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A POLÍTICA DE TRANSPORTES NA CONTRAMÃO

            O noticiário recente dos jornais confirma previsões antigas acerca da tendência da circulação urbana para o caos. Eu próprio escrevi, em 1967, artigo intitulado “Trânsito: Um Problema do Tamanho de São Paulo” e, em 1968, com o título de “São Paulo Vai Parar”, dentre outros.

            Amigos meus me cobram tais vaticínios, que não se confirmaram. Mas não é verdade: São Paulo chegou a uma grave situação de paralisia, medida pelos custos do congestionamento (algo como 40 bilhões de reais por ano), pela poluição que mata 11 mil pessoas na Região metropolitana de São Paulo anualmente, pelos acidentes de tráfego e até pelos assassinatos que se dão na via pública, na disputa pelos espaços.

            Em 06 de junho passado o professor Paulo Saldiva declarou ao jornal Valor Econômico que o custo da poluição para a saúde chega a 1,5 bilhões de dólares anualmente e que a poluição vem matando mais do que a AIDS e a tuberculose juntas.

            Em 31/05 o Estadão noticiou que o tempo gasto para chegar e estacionar nos aeroportos de São Paulo é maior do que o gasto em muitas viagens. Por outro, o mesmo jornal informou, em 12/06, que o transporte urbano é o maior gargalo para a Copa de 2014, e que o preço do estacionamento subiu duas vezes mais do que a inflação, chegando a R$ 35,00 por hora em alguns locais.

            Entretanto, o prof. Saldiva observou em sua entrevista que, a despeito dos graves problemas de qualidade de vida, os investimentos continuam sendo feitos na direção oposta: “é uma economia burra”, diz ele. E isso se confirma quando o poder público reduz os impostos sobre a compra de automóveis e aumenta as facilidades de crédito. A notícia do Estadão de 09/06, segundo a qual os carros econômicos e menos poluentes terão IPI reduzido, embora dê impressão de uma medida salutar, ela não o é: os congestionamentos vão aumentar.

            O que não se tem levado na devida consideração é que a matriz de transportes urbanos é perversa, na medida em que nos valemos dos automóveis para o deslocamento de 45% das pessoas, utilizando o transporte público (metrô, trens, ônibus) em apenas 55% das viagens. Basta lembrar que o espaço ocupado nas vias públicas para transportar uma pessoa por automóvel é cerca de 30 vezes maior do que aquele que o ônibus ocupa para a mesma viagem, para se ter idéia do descalabro que é utilizar os automóveis tão intensamente; basta recordar que a energia gasta para o transporte de uma pessoa por automóvel é 26 vezes maior do que gasta o metrô para a mesma tarefa, para podermos concluir com o Dr. Saldiva: “é uma economia burra”.

            Mas o fenômeno se repete no transporte de carga. No estado de São Paulo, 81% das cargas são transportadas por caminhões: nos Estados Unidos – país das rodovias e da indústria automotiva – esse porcentual não chega a 30%. Se os transportes no Estado de São Paulo se realizassem segundo a distribuição modal dos norte-americanos, alcançaríamos uma economia anual da ordem de 6 bilhões de reais.

            Ao mesmo tempo, noticia-se que o Ministério Público quer rever o contrato de concessão ferroviária, a ALL – América Latina Logística, por falta de cumprimento de seus compromissos. Diz ainda, a nota, que o abandono dos ativos federais concedidos representa prejuízo de 40 bilhões de reais. E, segundo o Ministério Público Federal, dos 28.000 km de ferrovias entregues à iniciativa privada, cerca de 16.000 foram abandonados.

            Enquanto isso, os Estados Unidos transportam 38% de suas cargas pelos cerca de 200.000 km de ferrovias que operam.

            Uma das conseqüências do abandono das ferrovias no Brasil é a exagerada utilização do modo rodoviário que, dentre outros inconvenientes, apresenta elevado índice de acidentes, em grande parte causados por excessos de velocidade. O Estadão de 12/06 indica que, em 2010, 543 aparelhos nas rodovias federais e estaduais em são Paulo aplicaram 2, 43 milhões de multas, sendo 2,3 milhões por excesso de velocidade. A despeito de todos os melhoramentos introduzidos na malha rodoviária do Estado, o índice de mortes por acidente ainda é 3 vezes maior do que nos países mais desenvolvidos.

            Não é diferente na Cidade de São Paulo, onde se aplicaram, em 2010, 6,97 milhões de multas de trânsito, sendo 1,95 milhões por excesso de velocidade. Mas a barbárie continua…

            O mínimo que podemos concluir, dessa rápida analise é que a política dos transportes no Brasil segue teimosamente na contramão.

 

Adriano M. Branco

 


 

 

 

Sobre Adriano Branco

Eng. Adriano Murgel Branco Adriano Murgel Branco, paulistano de 76 anos, é administrador e engenheiro eletricista formado por uma das melhores escolas de engenharia do país - a Universidade Mackenzie. Branco, foi consultor no Brasil e em Moçambique, professor universitário, ocupou inúmeros cargos públicos, entre eles o de secretário da Habitação e secretário dos Transportes do Estado de São Paulo, nos anos 80. Ocupou também, cargos privados como o de diretor da Coplan, da Trol S.A., da TCL, da Caio entre outras. Ministrou palestras no Brasil,México,Colômbia,Venezuela,Equador, Paraguai, Argentina, Uruguai, Peru e Chile sobre transporte, segurança rodoviária e habitação. É autor de mais de duas centenas de artigos em jornais e revistas, publicadas até na Inglaterra e Alemanha. Em 1972, foi publicada sua primeira monografia sobre Acidentes Rodoviários; em 1975 é publicada a Normatização Brasileira de Defesa Rodoviárias. Teve também três de suas monografias publicadas em 1978: Trólebus,Tendências Modernas dos transportes Coletivos Pneumáticos e Transportes Urbanos por Trólebus; nos anos oitenta foram publicadas: Uma visão Sistêmica do Transporte Urbano, O Transporte Urbano no Brasil e A Prevenção dos Recursos Hídricos no Estado de São Paulo. Seus livros mais ressentem são Segurança Rodoviária, O Financiamento de Obras e de Serviços Públicos, em parceria com o Adilson Abreu Dallari, e Desenvolvimento Sustentável na Gestão de Serviços Públicos, em parceria com o economista Márcio Henrique Bernardes Martins.

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