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A ERA DA MENTIRA

               Sob o título acima, Mohamed ElBaradei, diplomata egípcio que foi diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) entre 1997 e 2009, escreveu um dos mais impressionantes livros da atualidade. Não que não se soubesse de muitos dos engodos que cercam o trabalho de controle da produção de elementos radioativos passíveis de elaboração de armas de destruição em massa; mas tais mentiras, descritas por um homem sério e que teve por 12 anos o encargo desse controle, a ele se dedicando de corpo e alma a ponto de ser agraciado com o Prêmio Nobel da Paz, em 2005, é realmente algo que impressiona.

                Os países que detém a tecnologia nuclear, especialmente os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança, não querem que outros a tenham, embora não ignorem a existência de outra meia dúzia de detentores desse conhecimento. Para não deixar disseminar o conhecimento, vigiam, através da AIEA, o que fazem nessa área os demais países.

                Entretanto, essa vigilância freqüentemente sai dos trilhos, convertendo-se em proibição até mesmo do desenvolvimento da tecnologia nuclear para fins pacíficos. E isso ocorre por conta do clima de desconfiança que envolve a iniciativa de muitos países.

                Já é difícil dizer que Israel pode ter artefatos bélicos nucleares e o Irã não. Por quê? Mas o bloqueio imposto a este país, como à Coréia do Norte, à Líbia, ao Iraque, dentre outros, na verdade tem servido para ações políticas que pouco tem a ver com o problema original. O caso mais evidente foi a ação de guerra dos Estados Unidos e da Inglaterra contra o Iraque, usando o pretexto da implantação, por este país, de indústrias de armas de destruição em massa que, ao final, sequer existiam. Mas durante as discussões prévias, não só os EUA mentiram desavergonhadamente sobre as investigações feitas, como, a certa altura, admitiram que, para forçar o Iraque a mudar de regime político, a guerra já se justificava…

                Foi tão lastimável o jogo de mentiras, neste caso, que o então ministro inglês Antony Blair mais tarde declarou não saber que tais indústrias não existiam. Outra mentira! Saiu-se melhor o atual primeiro ministro David Cameron quando disse: “nós abrimos mão de nossos valores em favor de nossos interesses”. Com chocante clareza Jackson Diehl afirmou, segundo o Estadão de 08/06/2011, que “o falso processo legal e a sórdida execução no meio da noite, de Saddam Hussein, aceleraram a guerra sectária no Iraque, em 2006”.

                Agora se repete o uso da desfaçatez em relação ao Irã. É impressionante ler em “A Era da Mentira” os estratagemas usados pelos EUA para incriminar o Irã, devido a suposta implantação de indústria bélica nuclear. O que nos lava a alma na leitura do livro acerca do Irã é a declaração de seu insuspeito autor no sentido de que a proposta do Brasil e da Turquia, comunicada em 17/05/2010, fora “um salto a frente”, no caminho da paz com o Irã. Todavia, a resposta dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança foi o aumento das sanções ao Irã! Em entrevista ao Jornal do Brasil, ElBaradei disse abismado: “o Ocidente rejeitou um sim como resposta”. Mas aqui a maior parte da imprensa tratara com escárnio a iniciativa brasileira. Pior ainda é que o presidente brasileiro Luiz Inácio havia recebido carta do presidente americano simpática à sua mediação no conflito. Mas a linha dura americana acabou vencendo o seu próprio presidente.

                Nesse vai e vem de subterfúgios, de mentiras, de desonestidades e safadezas de toda a sorte, o mundo todo se arrisca a catástrofes localizadas ou até mesmo globais.

                Referi a dois ou três episódios narrados no livro de ElBaradei; mas há 370 páginas de revelações que o mundo precisa conhecer, para participar mais ativamente do jogo diplomático internacional, entregue aos grandes interesses bélicos e colonialistas.

 

Adriano Branco

 


 

 

 

Sobre Adriano Branco

Eng. Adriano Murgel Branco Adriano Murgel Branco, paulistano de 76 anos, é administrador e engenheiro eletricista formado por uma das melhores escolas de engenharia do país - a Universidade Mackenzie. Branco, foi consultor no Brasil e em Moçambique, professor universitário, ocupou inúmeros cargos públicos, entre eles o de secretário da Habitação e secretário dos Transportes do Estado de São Paulo, nos anos 80. Ocupou também, cargos privados como o de diretor da Coplan, da Trol S.A., da TCL, da Caio entre outras. Ministrou palestras no Brasil,México,Colômbia,Venezuela,Equador, Paraguai, Argentina, Uruguai, Peru e Chile sobre transporte, segurança rodoviária e habitação. É autor de mais de duas centenas de artigos em jornais e revistas, publicadas até na Inglaterra e Alemanha. Em 1972, foi publicada sua primeira monografia sobre Acidentes Rodoviários; em 1975 é publicada a Normatização Brasileira de Defesa Rodoviárias. Teve também três de suas monografias publicadas em 1978: Trólebus,Tendências Modernas dos transportes Coletivos Pneumáticos e Transportes Urbanos por Trólebus; nos anos oitenta foram publicadas: Uma visão Sistêmica do Transporte Urbano, O Transporte Urbano no Brasil e A Prevenção dos Recursos Hídricos no Estado de São Paulo. Seus livros mais ressentem são Segurança Rodoviária, O Financiamento de Obras e de Serviços Públicos, em parceria com o Adilson Abreu Dallari, e Desenvolvimento Sustentável na Gestão de Serviços Públicos, em parceria com o economista Márcio Henrique Bernardes Martins.

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