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MAIS DEMOCRACIA, MAIS DIREITOS HUMANOS

            No mês de Janeiro, a visita do presidente chinês Hu Jintao aos EUA ensejou muitas discussões interessantes, que se centraram em dois temas: as relações comerciais e os direitos humanos, aqui embutidas as pressões para que a China se “democratize” aos poucos.

            A discussão das relações comerciais não passa de tentativas no sentido de que a China seja mais flexível na manutenção do valor de sua moeda, para que os seus parceiros comerciais possam vender mais e comprar menos. É a mesma posição de vários países inconformados com o desenvolvimento chinês.

            Quanto aos direitos humanos, os EUA desejariam ser exigentes e inflexíveis como são com Cuba e como foram, inclusive, com a própria China. Mas o despertar do colosso asiático fez com que os americanos repensassem suas estratégias, por razões de segurança e de comércio. Quem não recordará a atitude norte-americana de hostilização à revolução comunista chinesa, transformando, inclusive, a ilha chinesa de Formosa em um protetorado americano, protegido por forte aparato militar? Quem não lembrará dos muitos anos em que, por pressão americana, o mundo todo manteve na ONU, como representante da nação chinesa e assento no Conselho de Segurança a ilha de Chiang Kai-Check. E, para reforçar sua posição, os Estados Unidos pressionaram muitos países, como o Brasil, a romper relações com a China. Mas quando os interesses comerciais falaram mais alto, os norte-americanos reconheceram a China, deserdaram Taiwan e deixaram no ridículo os seus aliados até então rompidos com os chineses. E venderam Mac Donald’s até cansar…

            Nos últimos meses de 2010 e começo de 2011 a imprensa se fartou de discutir as relações EUA/China, freqüentemente com a arrogância com que os súditos norte-americanos ameaçavam o mundo. Nicholas Kristof, do NY Times, em 21/01/11, indagava: “O que cobrar da linha dura chinesa?”; Seth Mydans, também do New York Times, tratava da “Aliança entre EUA e Vietnã” dando ênfase à cobrança americana a respeito dos direitos humanos. Mas deixava escapar a exigência dos vietnamitas quanto à “maior assistência dos EUA no tratamento dos efeitos do agente laranja no Vietnã e que provocou inúmeras malformações em bebês”. Indiretamente se recordou da imensa destruição causada àquele país, com a morte de 3 milhões de pessoas, com assassinatos indiscriminados às populações civis e largo emprego de guerra química.

            Mas na mesma página do Estadão que transcreve o artigo de Nicholas Kristof, outra manchete diz: “EUA devem retomar processos contra detentos na prisão de Guantánamo”. Ao falar de democracia e direitos humanos, os norte-americanos tratam das perversidades que praticam em Guantánamo como um caso à parte. Lá nem a Constituição e nem a Suprema Corte americanas tiveram valor, como comenta o historiador Louis Begley, em seu livro “O Caso Dreyfus”, em que estabeleceu as horríveis semelhanças entre este histórico caso e a ação americana em Guantánamo. Mas o ex-premier inglês Tony Blair, ao ser indagado de sua posição em relação às torturas praticadas em Guantánamo e em vários países, limitou-se a dizer que “não sabíamos dos abusos em prisões iraquianas”. Como certamente não sabia que o pretexto dos americanos para invadir e ocupar o Iraque, acusado de estar desenvolvendo armas químicas e nucleares, era absolutamente falso.

            Norte-americanos colocaram Cuba no “índex” porque não reconhecem válidas as eleições que mantém no poder os irmãos Castro; ridicularizaram a Coréia do Norte por prever a sucessão de Kim Jong-il por seu filho. Mas apóiam o Egito, cujo “presidente” está no poder há 30 anos e pretende continuar a dinastia, “elegendo” o seu filho para sucedê-lo. Apóiam-no moral, política e financeiramente, destinando todos os anos 1,3 bilhões de dólares para fins militares e 0,7 bilhões para fins econômicos.

            Estes arranjos com países não democráticos é muito velho. Foi ainda no governo Roosevelt, segundo o livro “Fordlândia”, do escritor Greg Grandini, que os Estados Unidos fizeram acordo “com o rei Abdul Aziz, da Arábia Saudita, trocando proteção militar por petróleo, que alimentou a expansão econômica do pós-guerra”

            Não ter mais o Irã à sua disposição para também fornecer petróleo barato é outra das “indagações” norte-americanas com um país que, segundo eles, não respeita as liberdades individuais. É tão grande o recalque, que os EUA, após pressionar o mundo todo contra aquele país (inclusive o Brasil, que não entrou nesse jogo), criando sanções econômicas severas, deliberou isoladamente ampliar essas sanções, cujo único resultado é empobrecer os países adversários, levando-lhes a fome e a miséria.

            Poderíamos ainda recordar as ações colonialistas contra vários outros países, como foi o caso do Irã, tema que já foi abordado em nosso artigo de 16/06/2010, publicado no blog www.adrianobranco.eng.br. Mas não é preciso, para concluir que falta à nação mais rica do Planeta (cuja deputada republicana chefe das relações exteriores da Câmara defende abertamente o assassinato de Fidel Castro como política viável em relação a Cuba) a mais mínima condição para liderar um movimento pela paz mundial e pelo tratamento igualitário entre os povos e as pessoas. E, o que é pior, para manter o nível de vida e o poder econômico e militar de que desfruta, os EUA precisarão continuar consumindo as riquezas dos demais países, através de uma política de comprometimento da sustentabilidade universal e de alianças com outras nações que nada tem a ver com o fortalecimento da democracia e da defesa dos direitos humanos.

 

Adriano M. Branco

 


 

 

 

Sobre Adriano Branco

Eng. Adriano Murgel Branco Adriano Murgel Branco, paulistano de 76 anos, é administrador e engenheiro eletricista formado por uma das melhores escolas de engenharia do país - a Universidade Mackenzie. Branco, foi consultor no Brasil e em Moçambique, professor universitário, ocupou inúmeros cargos públicos, entre eles o de secretário da Habitação e secretário dos Transportes do Estado de São Paulo, nos anos 80. Ocupou também, cargos privados como o de diretor da Coplan, da Trol S.A., da TCL, da Caio entre outras. Ministrou palestras no Brasil,México,Colômbia,Venezuela,Equador, Paraguai, Argentina, Uruguai, Peru e Chile sobre transporte, segurança rodoviária e habitação. É autor de mais de duas centenas de artigos em jornais e revistas, publicadas até na Inglaterra e Alemanha. Em 1972, foi publicada sua primeira monografia sobre Acidentes Rodoviários; em 1975 é publicada a Normatização Brasileira de Defesa Rodoviárias. Teve também três de suas monografias publicadas em 1978: Trólebus,Tendências Modernas dos transportes Coletivos Pneumáticos e Transportes Urbanos por Trólebus; nos anos oitenta foram publicadas: Uma visão Sistêmica do Transporte Urbano, O Transporte Urbano no Brasil e A Prevenção dos Recursos Hídricos no Estado de São Paulo. Seus livros mais ressentem são Segurança Rodoviária, O Financiamento de Obras e de Serviços Públicos, em parceria com o Adilson Abreu Dallari, e Desenvolvimento Sustentável na Gestão de Serviços Públicos, em parceria com o economista Márcio Henrique Bernardes Martins.

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