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A PRIMAVERA ÁRABE E O OUTONO DO OCIDENTE

Deu-se o nome de Primavera Árabe ao conjunto de movimentos populares que aos poucos se implantou no mundo árabe, procurando mudar os regimes políticos vigentes, caracterizados pelo despotismo, pela restrita liberdade de manifestação, pela pouca ou nenhuma participação dos povos na condução de seus países, graças a regimes monárquicos e ditaduras que os governam.

Na verdade, esses regimes são abençoados de longa data por nações do primeiro mundo, transformando o velho colonialismo em regimes de dominação sem a presença física do colonizador. Há exceções, de países que não se alinham aos neocolonizadores, capitaneados pelos Estados Unidos, e que, por isso, são sistematicamente acusados de violações aos direitos humanos, etc. Por essas razões, uns e outros países tem governantes com 30 ou 40 anos de exercício do poder, algo que, para as chamadas nações democráticas, tornou-se insustentável. O tratamento delas, entretanto, pelos primeiro-mundistas revela normalmente a disposição de ajuda, quando são amigos, ou de censuras e bloqueios econômicos, quando não o são.

Umas e outras, porém, estão com suas populações na rua, clamando por reformas e esperando o apoio do mundo desenvolvido, que se manifesta através de ajudas econômicas e envio de armamentos aos insurretos ou, quando se trata de adversários, ações militares nos territórios nacionais, caracterizando-se como claras invasões. Em ambos os casos, a destruição e as mortes são o legado mais visível, nada garantindo que os vencedores das insurreições convertam os seus países em adeptos das liberdades e da verdadeira democracia.

Enquanto o mundo todo vem acompanhando as manifestações populares em favor das reformas nos chamados países árabes – a Primavera Árabe – os países do primeiro mundo são surpreendidos com crescentes manifestações de rua reivindicando a implantação de verdadeiras democracias, em que o poder econômico não se sobreponha ao poder político. É o Outono do Ocidente, cuja origem se deve à crise mundial nascida nos EUA em 2008 e que se espalhou por todo o primeiro mundo, com reflexos maiores ou menores nos demais mundos.

Mas o que levou as populações às ruas não foram a recessão e o desemprego e sim a constatação de que a origem dessa crise está em manobras visivelmente arriscadas e/ou fraudulentas, em que se envolveram os grandes bancos e as grandes seguradoras – empresas que, pelo seu tamanho, não podem falir – contando com as “armações” de importantes administradores privados e até acadêmicos provenientes de universidades de primeira linha, tudo isso sob as vistas complacentes das agências governamentais. Para culminar essa trágica visão, que carrega consigo as mais sérias dúvidas quanto à segurança que se esperava das democracias na defesa das igualdades sociais, o mundo se surpreendeu com a resposta dos governos à crise, principalmente do norte-americano, caracterizada pelo apoio financeiro às grandes instituições, em particular aos bancos, seguradoras e classificadoras de riscos, verdadeiros autores de toda a convulsão, contrastando com o abandono das principais vítimas, em especial os milhões de pessoas que perderam as suas casas e as suas poupanças, submetidas que foram às leis da “economia de mercado”.

Países inteiros foram atingidos pela recessão, a ponto de terem que ouvir de seus pares, como é o caso da Grécia, que somente seriam ajudados se se submetessem a rígidas regras econômicas, implicando isso em até alguma perda de sua soberania. E os países mais ricos só não abandonaram os mais pobres porque grande parte da dívida destes era para com os bancos daqueles…

A pergunta que hoje se faz é como o mundo se deixou levar por esses caminhos que hoje desembocam na Primavera Árabe, cujo desfecho, por melhor que seja, incluirá enormes perdas humanas e materiais? Que culminam, também, no Outono do Ocidente, que já proporcionaram perdas econômicas incomensuráveis e sofrimentos humanos de grandes proporções, se não conduzir a humanidade, ainda, a uma nova edição do fascismo?

A Primavera Árabe, sem meias palavras, é uma nítida conseqüência do colonialismo e do imperialismo que o sucedeu. Foram as forças do capitalismo que mantiveram em condição subalterna as nações árabes antes colonizadas, fundamentalmente para garantir o acesso às riquezas naturais daqueles países. Tal comportamento está bastante claro no DVD “FAHRENHEIT 11 de Setembro”, revelando que magnatas e autoridades do governo americano diziam: “Haverá muito petróleo para extrair no Iraque; por isso se justificam os sacrifícios que estamos fazendo”.

Em seu livro “Como meu Pai os Via”, Elliott Roosevelt, filho do presidente Franklin D. Roosevelt, descreve vários encontros entre grandes lideres mundiais – Roosevelt, Stalin, Churchill – que tiveram em suas mãos os destinos da humanidade, para discutir o futuro das nações. Uma das questões mais debatidas pelo presidente americano era a necessidade de acabar com o colonialismo, libertando os povos sob o domínio de vários países europeus. Certa feita, Churchill, incomodado com tal insistência, disse: “o povo inglês não está se empenhando nessa guerra para dissolver o império de sua Majestade”. Ao que Roosevelt retrucou: “muito menos estarão os Estados Unidos participando de uma guerra que não é sua, para garantir a integridade do império de sua Majestade”.

Mas Roosevelt morreu pouco antes do fim da guerra. Disso se aproveitaram os países colonialistas para descumprir todos os acordos anti-coloniais. Ao mesmo tempo, os Estados Unidos engendraram uma política “neo-colonialista” ou “imperialista”, para ir aos poucos “herdando” o domínio econômico das colônias, que acabaram se libertando de suas matrizes pela força das armas. O resultado disso foi a sustentação de vários ditadores e de monarquias arcaicas, pelos países do primeiro mundo, que desembocou na Primavera Árabe.

No que se refere aos movimentos do Outono do Ocidente, novamente a figura de Roosevelt se impõe, como o presidente que enfrentou a grande crise de 1929 com medidas econômicas hoje ditas keynesianas, de investimentos em infraestruturas e outras iniciativas tendentes a reverter a curva do desemprego. Ao mesmo tempo, controlou com firmeza e com o forte empenho do estado as ações do capital especulador, sem ter, para isso, que arranhar a democracia. Mas, com a sua morte, durante o seu quarto mandato, as forças do livre comércio foram conquistando o poder, reduzindo progressivamente a determinação do estado, através de medidas de adesão à economia de mercado, que se desdobraram em políticas de globalização, de desestatização, de privatização dos serviços públicos, etc. etc. Tais políticas atingiram o seu apogeu nos governos Thatcher e Reagan, que procuraram impô-las ao resto do mundo através dos organismos multilaterais do tipo FMI, Banco Mundial, etc.

Visava-se assim colocar na mesma arena o gorila e o sagüi, para disputar o mesmo mercado internacional…

Mas, na medida em que os controles do estado foram sendo substituídos pelas habilidades ladinas dos grandes grupos econômicos, o país perdeu o controle de sua economia, gerando a crise de 2008/2010, que hoje ameaça prolongar-se assustadoramente.

O que é importante reconhecer é que, por trás das ações imperialistas de dominação econômica dos países (às vezes pela força), como por trás da economia de mercado que arruinou a própria nação americana, sempre esteve um ator comum: a CORRUPÇÃO. Os norte-americanos estão vendo hoje que não basta um regime político em o povo eleja os governantes: é preciso que o Sistema não se corrompa, para que exista uma democracia de fato. É preciso que uma nação não subjugue a outra à custa de uma diplomacia mentirosa, através de ações militares ou sufocando a sua economia. É preciso que a dita democracia não seja corruptível.

É, portanto, perfeitamente compreensível que pessoas em todo o mundo estejam se mobilizando em praça pública contra as forças do mal, que submetem os povos às ditaduras ou infelicitam as nações pela asfixia econômica, valendo-se inexoravelmente, em momentos decisivos, da corrupção. E a decepção maior, especialmente no caso norte americano, é ver que a sua frágil democracia, conduzida pelas forças poderosas dos mercados e de seus mercadores, não tem antídoto para isso.

Adriano Branco

 


 

 

 

Sobre Adriano Branco

Eng. Adriano Murgel Branco Adriano Murgel Branco, paulistano de 76 anos, é administrador e engenheiro eletricista formado por uma das melhores escolas de engenharia do país - a Universidade Mackenzie. Branco, foi consultor no Brasil e em Moçambique, professor universitário, ocupou inúmeros cargos públicos, entre eles o de secretário da Habitação e secretário dos Transportes do Estado de São Paulo, nos anos 80. Ocupou também, cargos privados como o de diretor da Coplan, da Trol S.A., da TCL, da Caio entre outras. Ministrou palestras no Brasil,México,Colômbia,Venezuela,Equador, Paraguai, Argentina, Uruguai, Peru e Chile sobre transporte, segurança rodoviária e habitação. É autor de mais de duas centenas de artigos em jornais e revistas, publicadas até na Inglaterra e Alemanha. Em 1972, foi publicada sua primeira monografia sobre Acidentes Rodoviários; em 1975 é publicada a Normatização Brasileira de Defesa Rodoviárias. Teve também três de suas monografias publicadas em 1978: Trólebus,Tendências Modernas dos transportes Coletivos Pneumáticos e Transportes Urbanos por Trólebus; nos anos oitenta foram publicadas: Uma visão Sistêmica do Transporte Urbano, O Transporte Urbano no Brasil e A Prevenção dos Recursos Hídricos no Estado de São Paulo. Seus livros mais ressentem são Segurança Rodoviária, O Financiamento de Obras e de Serviços Públicos, em parceria com o Adilson Abreu Dallari, e Desenvolvimento Sustentável na Gestão de Serviços Públicos, em parceria com o economista Márcio Henrique Bernardes Martins.

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