SER LIBERAL É ISSO!
Adriano M. Branco
22/07/10
No início da década de 1990 estava em franca ascensão o ideário da liberal democracia, com todas as suas conseqüências, como a desregulamentação e privatização dos serviços públicos, que veio logo depois. Em nome de uma economia de mercado que resolveria todos os problemas através de ajustes naturais, verdadeira panacéia universal manifestada através da “mão invisível do mercado”, teríamos um regime liberal em que todos seriam beneficiados.
Empolgado com tudo isso, o modesto cidadão brasileiro Raimundo Silva de Souza escreveu ao governador do estado uma carta que bem refletia as suas expectativas. Como ela contem muitas questões ainda não esclarecidas, resolvi republicá-la, 9 anos depois, para conferir o que se dizia com o que se fez.
Ei-la:
São Paulo, 07 de Setembro de 1991
Doutor Governador
Eu sou um homem simples, sem estudo e viúvo, que vive com seis filhos numa favela de São Paulo. Mas sei ler umas coisas no jornal e, por isso, resolvi mandar essa carta pro senhor doutor.
Como não sei escrever, pedi para o meu amigo Lauro, um homem de letras, professor aposentado do Estado e que mora num cortiço aqui perto, que escrevesse pra mim. Ele parece meio desacorçoado da vida – não sei por que, pois recebe ordenado do governo – e vive no boteco, meio desanimado, tomando umas pingas, onde nós conversamos todos os dias.
Eu li no jornal que o senhor doutor quer economizar no seu governo, diminuindo as mordomias do pessoal e fechando as repartições inúteis. Que vai cuidar mais dos pobres e deixar que os ricos resolvam os seus problemas, com as firmas particulares. O Lauro me disse que isso se chama privatização, economia de mercado, sei lá; que até os comunistas lá do outro lado do mundo tão fazendo assim.
Ele me explicou que o certo é todo o mundo ser liberal (eu não consegui entender bem isso) e cada um paga pelas coisas que consome e pelos serviços que usa. Pra eu entender melhor, ele disse que não é justo eu pagar imposto pro governo fazer nova estrada pro Guarujá, que só os granfinos é que usam. Aí eu entendi e até gostei.
Lembrei em seguida, que eu não pago imposto, pois vivo na favela. É verdade que, lá, eu pago luz, água, aluguel (que, por sinal, aumenta todo o mês), – até pedágio para atravessar a favela e proteção pra não invadirem a minha casa. Eu não tenho nada pra ser roubado, mas tenho os meus filhos, que eu não quero que sejam maltratados. Mas o Lauro me disse que na compra do leite, na caixa de fósforos, na roupa, na condução e até na conta da luz eu pago imposto.
Então eu comecei a pensar que estou pagando pro governo gastar num monte de coisas que eu não preciso. Ele diz que é na escola, na saúde, na segurança, nas estradas, nos ônibus e até no exército. Mas eu não preciso nada disso.
Os meus filhos não vão na escola, porque eu não tenho dinheiro pros cadernos e pros livros. Não tenho nem bem pra comida, porque preciso pagar o barraco, se não os donos botam fogo nele pra eu sair. E os meninos precisam ajudar a tomar conta dos menores e fazer algum trabalhinho.
A saúde é como Deus quer. Quando eu tinha emprego, uma vez me mandaram para o INPS. Fiz fila vários dias, mas não consegui me consultar. Nunca mais quero ir lá, pra ser jogado naqueles corredores sujos. Prefiro ir na benzedeira que tem lá na favela.
A segurança eu já pago pros homens da favela. Soldado nós não queremos lá, pois eles já chegam socando todo mundo, pensando que nós todos somos bandidos. E os ônibus nós não usamos, que tão muito caros. O Lauro disse que quase metade do povo agora anda a pé.
É verdade que dizem que tem o passe do trabalhador. Mas só vale pra quem tem carteira do trabalho. Se tem carteira, pode ser vagabundo, mas é trabalhador; mas se levanta de madrugada para ir fazer biscate no mercado, puxando carrinho, pra sustentar os filhos, esse não é trabalhador.
Quando o Lauro disse que eu pago imposto pra sustentar o exército e os aviões e navios de guerra, ai eu fiquei encafifado. Porque eu, que nem nunca vi um navio, é que vou pagar? Mas ele explicou que é a segurança nacional. É pra garantir que nenhum país valentão entre aqui.
Fiquei pensando: se os americanos quiserem tomar o Brasil, eles fazem igual fizeram no Iraque; eu li no jornal que eles puseram uma porção de bomba tônica no rojão e jogaram tudo lá. Não sobrou cabra da peste pra contar vantagem. Com exército e tudo.
Mas eu li que os mineiros estão tudo indo pros Estados Unidos, pra tirar o pé da lama. Ganham um dinheirão lá. É tão bom, que eles gastam uma nota pra comprar as passagens e até se arriscam a ser presos. Quando não dá certo, eles voltam e começam tudo de novo.
Então não é melhor os Estados Unidos virem pra cá e nós ficarmos todos no bem bom? Porque eu devo pagar imposto pra eles não virem?
Olha, seu doutor, eu começo achar que esse negócio de liberal é muito bom. A grande maioria dos brasileiros não precisa nada disso que o governo faz com o dinheiro da gente; quem precisar que pague. Assim, sobra um dinheirinho mais, pra que meus filhos pequenos não precisem ficar por ai, nas ruas, limpando o vidro dos carros ou pedindo uns trocados.
O Lauro me disse que sete milhões de pessoas na cidade de São Paulo moram como ele e como eu, nos cortiços e nas favelas. Tem gente que mora até no sumitério. Se o governo não precisar mais gastar o dinheiro com a estrada dos ricos, quem sabe dá pra arranjar uma casinha pra nós; pro Lauro também, coitado.
Quando a Erundina entrou, nós pensamos que tudo isso ia melhorar, pois ela veio de lá, da nossa terra. Um pouco melhorou, pois vieram muitos conterrâneos novos e a gente até encontrou uns velhos camaradas. Mas casa que é bom…nada. O ônibus de graça também não veio. Disseram que a culpa foi dos vereadores. E nós estávamos com muita esperança, depois do ônibus, ter o leite de graça, a comida também. Se pelo menos o aluguel do barraco fosse mais barato, talvez ate a gente gostasse de pagar um pouco desse imposto.
Mas chega de papo, doutor Governador. Acho que o senhor está certo. Tem mesmo é que cuidar dos pobres e não cobrar os impostos deles. Os ricos é que devem pagar essa coisarada toda que nós não precisamos. O Lauro disse que privatizar é isso; que ser liberal é isso. Então, estou com o senhor. Precisamos respeitar nosso governador e não fazer como aquele professor – valha-me Nossa Senhora – que disse, com o perdão da má palavra, que o Ministro é um bundão!
Do seu criado
Raimundo Silva de Souza


Adriano, bela a carta sobre o liberalismo do ponto de vista do homem do povo que nada tem, além da alegria de poder participar com as suas idéias para o desenvolvimento do Brasil e a implantação da justiça social.
É melhor ouvir a voz da realidade que propõe com seus sonhos verdadeiros projetos que merecem apoio.