CAMARGO CORREA PREPARA EXPANSÃO NA ÁFRICA
A matéria com o título acima complementa notícia do dia 14/06/10 segundo a qual o Grupo Camargo Correa adquirira o controle da cimenteira CINAC – Cimentos de Nacala, em Moçambique.
Para mim foi notícia muito auspiciosa. Quando prestei colaboração voluntária àquele país, no período de 1988 a 1991, adquiri a plena convicção de que o Brasil poderia – e deveria, por motivos de solidariedade – desenvolver planos conjuntos, a partir da produção de etanol para a venda no mercado asiático. Moçambique fora produtor de álcool e de açúcar, ao tempo da colônia, e está muito mais próximo do que nós dos países da Ásia, interessados nos produtos.
Mas Moçambique tinha carência de tudo, como pude verificar. Convidado pelo ministro de transportes Armando Emílio Guebuza a visitar o País, com apoio do embaixador brasileiro Luiz Fernando Coutto Nazareth, em Maputo, aderiu ao programa de palestras patrocinado pela embaixada do Brasil. Havia uma feira internacional lá, em que vários países exibiram produtos “do outro mundo”, mas o embaixador Nazareth optou por um caminho muito mais construtivo: organizou uma semana de debates sobre os problemas de Moçambique. Eu fui convidado para falar sobre transportes; mas, diante da ausência de outros dois brasileiros, acabei recebendo a tarefa de falar sobre a economia do País e para fazer o apanhado final da semana de debates.
Falar sobre a economia significava reconhecer a importância da exportação de castanhas de caju, colhidas no chão pelos moradores rurais e trocada por iguais quantidades de feijão, através de especuladores. Mas o governo socialista de Moçambique havia proibido esse regime de exploração e, com isso, a produção caira a quase nada…
O resto era a discussão das carências e das possibilidades. Em Moçambique faltava tudo: materiais de construção, vestuário, produtos domésticos, etc..As fábricas até então existentes tinham sido destruídas pelos guerrilheiros, assim como as ferrovias e as linhas de transmissão de eletricidade. A guerrilha, financiada pela África do Sul, que pretendia dominar toda a África Austral, de Angola (onde também sustentava a guerrilha) a Moçambique – Do Atlântico ao Índico – incluindo os países internos, sem acesso ao mar, mostrava o seu poder destruindo a economia e alarmando a gente pacifica dos campos. E o fazia mutilando pessoas (homens, mulheres, crianças) cortando-lhes os braços e ou as pernas. Quatro milhões de camponeses fugiram para as cidades, perseguidos e/ou já mutilados pelos guerrilheiros.
O mundo desenvolvido, a ONU, etc., importavam-se muito pouco com isso. Em Angola a situação era similar; lá ainda existem minas enterradas (eram 2 milhões) que, ao explodir, matam aqueles que inadvertidamente nelas pisam.
Como planejar o futuro? Havia já alguma esperança em que o fim do Apartheid, que veio cerca de 4 anos após, mudaria os rumos da África do Sul, outrora compradora de eletricidade de Moçambique e empregadora de moçambicanos em suas minas. Enquanto isso, as forças armadas procuravam garantir a vida daqueles que se dedicavam a algum esforço de reconstrução do País.
Moçambique tinha 14,5 milhões de habitantes, numa superfície de 800.000 km2, com uma extensa costa, de 2.700 km, que sugeria atividades de pesca e de turismo; possuía portos de mar ligados aos países centrais por ferrovias, para lhes facilitar as exportações; tinha uma grande usina hidroelétrica ao norte, que alimentava o País e servia à África do Sul, mas que tivera cerca de 500 torres derrubadas. Mas toda essa infraestrutura estava destruída e a sua reconstrução seguia lenta, com o exército concentrado em garantir a vida dos trabalhadores. O País possuía ainda reservas de carvão e minério que eram objeto do interesse de importadores, inclusive da nossa Vale do Rio Doce. Mas convivia entretanto com uma taxa de analfabetismo de 70% e renda per capita de 130 dólares anuais. No período em que lá atuei, visitando Moçambique uma vez por ano, promovi seminários, levei o Instituto Mauá de Tecnologia a organizar programas de planejamento estratégico, produzi (em seminários) políticas de transporte e de habitação popular, organizei a vinda de uma missão moçambicana ao Brasil, procurei convencer a Embraer, que estava com pouco serviço, a vender aviões a Moçambique, induzi industriais brasileiros de aço para construção, de tubos de PVC, de ferramentas, etc., etc. a se aproximarem do mercado africano, que certamente cresceria. Numa de minhas viagens levei pessoal da Odebrecht para entendimentos com o Ministro Armando Guebuza.
Mas nada disso prosperou. Em vão visitei os presidentes das comissões de relações exteriores do Senado e da Câmara Federal, propondo aproximações com Moçambique e, inclusive, o perdão da dívida de 350 milhões de dólares para com o Brasil.
Tenho grande tristeza pelos muitos anos que se passaram sem que o Brasil mexesse uma palha em favor de Moçambique. Mas vejo mais recentemente, com satisfação, autoridades nossas simpáticas aos dirigentes de lá, assim como, hoje, brasileiros se interessando pela produção de etanol naquelas plagas, pela exploração de minérios e agora pela indústria cimenteira. Enfim, será possível desenvolver projetos de habitação popular para aquela gente, que construía casas com paredes de bambu (um bambu de pequeno diâmetro e bastante comprido, que aqui usamos para decoração) e telhados de palha tipo sapé ou babaçu ou ainda de folhas de zinco enferrujadas, remanescentes de indústrias que outrora existiram. O bambu se vendia nas feiras, em feixes, correspondentes a tantos metros quadrados de paredes…
Moçambique é um milagre da natureza. Com uma população sofrida, o seu líder primeiro Samora Machel assassinado, a ajuda estrangeira vergonhosamente negada (exceção a alguns grupos ou entidades de vários países procurando colaborar – entre elas a nossa FUNDAP que sempre fez um bom trabalho), sobreviveu a mais cruel das perseguições em um mundo complacente. E o fez instruindo e mobilizando a sua gente, dando-lhe esperanças de um futuro melhor, que pode agora estar chegando. Se deve ajuda a alguém, é a Nelson Mandela, casado hoje com a viúva de Samora Machel, que destruiu as ambições colonialistas da África do Sul e pôs por terra as diferenças raciais, valorizando a gente africana perante o mundo.
Parabéns à Camargo Correa que terá irmãos entre os moçambicanos e que poderá ajudá-los, através de uma parceria de natureza comercial, mas que certamente não ignorará os seus deveres humanitários.
Adriano M. Branco

