O NACIOLISMO DE ITAMAR FRANCO
Dentre as muitas qualidades de Itamar Franco, lembradas por ocasião de seu falecimento, chamou a atenção a referência feita, por alguns, ao seu perfil nacionalista. Pareceu algo singular, pois de há muito tempo essa qualidade foi esquecida.
Itamar Franco fez parte de uma geração de jovens muito ativos na política nacional. Encerrado o período de exceção do governo de Getúlio Vargas e vivida a primeira experiência democrática, a geração dele, a esta altura com idades em torno dos vinte anos, teve a oportunidade de viver momentos de grande agitação política, deles participando: a tentativa de depor Getúlio Vargas, que culminou com o seu suicídio; o movimento contra a posse de Juscelino Kubitschek, que ensejou medidas de força contra o governo instalado; as ameaças militares de Jacareacanga e Aragarças; a eleição e renúncia de Jânio Quadros; a tentativa de impedir a posse de João Goulart, que veio desaguar no golpe militar de 1964, que levou o País a 21 anos de ditadura.
A juventude que viveu os primeiros anos de redemocratização na década de 1950 teve grande participação nos movimentos sociais, não só se manifestando relativamente aos episódios citados, mas também indo às ruas em defesa do monopólio estatal do petróleo, contra a exploração das areias monazíticas, contra as manifestações racistas e em apoio de muitas ações progressistas em favor da liberdade de expressão e da consolidação democrática. Vivemos, enfim, entre 1945 e 1964, um rico período de avanços sociais e consolidação das políticas de desenvolvimento de Getúlio Vargas e de Juscelino Kubitschek.
Dentre tantos brasileiros que participaram ativamente de tais movimentos, podem-se citar, ao lado de Itamar Franco, Ulisses Guimarães, Almino Affonso, Mário Covas, Miguel Arrais, Silvio Lins, Ida Maria, Franco Montoro, Fernando Henrique Cardoso, José Gregori, Fernando Gasparian…, etc., etc.
Embora se pudesse identificar tendências políticas com matizes diferentes, um lema nos unia: o nacionalismo. Sob essa bandeira se criou a Petrobrás, se instituiu um grande programa de desenvolvimento, se aparelhou o Estado para assumir a enorme tarefa do desenvolvimento econômico e social, para controlar efetivamente as concessões de serviços públicos e para explorar diretamente os recursos naturais. Ser nacionalista era lutar por um país soberano, dono de suas riquezas, voltado para a maior inclusão social, para o aperfeiçoamento da democracia, para a solidariedade universal.
O governo militar de 1964 de um lado manteve políticas nacionalistas; mas, de outro, fez tábula rasa dos princípios democráticos, perseguindo e torturando adversários e criando um vácuo de 20 anos na participação, principalmente dos jovens, no debate das questões nacionais. Essa geração silenciada viveu momento oposto àquele da juventude de Itamar Franco.
De regresso à Democracia, a partir de 1985, o País viveu momentos de grande dificuldade política e econômica, herança da longa penumbra do regime militar. Mas, a partir de 1992, houve a oportunidade de um verdadeiro nacionalista assumir o comando do País: Itamar Franco. Embora pressionado para aderir à chamada “política de mercado”, imposta pelo Fundo Monetário Internacional aos países que dele se socorressem, Itamar foi capaz de resistir, conduzindo o Brasil ao equilíbrio econômico-financeiro, mas sem abrir mão da condução dos interesses nacionais mais importantes, recusando uma política de desregulamentação, que se converteu em uma política de desnacionalização, a partir de 1995.
A grande diferença entre a linha de ação de Itamar e aquela que se seguiu ao seu mandato foi exatamente a defesa das riquezas naturais e a presença positiva do Estado no desenvolvimento nacional. Enquanto países altamente desenvolvidos, como os Estados Unidos e a Inglaterra, entregaram a condução de seu progresso às “forças do mercado”, forçando o resto do mundo a seguir-lhes os passos, através das imposições do FMI e de Consenso de Washington, o governo de Itamar manteve a linha nacionalista que, apesar das concessões feitas a partir de 1995, impediu o Brasil de sofrer os fortes impactos da crise de 2008, que arruinaram até mesmo países então estáveis.
A pressão sofrida pelo Brasil diante das forças do mercado, apoiadas pelos países ricos, nos levou a “privatizar” boa parte da economia, colocando no mesmo balaio, privatizações verdadeiras, como das empresas siderúrgicas, as concessões de exploração dos recursos naturais (minérios, petróleo) e as concessões de serviços públicos, todas tratadas similarmente, sem distingui-las umas das outras. Os tristes resultados dessas políticas impostas ao Brasil serão objeto de futuro artigo.
Ficou, entretanto, o gosto amargo da capitulação nacional para aqueles que viveram os anos do verdadeiro nacionalismo, que marcou indelevelmente a carreira de Itamar Franco. Esquecemos da orientação de Alberto Torres, cujos ensinamentos permearam o nacionalismo de nossa juventude:
“Uma nação pode ser livre, ainda que bárbara, sem garantias jurídicas; mas não pode ser livre, entretanto, sem o domínio de suas fontes de riqueza, dos seus meios de nutrição, das obras vivas de sua indústria e de seu comércio”.
Adriano Branco

