BRASIL X AFEGANISTÃO
Até agora lemos nos periódicos que Afeganistão é sinônimo de terrorismo e de guerra, estando as tropas dos EUA lá para combater os terroristas e pacificar o País. Em passado mais distante, foram as tropas soviéticas que estiveram no Afeganistão, numa tentativa de ocupação territorial, em razão de seu interesse, dizia-se, de construir oleodutos que contribuíssem para a exportação de petróleo da Rússia. Para ajudar os afegãos a expulsar os soviéticos, os norte-americanos armaram os talibãs, que depois se viraram contra eles.
Mas, aos poucos, “outra verdade” começa a se desenhar. De um lado, os norte-americanos dão como perdida a guerra que lá travam, mas não encontram uma saída honrosa. Por outro lado, os EUA descobriram reservas minerais intocadas, que valem um trilhão de dólares, parte de uma imensa riqueza composta de minérios de ferro, cobre, cobalto, ouro e principalmente lítio – metal raro, utilizado pelas indústrias químicas, farmacêutica e eletrônica (OESP 17/10/10). Somente uma nova reserva de lítio chegará a três milhões de dólares.
A motivação das invasões vai aos poucos se tornando clara. No Iraque os EUA promovem uma guerra internacional, que já matou mais de 100.000 pessoas, 60% ou 70% civis; e que já custou, junto com a do Afeganistão, segundo economistas americanos, algo como 3 trilhões de dólares. Lá também os invasores procuram encontrar uma saída para a sua ocupação, tramada com outros países desenvolvidos sobre a falsa de informação da produção de armas químicas pelos iraquianos. Mas ainda falta garantir que as empresas norte-americanas permaneçam na extração do petróleo do Iraque, que tem a 2ª reserva do mundo.
Nesse clima de torpezas, é alvissareiro para o Brasil saber que o presidente afegão, Hamid Karzai, aposta na alternativa de contar com o nosso País – em substituição aos seus tradicionais parceiros – para ajudá-lo a desenvolver a mineração e a agricultura locais, assim como intermediar a corrida ao tesouro afegão. Revela agora o encarregado de negócios da Embaixada do Afeganistão em Washington que “O Brasil tem a chave para estabilizar o Afeganistão” (OESP 20/10/10). Diz ele que, ao contrário de outras nações em território afegão, é um país em desenvolvimento e tem impressionado a comunidade internacional com um significativo crescimento. Mais ainda, diz a notícia, o Brasil é o escolhido por causa de sua posição no cenário mundial, por sua experiência na redução da pobreza, por sua política externa, por sua boa interlocução com os países muçulmanos e por seu papel na ajuda a outros países em desenvolvimento, especialmente na África.
Em razão de tudo isso, uma delegação do Itamaraty já esteve em Cabul, dando seqüência à iniciativa do embaixador Celso Amorim de cooperar com a comunidade internacional no Afeganistão. Por seu turno, os ministros afegãos de Minas e da Agricultura planejam uma visita oficial ao Brasil, em 2011.
O nosso país pode começar a se orgulhar do seu esforço de cooperação internacional a nações pobres, bem diferente da sua inércia do passado, como eu mesmo constatei na década de 1980 ao propor vários programas de ajuda a Moçambique, sem obter qualquer resposta. Muitos brasileiros têm criticado as ajudas externas do Brasil, argumentando com as necessidades internas não satisfeitas, o que é uma forma vesga de olhar a inserção do Brasil no mundo. Outros censuram energicamente os acordos feitos com a Bolívia e com o Paraguai, através dos quais apenas se reajustou os preços do petróleo e da eletricidade aos níveis do mercado internacional, deixando de espoliá-los.
Tem toda razão o compositor Chico Buarque de Holanda quando diz que o Brasil de hoje deixou de falar fino em Washington e de falar grosso na Bolívia e no Paraguai.
Adriano M. Branco

