O CONGESTIONAMENTO URBANO
Sob o título “Carro, problema que se agrava”, o Estadão de 11/09/10 focalizou com propriedade a questão, partindo da premissa de que “ter carro não é problema”. O problema, diz o artigo, reside no uso excessivo dos automóveis para suprir deficiências do transporte coletivo.
Tudo absolutamente correto. A conseqüência disso, na Região Metropolitana de São Paulo, é o prejuízo anual de cerca de 40 bilhões de reais, que a sociedade metropolitana sofre, com o consumo excessivo de combustíveis, com a elevação dos custos de transporte devido à baixa velocidade, com a poluição, com a perda de tempo nos deslocamentos, com a redução da produtividade de todos que se locomovem, etc., etc. Já tive oportunidade de escrever que, nos últimos 60 anos, tais perdas se aproximam do número mágico de 1 trilhão de dólares!
A origem do problema está na mudança de hábitos da população, estimulada pelas deficiências do transporte público e pela pressão das indústrias do petróleo e dos veículos, aliada a uma “mãozinha” do governo, quando reduz imprudentemente os impostos dos carros. Em 1968, o simples fato de haver criado (no papel) a Companhia do Metropolitano, que só veio operar 8 anos depois, numa penada a Prefeitura extinguiu o serviço de bondes. Era a “modernidade” chegando. E a população fez festa.
O que ninguém observou é que aqueles bondes chegaram a operar 700 km de itinerários, em uma rede de 270 km de trilhos (equivalente à rede de trens metropolitanos da CPTM). O efeito prático de que ele, sozinho, foi capaz de propiciar uma mobilidade de 0,5 viagens por habitante, por dia. Hoje, a CPTM somada ao METRÔ, ou seja, o sistema de transportes eletrificados sobre trilhos realiza pouco mais de 0,2 viagens por habitante, por dia!
As advertências sobre isso foram feitas; eu mesmo escrevi no jornal A GAZETA, de 01/06/1968, momento em que se retiravam os bondes, alertando sobre as suas conseqüências que, infelizmente, se confirmaram. Isso foi há 42 anos…!
Em 1966 a cidade já se debatia com graves problemas de trânsito. Para tentar superá-los, o governo do Estado fez um plano mirabolante de trânsito, todo ele voltado para a circulação de automóveis, que fracassou. Mas não por falta de advertência. Mais uma vez os técnicos alertaram para o erro de lidar com o trânsito como um fim em si mesmo, esquecendo da importância dos transportes coletivos. Eu próprio escrevi dezenas de artigos e proferi outras tantas palestras que, mais uma vez, caíram no vazio.
Em 1975, o prefeito Setubal procurou reverter essas tendências, quando aprovou o Plano SISTRAN, que previa a criação de 280 km de corredores de tróleibus, com 1280 veículos; visando dar prioridade aos coletivos, num sistema ecologicamente correto. Iniciou a implantação, adquirindo 200 ônibus elétricos e implantando os primeiros corredores. Mas os governos seguintes deram pouca prioridade ao Plano, quando não o deterioraram permitindo que linhas de ônibus concorrentes disputassem o espaço dos tróleibus.
Em 1997 nova tentativa: a Prefeitura idealizou o sistema VLP – Veículo Leve sobre Pneumáticos, com 150 km de extensão, em absoluta prioridade para os tróleibus. Mas, como esse sistema fora divulgado na campanha que elegeu o prefeito Pitta, os sucessores o abandonaram.
Nos últimos períodos de governo foi dada especial ênfase ao metrô e à CPTM, com grandes investimentos. Mas nem assim o sistema sobre trilhos sobrepassará a mobilidade oferecida pelos velhos bondes…
Mas não é só isso que congestiona a Cidade. Tal como ocorreu no abandono dos bondes, o sistema ferroviário também cedeu espaço para o transporte rodoviário, sempre acudido com grandes verbas aplicadas na infraestrutura. No governo Montoro realizou-se grande esforço de recuperação da ferrovia, logo abandonado pelas administrações subseqüentes, até chegar ao colapso. Em razão disso, o transporte de cargas no Estado de São Paulo está, em 76% (dados atualizados) entregues aos caminhões (nos Estados Unidos esse número não chega a 30%), que vem conquistando espaços viários crescentes e conseguindo liberação de uso de caminhões cada vez maiores. E esses caminhões estão aí, com até 85 toneladas, circulando pela Cidade. Não há um só dia em que não haja gravíssimos acidentes com caminhões.
Mas essa pressão pelo uso de automóveis e caminhões conta com o apoio da sociedade, que reclama de ter que pagar pedágio, se queixa do custo dos combustíveis, protesta contra regras de trânsito mais severas e assim por diante. A mídia não tem sido uma exceção no estímulo ao transporte individual.
Para completar esse rosário de problemas, um terço dos descolamentos na RMSP se faz, hoje, a pé. São 12 milhões de deslocamentos todos os dias, tendo como principal razão a falta de transporte adequado.
Todos aplaudem as obras de metrô; mas a Cidade, nestes 42 anos de existência da Companhia, não conseguiu fazer mais do que 70 km de linhas. A CPTM, por seu lado, tem muito a melhorar, ainda, os 270 km de rede que possui. Assim, verifica-se que a solução mais rápida e mais econômica está, como pretendeu Setubal em 1974, em implantar uma ampla rede de corredores para tróleibus e também para ônibus.
Adriano M. Branco

