O engenheiro Sergio Ejzenberg apresentou tese de mestrado à Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, em junho de 2009, intitulada “Os Veículos e a Segurança no Projeto das Curvas Horizontais de Rodovias e Vias de Trânsito Rápido”. Essa dissertação foi comentada pela Folha de São Paulo, em 08/02/2010.
O trabalho do engº Sergio, embora tenha características universais, como soe acontecer com as pesquisas acadêmicas, tem enorme interesse prático para o Brasil de hoje e, em particular, para o estado e para a capital de São Paulo. Com efeito, todos nós observamos a freqüência com que grandes caminhões tombam nas rodovias e nas avenidas, causando fortes congestionamentos e, o que é pior, grandes danos materiais e humanos.
Já tenho comentado o absurdo em que se converteu o transporte de cargas no Estado de São Paulo, sendo hoje realizado, em 93% dos casos, por caminhões (nos EUA essa participação do transporte rodoviário não chega a 30%!).
Na ausência de políticas adequadas de distribuição modal e de multimodalidade, o lobby do petróleo e da indústria automotiva tomou conta do pedaço. Além desse uso ilimitado dos caminhões, os lobistas conseguiram elevar o peso máximo dos caminhões de 45 toneladas para 85. E, pasme, ao discutir e afinal aprovar o absurdo, o que se ouviu nos órgãos técnicos do Denatran foi que era preciso dar ao transporte rodoviário de cargas condições de competir com o ferroviário, que ameaçava reerguer-se das cinzas. Foram inúteis as minhas tentativas de por em discussão as evidentes questões de segurança.
O resultado está aí. Dirigidos em muitos casos por motoristas mal habilitados, cansados pelas jornadas de 30 horas mantidas com remédios inibidores do sono e em grande porcentagem portadores de problemas cardíacos, de diabetes, do hábito de ingestão de bebidas alcoólicas, da prática de altas velocidades e direção perigosa, os caminhões perdem a direção, chocam-se com obstáculos, saem de sua mão de direção, atropelam motociclistas e tombam sem que se saiba por quê.
O engenheiro Sergio sabe por quê. Muito além da noção intuitiva que todos temos de que um caminhão com 9 eixos, com tração em um só deles e dotados de dispositivos que suspendem alguns eixos (para reduzir os custos dos pedágios), não pode ser estável, ele troca em miúdos, nas 240 páginas de sua tese, toda a teoria da estabilidade dos veículos. Mostra, enfim, que as preocupações a que estamos acostumados em relação à segurança dos caminhões fica ainda muito aquém das hipóteses de instabilidade deles.
Em razão de tudo isso, os caminhões representam, em média, 5% da frota geral de veículos do Estado e 23% no envolvimento em acidentes nas estradas paulistas; nas ocorrências com vítimas a sua participação é de 15,3% e naquelas com vítimas fatais, 30,4%. (ver Balanço Anual 2009, da Secretaria de Estado dos Transportes).
É um grande engano achar que o transporte rodoviário é mais econômico do que o ferroviário ou hidroviário. Quando se comparam os atuais fretes, parece ser; mas quando se leva em consideração as “externalidades negativas” – o consumo excessivo de energia, a poluição ambiental, os acidentes, os espaços públicos demandados – verifica-se que a realidade é outra. Os europeus avaliam hoje que a relação dos custos dos transportes aquaviários, ferroviários e rodoviários está na proporção de 1:2:5, o que obriga a uma escolha do modo de transporte mais seletiva.
O Brasil parece começar a acordar para tal realidade. Embora o seu sistema ferroviário seja uma vergonha, entregue a concessionários que não tem o capital exigido para a sua atualização, o transporte hidroviário já dá sinais de vida. Em São Paulo, poderá duplicar os seus serviços nos próximos 3 ou 4 anos, somente com o transporte de álcool de açúcar.
Esperemos que a valiosa contribuição do engº Sergio Ejzenberg ao estudo da segurança dos caminhões venha colaborar para a redução do vergonhoso índice de acidentes que eles propiciam.
Adriano M. Branco

