fields are marked *




ZAW