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A LONGA CAMINHADA PARA O OUTONO DO OCIDENTE

Adriano M. Branco

Os movimentos de rua em vários países, que vem se caracterizando, nos EUA, pelo “Occupy Wall Street”, refletem o desencanto da grande maioria das populações com o rumo adotado pelo países chamados democráticos, que os levou à atual crise. Está claro, hoje, que a governança escapou das mãos dos eleitos para governar, ficando cada vez mais dependente das forças econômicas internacionais. E, aí, cabe discutir os reais valores da democracia moderna, que o primeiro mundo pretende ver instalada nas demais nações, como conseqüência de movimentos do tipo Primavera Árabe.

Mas não é de hoje que figuras de destaque no cenário internacional chamam a atenção para os vícios e erros das democracias ocidentais, como o fez o famoso sociólogo padre Louis Joseph Lebret, em seu livro “Suicídio ou Sobrevivência do Ocidente”, publicado há 53 anos, em 1958 que poderiam comprometê-las irremediavelmente.

Também o discurso que Jimmy Carter proferiu em 15/07/1979, quando presidente dos Estados Unidos, preocupado com as desigualdades consagradas no mundo, capazes de tornar difícil a convivência entre nações e até entre os próprios cidadãos americanos, e que já davam origem a um sentimento de perda de confiança no futuro. Pela sua importância e atualidade, transcrevo aqui aquele pronunciamento.

 

Discurso do Presidente Carter, 15/07/1979

Boa Noite!

Esta noite é especial para mim.

Há exatamente três anos, em 15 de Julho de 1976, eu aceitei a indicação do meu partido para concorrer a presidente dos EUA.

Prometi ser um presidente que não se isolaria do povo, entenderia seus problemas, compartilharia de seus sonhos e buscaria sua força e sua sabedoria com vocês.

Nos últimos 3 anos, falei com vocês em muitas ocasiões sobre problemas nacionais, a crise energética, a reorganização do governo, a economia do nosso país e questões de guerra e especialmente de paz. Mas nesses anos, o assunto dos discursos e entrevistas à imprensa se tornaram cada vez mais limitados, concentrados cada vez mais no que o isolado mundo de Washington acha importante. Gradualmente, ouviram mais o que o governo pensa ou que o governo deveria fazer e menos sobre as esperanças da nação, nossos sonhos e nossa visão do futuro.

Há dez dias, planejei falar com vocês sobre um assunto muito importante, a energia. Pela quinta vez, eu iria descrever a urgência do problema e identificar uma serie de recomendações ao Congresso, mas quando eu me preparava para falar, comecei a me perguntar algo que sei que preocupa muitos de vocês.

“Por que não fomos capazes de nos unir como uma nação para resolver nosso sério problema de energia?”

É claro que os verdadeiros problemas de nosso país são mais profundos. Mais profundos que as filas para a gasolina e a escassez de energia. Mais profundos que a inflação ou a recessão.

Quero falar com vocês hoje sobre um assunto ainda mais sério que a energia ou a inflação. Quero falar agora sobre uma ameaça fundamental à democracia americana.

Não estou falando de liberdades políticas ou civis. Essas perdurarão. E não me refiro à força dos Estados unidos, uma nação que está hoje em paz em todo o mundo com poder econômico e militar sem par.

A ameaça é quase invisível de várias formas. É uma crise de confiança. É uma crise que ataca o coração, a alma e o espírito da nação. Podemos ver a crise nas dúvidas crescentes sobre o sentido de nossas vidas e na perda da unidade de propósito para nosso país. Nosso progresso é parte da história viva dos Estados Unidos e do mundo. Sempre acreditamos que fazemos parte do grande movimento da humanidade chamado democracia, envolvidos na busca pela liberdade, e essa convicção sempre fortaleceu nosso propósito. Mas agora estamos perdendo confiança no futuro e fechando a porta para nosso passado. Em um país que tinha orgulho de seus esforços, suas famílias fortes, comunidades unidas e sua fé em Deus, muitos de nós tendem a idolatrar o esbanjamento e consumo.

A identidade humana não é mais definida por aquilo que se faz, mas sim por aquilo que se possui. Mas descobrimos que possuir coisas e consumir não satisfaz nosso desejo por um sentido na vida. Aprendemos que acumular bens materiais não preenche o vazio de vidas que não tem confiança ou propósito.

Os sintomas dessa crise do espírito americano estão em torno de nós.

Pela primeira vez na nossa história, a maioria das pessoas acredita que os próximos cinco anos serão piores que os cinco anos passados. Dois terços das pessoas sequer votam. A produtividade dos trabalhadores americanos está caindo e a disposição dos americanos em economizar para o futuro é menor do que a de todos os outros povos ocidentais. Como sabem, há um desrespeito cada vez maior pelo governo, igrejas, escolas, meios de comunicação e outras instituições.

Esta não é uma mensagem de felicidade ou tranqüilidade. Mas é a verdade e uma advertência. Essas mudanças não ocorreram do dia para a noite. Ocorreram gradualmente ao longo da última geração, anos que foram repletos de choques e tragédia. Tínhamos certeza que nosso país era movido a votos, não a tiros, até os assassinatos de John Kennedy, Robert Kennedy e Martin Luther King Jr. Aprendemos que nossos exércitos eram sempre invencíveis e nossas causas sempre justas até que sofremos a agonia do Vietnã. Respeitamos a presidência como um lugar de honra até o choque de Watergate. Lembramos quando a frase “firme como um dólar” era uma expressão de confiabilidade plena até que dez anos de inflação encolheram o dólar e nossa poupança. Acreditávamos que os recursos de nosso país eram ilimitados até 1973, quando se iniciou uma dependência do petróleo estrangeiro. Essas feridas ainda são profundas. Não foram curadas.

Procurando um meio de sair da crise, nosso povo se voltou para o governo federal e o viu isolado da vida real da nação. Washington havia se tornado uma ilha. A distância entre os cidadãos e o governo nunca foi tão grande. O povo quer respostas honestas, não respostas fáceis. Liderança clara, não alegações falsas e evasivas, a política de sempre. O que se vê em Washington e outros lugares do país é um sistema de governo que parece incapaz de agir. Você vê um Congresso dividido e pressionado em muitas direções por centenas de interesses especiais, poderosos e bem financiados. Você vê cada posição extrema defendida voto a voto ate a exaustão por um ou outro grupo inflexível.

Freqüentemente se vê uma atitude equilibrada e justa que exige o sacrifício de todos abandonada como um órfão sem apoio e sem amigos. Freqüentemente se vê paralisia, estagnação e falta de foco.

Você não gosta disso e eu também não.

O que podemos fazer?

Primeiro, devemos encarar a verdade, e aí podemos mudar de curso.

Precisamos ter fé uns nos outros, fé em nossa habilidade de nos governar e no futuro da nação. Restaurar essa fé e a confiança nos Estados Unidos é agora a tarefa mais importante que temos.

É um verdadeiro desafio para esta geração de americanos. Nossos pais foram homens e mulheres fortes que formaram uma nova sociedade durante a Grande Depressão, que lutaram em guerras mundiais e que criaram um novo compromisso pela paz no mundo.

Nós somos os mesmos americanos que há dez anos colocaram o homem na lua. Somos a geração que se dedicou à busca dos direitos humanos e da igualdade. Somos a geração que vai ganhar a guerra do problema energético e reconstruir a unidade e a confiança dos Estados Unidos.

Estamos num momento decisivo da nossa história.

Há dois caminhos a escolher. Um é o caminho sobre o qual adverti hoje, o caminho que leva à fragmentação e ao interesse individual. No fim da estrada repousa uma idéia equivocada de liberdade, o direito de tirar para nós as vantagens dos outros. Esse caminho seria de conflito constante entre interesses mesquinhos e terminaria no caos e na imobilidade. É uma rota certa para o fracasso.

Todas as tradições de nosso passado e as lições de nossa tradição, todas as promessas para o futuro indicam outro caminho, o caminho de um propósito comum e da restauração dos valores americanos. Esse caminho leva à verdadeira liberdade para nós e nosso país. Podemos dar os primeiros passos neste caminho começando a resolver o problema da energia. A energia será o teste imediato de nossa capacidade de unir a nação e poderá ser o padrão para nosso esforço comum. No campo de batalha da energia, podemos conquistar para o país uma nova confiança e podemos assumir o controle de nosso destino comum.

Em pouco mais de duas décadas, passamos de uma posição de independência energética para quase metade do petróleo que usamos vir de países estrangeiros a preços exorbitantes. Nossa dependência excessiva da Opep já custou caro demais para nossa economia e nosso país. Esta é a causa direta das longas filas com milhões de vocês perdendo horas irritantes esperando pela gasolina. É a causa do aumento da inflação e do desemprego atual. Essa dependência intolerável do petróleo estrangeiro ameaça nossa independência econômica e a segurança do país.

A crise energética é real. É mundial.

É um perigo claro e presente para nosso país.

Estes são os fatos e devemos enfrentá-los.

Em breve, apresentarei uma legislação ao Congresso pedindo a criação do primeiro banco solar do país que nos permitirá chegar à meta crucial de 20% de nossa energia provida pelo sol até o ano de 2000. Esse esforço vai custar dinheiro e é por isso que o Congresso precisa aprovar o imposto de ganhos súbitos. Será um dinheiro bem gasto. Ao contrário dos bilhões de dólares que enviamos a países estrangeiros para pagar pelo petróleo, esses fundos serão pagos por americanos para americanos. Esses fundos vão combater, não aumentar, a inflação e o desemprego. Proponho um ousado programa de conservação que envolve todos os estados e cidades e todo americano médio em nossa batalha energética. Esse esforço permitirá que vocês criem a conservação em nossas casas e em nossas vidas a preço acessível. Peço ao Congresso autoridade para a conservação obrigatória e para o racionamento da gasolina. Para conservar ainda mais a energia proponho mais US$ 10 bilhões na próxima década para fortalecer nosso sistema de transporte público.

Peço a vocês, para o seu bem e para a segurança da nação, que não façam viagens desnecessárias, que usem transporte solidário ou público quando puderem, que deixem o carro em casa pelo menos uma vez por semana, que obedeçam ao limite de velocidade e reduzam o aquecimento. Cada ato de conservação de energia é mais do que bom senso. É um ato de patriotismo. Nosso país precisa ser justo com os mais pobres, então aumentarei a ajuda aos americanos necessitados para que suportem a alta dos preços de energia. Sempre pensamos na conservação em termos de sacrifício. Na verdade, é a forma mais indolor e imediata de reconstruir a força de nosso país. Cada galão de petróleo economizado é uma nova forma de produção. Nos dá mais liberdade, mais confiança e mais controle sobre nossas vidas.

A solução para a crise energética pode também nos ajudar a vencer a crise do espírito em nosso país. Pode reafirmar nosso senso de unidade, nossa confiança no futuro e dar a nosso país e a todos nós um novo senso de propósito.

Não prometo que esta luta pela liberdade será fácil. Não prometo que será um modo rápido de resolver nossos problemas, quando a verdade é que a única solução é um empenho total. Só prometo que vou liderar nossa luta e impor a justiça em nossa batalha e garantir a honestidade. Aos poucos, podemos recuperar nossa confiança.

Podemos gastar até esvaziar nosso tesouro e podemos convocar as maravilhas da ciência, mas podemos ter sucesso apenas se usarmos nossos melhores recursos, o povo, os valores e a confiança dos Estados Unidos.

Para encerrar, deixe-me dizer isto.

Darei o melhor de mim, mas não sozinho.

Deixem que suas vozes sejam ouvidas. Quando tiverem uma chance, digam algo bom sobre nosso país. Com a ajuda de Deus e pelo bem de nosso país, é hora de darmos as mãos nos Estados Unidos.

Vamos nos comprometer com o renascimento do espírito americano. Trabalhando juntos com nossa fé comum, não podemos fracassar.

Obrigado e Boa Noite.

 


 

 

 

Sobre Adriano Branco

Eng. Adriano Murgel Branco Adriano Murgel Branco, paulistano de 76 anos, é administrador e engenheiro eletricista formado por uma das melhores escolas de engenharia do país - a Universidade Mackenzie. Branco, foi consultor no Brasil e em Moçambique, professor universitário, ocupou inúmeros cargos públicos, entre eles o de secretário da Habitação e secretário dos Transportes do Estado de São Paulo, nos anos 80. Ocupou também, cargos privados como o de diretor da Coplan, da Trol S.A., da TCL, da Caio entre outras. Ministrou palestras no Brasil,México,Colômbia,Venezuela,Equador, Paraguai, Argentina, Uruguai, Peru e Chile sobre transporte, segurança rodoviária e habitação. É autor de mais de duas centenas de artigos em jornais e revistas, publicadas até na Inglaterra e Alemanha. Em 1972, foi publicada sua primeira monografia sobre Acidentes Rodoviários; em 1975 é publicada a Normatização Brasileira de Defesa Rodoviárias. Teve também três de suas monografias publicadas em 1978: Trólebus,Tendências Modernas dos transportes Coletivos Pneumáticos e Transportes Urbanos por Trólebus; nos anos oitenta foram publicadas: Uma visão Sistêmica do Transporte Urbano, O Transporte Urbano no Brasil e A Prevenção dos Recursos Hídricos no Estado de São Paulo. Seus livros mais ressentem são Segurança Rodoviária, O Financiamento de Obras e de Serviços Públicos, em parceria com o Adilson Abreu Dallari, e Desenvolvimento Sustentável na Gestão de Serviços Públicos, em parceria com o economista Márcio Henrique Bernardes Martins.

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