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CHINA, 32 ANOS DEPOIS

           Nesta edição do Blog reprodução o importante artigo do professor Luiz Carlos Bresser Pereira, intitulado “China, 32 anos depois”, seguido do comentário que fiz a ele e que gerou o seu comentário.

 

 Artigo Recebido por e-mail de Bresser Pereira em 25/Abril/2011

 

China, 32 anos depois

Luiz Carlos Bresser-Pereira

Folha de S.Paulo, 24.04.11


Povo nenhum viveu período de progresso tão acelerado; 600 milhões deixaram a pobreza


De volta à China, 32 anos depois da minha primeira e única visita, pude ver em Pequim o incrível progresso que houve aqui.

 Nenhum país passou antes por um período de progresso tão acelerado: em média, seu PIB cresceu cerca de 9% ao ano, e cerca de 600 milhões de chineses já saíram da pobreza. Qual o segredo desse “milagre” duradouro?

 No plano político, foi a força do nacionalismo em um tempo neoliberal em que todo nacionalismo econômico estava “condenado”; no plano econômico, foi a abertura da conta comercial enquanto se mantinha fechada a conta financeira, foi a liberação do fluxo de mercadorias, mas mantendo o fluxo de capitais sob severo controle.

 Na China, não existe complexo de inferioridade colonial. Os intelectuais chineses que encontro em seminários internacionais sempre me impressionam porque, ao invés de olhar os EUA como nós, latino-americanos, de maneira agressiva ou então subordinada, os olham amavelmente, mas como iguais.

 Não passa pela cabeça dos chineses “reconhecer” a superioridade intelectual do “Ocidente”, e, a partir daí, aceitar suas recomendações de política econômica -recomendações que nós aceitamos, e que estão transformando o Brasil em uma grande fazenda.

 A China foi, no passado, um grande império; depois que a Europa se industrializou, sofreu 100 anos de decadência econômica sob o jugo do Ocidente, porém, desde 1949, desenvolveu-se de maneira independente: primeiro, como sempre acontece nos países retardatários, com base no Estado, e, a partir de 1980, com base no mercado.

O segundo segredo da China é ter aberto a conta de mercadorias, enquanto rejeitava a abertura financeira.

 O velho desenvolvimentismo defendia a proteção alfandegária que é útil na fase inicial do desenvolvimento, mas, como a China cedo compreendeu, o que interessa é competir com os países ricos na exportação de bens industriais, aproveitando-se de sua mão de obra mais barata.

 Mas os chineses não querem saber de abertura financeira. Embora não esteja claro para eles que, nos países em desenvolvimento, há uma tendência cíclica à sobreapreciação da taxa de câmbio, sabem que mantê-la competitiva é essencial. Porque, para aumentar a taxa de investimento e de poupança interna, é fundamental que existam boas oportunidades de investimentos lucrativos para as empresas -e, para isso, a principal condição é uma taxa de câmbio equilibrada.

 Para eles a abertura financeira não é uma fatalidade, algo para o qual “não há alternativa”, como é para nós. É claro que é possível controlar as entradas de capital e manter a taxa de câmbio competitiva.

 Eu sabia da força da nação chinesa, mas, desta vez, foi fascinante ver os milhares de chineses que todos dias enchem a praça Tiananmen para ver o corpo embalsamado do líder de sua revolução nacional, Mao Tse-Tung. Há 32 anos, não era assim; eles não tinham dinheiro para fazer esse turismo cívico que, para nós, é estranho.

 Não há, porém, nada de estranho na capacidade da China de competir com o resto do mundo. Terá o Brasil capacidade de reagir e também, competir? Ou vamos nos conformar em ser um país agropecuário moderno que cresce, mas com instabilidade e a taxas muito menores do que as chinesas?

 Luiz Carlos Bresser-Pereira
Globalization and Competition
Published in French (La Découverte),
Portuguese (Campus)
and English (Cambridge University Press)
www.bresserpereira.org.br

 

Resposta em 26/Abril/2011

         Prezado Bresser Pereira

         Notável o seu artigo “China, 32 anos depois”. Você foi claro e preciso, trazendo-nos informações que freqüentemente o “mercado” filtra.

         Quero aproveitar para sugerir a você, que tem competência para isso, uma mudança nesse conceito de mercado. Você diz que a China desenvolveu-se com base no Estado e, depois, com base no Mercado. A expressão “com base” livra-nos da camisa de força do mercado, como o entendemos. O mundo de hoje, principalmente a partir da aventura neoliberal só vê dois caminhos: o Estado e o Mercado. Ambos tratados como poderes absolutos. Por isso ficou tão difícil, para os neoliberais, entender um “meio estado”, como são as concessões de serviço público. Assim, eles admitiram a fórmula absurda da determinação das tarifas mediante regras de mercado, do que resultou essa monstruosidade, que são as concessionárias, ganhando quanto querem e prestando os serviços mais caros e mais reclamados do mundo.

         Quando falamos em mercado, estamos admitindo todas as falcatruas que ele acolhe e que levaram o mundo à crise de 2008. Em nome da economia de mercado, os norte-americanos empobreceram as classes mais baixas, para transferir recursos aos bancos, indústrias e magnatas, como mostra Stiglitz em seu livro “O Mundo em Queda Livre”.

         Controle pelo Estado não é estatização, como competição econômica não é regra do mercado absoluto. O que se vê na China, penso eu, é uma certa abertura para o mercado (ou com base no mercado), sob controle do Estado, onde ele seja necessário. Não é mais o monopólio do Estado, que foi necessário à reconstrução de sua economia, como o foi também na Rússia e até em Cuba.

         Mas nas nossas discussões, no Brasil, ou se é pelo Estado, ou se é pelo Mercado. Assim como nos querem convencer que a liberdade de expressão deve ser ampla, irrestrita, envenenando o espírito da juventude com a prática sem limites da difusão de comportamentos deletérios, por vezes criminosos.

         Acho que precisamos retomar a discussão do Papel do Estado, para colocar nos trilhos vários disparates que o Brasil adotou, em parte por que não conseguimos frear certas transformações. Haja vista a alteração que se fez na Constituição de 88, para doar aos concessionários da exploração dos recursos minerais o produto dessa exploração, tido como propriedade da União até então.

         Receba meus cumprimentos

         Adriano

 

Finalização em 28/Abril/2011, com resposta de Bresser Pereira

Caro Adriano

Muito obrigado pelo e-mail. Você tem toda a razão em relação ao problema do Estado e do Mercado. O Estado é a lei, é a ordem jurídica, e a organização que a garante. Por isso, é a instituição principal que coordena ou regula as ações de uma sociedade nacional. O mercado é outra instituição que funciona muito bem sob duas condições: que haja concorrência e que o mercado esteja bem regulado. Ao invés de pensar nesses termos, os neoliberais partiram do princípio de que “no princípio era o mercado”. E, a partir daí, aproveitaram-se para ganhar milhões com as concessões de serviços públicos monopolistas ou quase-monopolistas. Um escândalo.

Se você não tiver objeção, vou colocar no meu site seu e-mail.

Um abraço cordial, Bresser

 


 

 

 

Sobre Adriano Branco

Eng. Adriano Murgel Branco Adriano Murgel Branco, paulistano de 76 anos, é administrador e engenheiro eletricista formado por uma das melhores escolas de engenharia do país - a Universidade Mackenzie. Branco, foi consultor no Brasil e em Moçambique, professor universitário, ocupou inúmeros cargos públicos, entre eles o de secretário da Habitação e secretário dos Transportes do Estado de São Paulo, nos anos 80. Ocupou também, cargos privados como o de diretor da Coplan, da Trol S.A., da TCL, da Caio entre outras. Ministrou palestras no Brasil,México,Colômbia,Venezuela,Equador, Paraguai, Argentina, Uruguai, Peru e Chile sobre transporte, segurança rodoviária e habitação. É autor de mais de duas centenas de artigos em jornais e revistas, publicadas até na Inglaterra e Alemanha. Em 1972, foi publicada sua primeira monografia sobre Acidentes Rodoviários; em 1975 é publicada a Normatização Brasileira de Defesa Rodoviárias. Teve também três de suas monografias publicadas em 1978: Trólebus,Tendências Modernas dos transportes Coletivos Pneumáticos e Transportes Urbanos por Trólebus; nos anos oitenta foram publicadas: Uma visão Sistêmica do Transporte Urbano, O Transporte Urbano no Brasil e A Prevenção dos Recursos Hídricos no Estado de São Paulo. Seus livros mais ressentem são Segurança Rodoviária, O Financiamento de Obras e de Serviços Públicos, em parceria com o Adilson Abreu Dallari, e Desenvolvimento Sustentável na Gestão de Serviços Públicos, em parceria com o economista Márcio Henrique Bernardes Martins.

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