Imprimir este post Imprimir este post

O CUSTO VERDADEIRO DAS ATIVIDADES

1. INTRODUÇÃO

 

        O presente artigo resulta de trabalho que fiz, juntamente com o economista Márcio Henrique B. Martins, sintetizando as idéias modernas de externalidades aplicadas aos serviços públicos. Na verdade, os conceitos assumidos se aplicam a qualquer tipo de atividade.

       Tudo começou em 1995, quando eu era membro do Conselho de Administração da Companhia do Metrô de São Paulo. Preocupava-me que o balanço anual da empresa sempre registrava ser ela deficitária, sem que se avaliassem, no outro prato da balança, os benefícios sociais que ela causava.

       Levei 3 anos discutindo isso e propondo que a Companhia fizesse um Balanço Social, que mostrasse o valor dos benefícios que ela propiciava, além do custo do transporte. Resultou em 1999 uma avaliação: em grandes números, a receita anual da empresa era R$ 600 milhões, a despesa R$ 800 milhões e o beneficio social R$ 2 bilhões!

        Nesse ínterim, fiz um cálculo inverso: quanto a Região Metropolitana perde em razão das deficiências do transporte e do congestionamento do Trânsito? Levando em conta apenas as perdas de tempo, a elevação do custo do transporte público, o aumento do consumo de combustíveis e de seus poluentes, bem como, principalmente, as perdas de produtividade da população submetida ao trânsito, tais prejuízos suportados pela coletividade se aproximariam de R$ 22 bilhões. Hoje esse número é estimado em 40 bilhões de reais (Revista dos Transportes Públicos, nº 82 – 1º trimestre de 1999). Tal soma equivale hoje à construção de cerca de 10 km de metrô todos os anos (em 42 anos foram construídos 62 km).

        Fica evidente, assim, que as tradicionais contas de custo e benefício, a que se sujeitam as obras públicas, têm uma enorme distância em relação ao que custa à população não tê-las. Faltam, nas avaliações, as chamadas externalidades (positivas ou negativas) que não podem ser excluídas das avaliações de viabilidade.

        A preocupação com esses critérios nos tem feito analisar os dispêndios públicos, tal como já havíamos feito (parcialmente) em 1989, ao concluir que 75% do valor de uma casa popular retornam à sociedade em 15 anos (60% em 4 anos), justificando subsídios que viabilizam a sua venda às famílias mais pobres. Fazendo evoluir os critérios de cálculo, concluímos recentemente que, para cada real que a sociedade despenda com a construção de habitações populares, ela receberá de volta R$ 1,76. Esta informação justifica por inteiro os subsídios que o Governo Federal vem dando às classes de baixa renda para viabilizar os programas de habitação popular.

        A partir dessas considerações, dessas análises de casos práticos (há muitos outros) e da abalizada opinião de economistas de diversos países, elaboramos o texto conceitual que segue.

 

2. INTERNALIZANDO AS EXTERNALIDADES

 

        A maneira de conceber o mundo determina como as decisões devem ser tomadas. A análise de um processo qualquer depende das crenças e valores daquele que avalia, de modo que resultados obtidos serão positivos ou negativos conforme o ponto de vista utilizado como referência.

        No campo econômico, a escolha de determinada teoria para explicar o comportamento dos agentes influencia na maneira de interpretar os resultados obtidos. Assim, a avaliação econômico-financeira de determinado projeto deve estar atrelada aos princípios seguidos pelos avaliadores, podendo gerar respostas diferentes para um mesmo caso específico.

       No caso de uma avaliação econômico-financeira tradicional, o propósito almejado é a realização de uma análise custo-benefício, para verificar se a taxa interna de retorno do empreendimento é maior que seu custo de oportunidade. A avaliação econômico-financeira, portanto, é extremamente trivial. Estimam-se as receitas futuras e os custos fixos e variáveis decorrentes do negócio, calculam-se a diferença entre eles respectivamente ao instante do tempo em que são realizados e, tudo trazido a valor presente a uma taxa de desconto determinada, verifica-se se o montante é positivo ou negativo, indicando no primeiro caso, sua viabilidade e o contrário na segunda possibilidade. No caso dos serviços de ônibus, os empresários ainda querem minimizar os seus investimentos, ao comparar soluções de iguais taxas de retorno.

      Diante deste modelo de avaliação, pode-se deduzir que sua origem está calcada na concepção liberal de modelo econômico, cujo início oficial data de 1776, da publicação da obra “A Riqueza das Nações” [1], de Adam Smith, que, dentre outras coisas afirma,

“It is not from the benevolence of the butcher, the brewer, or the baker, that we expect our dinner, but from their regard to their own interest. We address ourselves, not to their humanity but to their self-love, and never talk to them of our necessities but of their advantages”[2].

        Ora, se o bem-estar coletivo é resultado da maximização do bem-estar de cada indivíduo, nada mais natural, como conseqüência, do que realizar uma avaliação econômico-finaceira visando estritamente os ganhos e perdas do responsável pela realização dos investimentos. Em outras palavras, o objetivo das organizações é obter lucro econômico-financeiro, mediante maximização das receitas e minimização dos custos. Logo, entrar ou não em determinado setor de atividade, vai depender, em última análise, de que os benefícios econômico-financeiros superem ou não os custos incorridos.

       A conseqüência deste tipo de visão é nefasta para a sociedade. Voltadas somente para o incremento do lucro, as corporações exploram ao máximo os seus empregados bem como o meio-ambiente, decorrendo daí custos sociais que são repassados para toda a coletividade. As externalidades negativas, portanto, conferem ao investidor a possibilidade de não arcar com custos produzidos por ele que, diante da receita obtida, acaba por garantir um lucro maior para o empreendimento (em muitos casos, internalizar os custos sociais pode até inviabilizar o negócio).

        O Prêmio Nobel de economia Joseph Stiglitz[3], em recente obra publicada argumenta sobre a importância da visão smithiana, embora ela seja limitada quando se trata de bem-estar de todos:

“Às vezes, os mercados funcionam da maneira como Smith argumentou: as grandes elevações nos padrões de vida dos últimos dois séculos são, em parte, um testemunho de que ele tinha razão. Porém, até Adam Smith percebeu que numa economia de mercado sem freios os incentivos privados muitas vezes não se harmonizavam com os custos e benefícios sociais – e, quando isso acontece, a busca do interesse pessoal não resultará no bem-estar da sociedade. Os economistas modernos chamam essas desarmonias de ‘falhas de mercado’. Elas surgem sempre que há externalidades, conseqüências das ações de um indivíduo ou de uma empresa cujos custos não são pagos e os benefícios não são usufruídos. Os mercados, por si sós, induzem algumas coisas demasiado pouco, como pesquisa, e um excesso de outras, como poluição”. 

        Seguindo a mesma linha, embora as entidades públicas não tenham como prerrogativa auferir lucro econômico-financeiro, como muito dos administradores públicos estão diretamente ligados à esfera privada, seja por sua origem nela ou pelo aprendizado obtido em escolas voltadas para o negócio privado, o setor público acaba decidindo pela viabilidade ou não de determinado projeto apenas considerando sua taxa interna de retorno, deixando em segundo plano os ganhos percebidos pela sociedade, isto é, fixam-se no lucro econômico-financeiro ao invés do “lucro social”. Como conseqüência, muitos dos empreendimentos que deveriam atender as necessidades da população com extrema eficiência, por causa de seu custo elevado, acabam sendo postergados e ou substituídos por alternativas inferiores, ficando aquém das expectativas iniciais.

       Contudo, nas últimas décadas do século passado, alguns representantes de organismos supranacionais, diante de alguns números assustadores quanto à desigualdade social e ao desequilíbrio ecológico, lançaram um movimento em prol de um novo modelo de desenvolvimento econômico, que abrangesse em seus objetivos, não somente a busca incansável pelo crescimento econômico preconizado pelos arautos liberais, mas também a equidade social e a conservação dos recursos ambientais. Essa alternativa foi denominada de Desenvolvimento Sustentável.

        Para entender as diferenças básicas entre o Desenvolvimento Sustentável e o modelo liberal recorre-se a análise do PIB – Produto Interno Bruto, como conceito de bem-estar da sociedade.

      A busca incessante do aumento do PIB, datada do pós segunda guerra, vem sendo questionada por vários especialistas em políticas públicas, uma vez que este indicador não é a melhor medida de avaliação do bem-estar da população.  De que vale crescer 6% ao ano, se o resultado deste ganho se faz em detrimento da natureza humana e do meio ambiente (externalidades negativas)?

        Recorrendo à análise tradicional microeconômica, derivada do modelo liberal, sabe-se que toda firma, quando decide o quanto produzir, elabora uma análise marginal de custo-benefício. Se a produção de uma unidade a mais do produto gerar uma receita incremental que cubra os custos incorridos na sua elaboração, a empresa produz tal unidade. Tal exercício é repetido até que a firma alcance uma situação em que o benefício de produzir uma unidade a mais seja exatamente igual ao custo de produzi-la, isto é, uma situação de equilíbrio. Logo, pode-se dizer que, se uma unidade a mais for produzida acima da situação de equilíbrio, o benefício marginal é menor que o custo marginal, o que implica em uma redução do resultado líquido obtido, mesmo que a receita final tenha sido aumentada.

        Considerando este mesmo raciocínio para um país, só há benefício líquido se o saldo advindo do somatório dos produtos gerados, ou seja, se seu Produto Interno Bruto, obtido em determinado ano, ultrapassar o custo total arcado pela sociedade na sua produção. Será que o PIB mundial é grande o suficiente para cobrir os custos incorridos que o proporcionaram? Será que o resultado líquido mundial é positivo? Será que os custos ambientais, custos sociais, custos econômicos, custos políticos e custos culturais arcados pela humanidade na geração do produto mundial são compensados, a ponto de todos estarem, na média, em uma situação melhor? Ou será que, apesar de a economia estar crescendo tal montante não é suficiente para uma melhoria geral de vida?

         A economista Henzel Hederson, autora do livro “Mercado Ético” [4], é uma crítica severa dos economistas que vêem no PIB uma medida única de sucesso de um país. Para ela, é preciso considerar na contabilidade nacional o custo social da realização de determinadas atividades que reduzem o estoque que proporciona os fluxos de riquezas de uma localidade, isto é, o capital humano e o capital natural. O modelo econômico atual, para ela não se adapta à realidade das necessidades dos cidadãos:

“A economia tradicional é hoje amplamente vista como um código de fonte imperfeito entranhado nos discos rígidos das sociedades, replicando a insustentabilidade: as altas súbitas, as falências, as bolhas, as recessões, a pobreza, as guerras comerciais, a poluição, a desintegração das comunidades e a perda da cultura e da biodiversidade. Cidadãos de todo o mundo estão rejeitando este código fonte econômico imperfeito e os seus sistemas operacionais como o Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional (FMI), a Organização Mundial do Comércio (OMC) e os bancos centrais autoritários”.

         A visão de que o crescimento do PIB é condição necessária[5], mas não suficiente para garantir a pujança econômica de determinado país se consolida na conscientização mundial em torno da necessidade de se encontrar indicadores mais completos, como é o caso do Índice de Desenvolvimento Humano, publicado pela Organização das Nações Unidas. No Butão, por exemplo, o governo local introduziu o conceito de Felicidade Nacional Bruta, como contrapartida ao cálculo do PIB, visando medir o grau de felicidade da nação[6]. Talvez, por relevância histórica, tenha mais envergadura o fato de o presidente francês Nicolas Sarkozy ter convidado os economistas Joseph Stiglitz e Amartya Sen (ambos prêmio Nobel de economia) para criar um novo indicador que meça o bem-estar do povo francês, devido à insuficiência do PIB como medida.

         Para salientar esta discussão, veja-se a passagem seguinte escrita por Stiglitiz[7]:

“…sucesso significa um desenvolvimento sustentável, eqüitativo e democrático que tenha seu foco na melhoria dos padrões de vida e não apenas no PIB medido…O PIB é uma medida útil de crescimento econômico, mas não é tudo. O crescimento deve ser sustentável. Todos sabem que o estudo de última hora faz passar nos exames, mas o que se aprende é logo esquecido. É possível aumentar o PIB espoliando o meio ambiente, esgotando recursos naturais escassos, fazendo empréstimos no exterior, mas esse tipo de crescimento não é sustentável”.

         Assim, a insuficiência do PIB para medir o bem-estar da sociedade é análoga à deficiência da avaliação econômico-financeira tradicional para avaliar o bem-estar da sociedade. Ao repassar os custos sociais e ambientais para a sociedade ao invés de internalizá-los à própria análise de custo-benefício de determinado projeto, a probabilidade de se obter uma taxa de retorno que supere o custo de oportunidade é maior.

         Logo, a viabilidade de um empreendimento depende, entre outras coisas, da maneira com que se acredita que o mundo deva ser gerido. Se, no início da Revolução Industrial, dada a oferta abundante de recursos naturais, a poluição do ar e da água, por exemplo, eram pontuais, hoje se constituem em problemas mundiais, de modo que sua má utilização impacta na vida de toda a sociedade.

         Por razões como estas, a crença que se estabelece neste trabalho é da necessidade da adoção de um novo modelo de desenvolvimento que englobe concomitantemente os aspectos sociais e ambientais em busca do crescimento econômico, com o propósito de permitir à sociedade atual e às gerações futuras uma crescente qualidade de vida. Isto implica, no nosso foco de estudo, que a avaliação econômico-financeira nos moldes tradicionais é necessária, mas não suficiente, pois devem se considerar, de alguma forma, as externalidades geradas no cálculo da taxa de retorno dos investimentos.

         Conforme assevera Stiglitz[8], sobre o papel da empresas na economia atual,

“A economia moderna mostrou, do mesmo modo, que o bem-estar social não é maximizado se as empresas simplesmente maximizam os lucros. Para que a economia seja eficiente, as empresas devem levar em conta o impacto de suas ações sobre os empregados, o meio ambiente e as comunidades em que atuam”.

         Vale salientar, no entanto, que mesmo diante de uma nova demanda mundial em torno de atitudes socioambientalmente responsáveis, o objetivo essencial das empresas particulares ainda é obter lucro econômico-financeiro. Esta característica não é resultado da bondade ou maldade do investidor privado mas, sim, uma conseqüência do funcionamento do sistema capitalista no qual estão inseridos. Uma citação de Robert Monks, de 1998, utilizada como epígrafe por Peter Barnes[9], resume a natureza das corporações, em relação às externalidades:

“The corporation is an externalizing machine, in the same way that a shark is a killing machine. There isn’t any question of malevolence or of will. The enterprise has within it, as the shark within it, those characteristics that enable it to do that for which it is designed”.[10]

          A partir disto, diante de uma nova realidade, as entidades privadas passaram a considerar na operação de seus negócios, por pressão da sociedade, atitudes mais condizentes com o respeito ao meio-ambiente e com a justiça social. Mesmo que tais ações tenham como prerrogativa diminuir custos (através da racionalização da utilização de recursos) ou aumentar as receitas (fortalecimento da marca), as externalidades geradas são positivas, algo que era impensado durante a maior parte do século passado.

          Por influência direta desta nova visão de futuro, o setor público passou a concentrar seus esforços no resultado obtido e não no meio de obtê-lo. Em outras palavras, está-se dando mais ênfase às necessidades da população independentemente do valor a ser despendido para tal. Mesmo que a melhor alternativa para determinado projeto signifique um prejuízo econômico-financeiro, o lucro social por si só é motivo suficiente para o gestor público buscar outras fontes de recursos, seja mediante o próprio orçamento, seja mediante terceiros. Uma conseqüência direta deste fenômeno é a crescente parceria realizada entre setor público e setor privado em diversos países do globo para a prestação de serviços públicos. O Poder Público que, em toda a história recente sempre auxiliou os empresários a desenvolverem seus negócios onde ainda não tinham força para se sustentarem por si, passa a requisitar a ajuda destes para financiar a prestação de atividades de extrema importância para o bem-estar da sociedade. Neste caso, para alcançar o lucro social, faz-se mister obter o lucro econômico-financeiro para garantir a remuneração do capital privado. Se o empreendimento for rentável, se paga ao particular com as próprias tarifas decorrentes do serviço prestado. Se não, cabe ao Tesouro financiar o valor que falta para atingir a rentabilidade esperada e ou desenvolver meios e modos de capturar eventuais externalidades positivas em favor do empreendimento. Ao fim e ao cabo, o ponto crucial é a percepção pelo administrador público de que o benefício social é mais importante do que o custo incorrido para proporcioná-lo.

          Por conseguinte, a maneira de expandir a avaliação econômico-financeira é acrescentar os custos e benefícios indiretos decorridos da atividade realizada, isto é, internalizar as externalidades no âmbito do negócio. A esta nova análise, mais abrangente, que reconhece a necessidade de se avaliar os impactos sociais e ambientais impostos à sociedade, denomina-se Avaliação Socioambiental.

          A principal característica da Avaliação Socioambiental é quantificar as externalidades e transformar estes valores em termos monetários. Esta tarefa não é nenhum pouco trivial, pois, como advoga a teoria econômica, as externalidades são oriundas das chamadas “falhas de mercado” que, como o próprio nome explica, são circunstâncias em que a livre iniciativa de mercado não consegue atuar, ou seja, a alocação de recursos não ocorre de maneira ótima[11]. Esta falha, muitas vezes está ligada à própria dificuldade de se determinar preços para certos bens, como é o caso da poluição, por exemplo.

          A importância das externalidades na economia decorre da sua capacidade de incentivar a realização de certas atitudes que prejudicam a sociedade ou parcela significativa desta, em conseqüência da distorção causada pela falha na alocação de recursos. O economista Lester Brown[12] mostra como o preço do galão de gasolina nos EUA seria muito mais alto, se fossem internalizadas as externalidades geradas na sua produção:

“A similar situation exists with gasoline. In the United States, the gasoline pump price was over $2 per gallon in mid-2005. But this reflects only the cost of pumping the oil, refining it into gasoline, and delivering the gas to service stations. It does not include the costs of tax subsidies to the oil industry, such as the oil depletion allowance; the subsidies for the extraction, production, and use of petroleum; the burgeoning military costs of protecting access to oil supplies; the health care costs for treating respiratory illnesses ranging from asthma to emphysema; and, most important, the costs of climate change. If these costs, which in 1998 the International Center for Technology Assessment calculated at roughly $9 per gallon of gasoline burned in the United States, were added to the $2 cost of the gasoline itself, motorists would pay about $11 a gallon for gas at the pump. Filling a 20-gallon tank would cost $220. In reality, burning gasoline is very costly, but the market tells us it is cheap, leading to gross distortions in the structure of the economy. The challenge facing governments is to incorporate such costs into market prices by systematically calculating them and incorporating them as a tax on the product to make sure its price reflects the full costs to society”.

         Isto é, nos EUA, o preço da gasolina na bomba estava acima de U$ 2 por galão[13] em meados de 2005. Este preço refletia apenas os custos de extração do petróleo, seu refino em gasolina e sua distribuição para os postos de abastecimento. Neste preço não estavam incluídos os custos provenientes dos subsídios à indústria petrolífera, como permissão de exploração do petróleo; os subsídios para a extração, produção e seu uso; os imensos custos militares para a proteção ao acesso à oferta de petróleo; os custos de saúde provenientes dos tratamentos de doenças respiratórias, desde asma até efisema; e, mais importante, o custo da mudança climática. Se estes custos, os quais em 1998 foram calculados pelo Internacional Center for Technology Assessment em U$ 9 por galão de gasolina queimada para os EUA, fossem adicionados aos U$ 2 de custo da produção da gasolina em si, os motoristas pagariam cerca de U$ 11 por galão de gasolina na bomba. Encher um tanque de 20 galões custaria U$220. Na realidade, a gasolina queimada é muito dispendiosa, mas o mercado nos diz que é barata, levando a distorções brutais na estrutura da economia. O desafio proposto aos governos é agregar tais custos no preço de mercado, mediante cálculo e incorporações sistemáticos, como se fossem impostos sobre o produto, para deixar claro que os preços em si refletem o custo total para a sociedade.

         Embora a Avaliação Socioambiental tenha como vantagens auxiliar o setor privado a melhor direcionar sua produção em torno do Desenvolvimento Sustentável e ajudar o setor público a melhor decidir sobre que projetos implementar, a obtenção de enorme lucro socioambiental não garante que haja recursos suficientes para sua efetivação.

         Para a entidade particular, mesmo diante de um alto retorno socioambiental, somente serão executadas novas formas de atuação se isto não significar diminuição do lucro econômico-financeiro. Já para o ente estatal, a decisão em torno de um empreendimento de grande repercussão socioambiental depende, mesmo que em segundo plano, da capacidade orçamentária do Tesouro de financiar os investimentos necessários para o êxito do projeto.

          Em outras palavras, os benefícios socioambientais não são fluxos financeiros, isto é, não se está tratando de dinheiro propriamente dito. Constituem-se de externalidades quantificadas e valoradas conforme uma unidade monetária para que sirva de comparação entre os montantes econômico-financeiros e os socioambientais. Por exemplo, o Metrô de São Paulo disponibiliza no seu relatório anual os lucros econômico-financeiros e os lucros socioambientais referentes ao ano de exercício.  Em 2006, o prejuízo econômico-financeiro foi de R$ 499,2 milhões. Os benefícios socioambientais, por seu turno, revelaram um montante de R$ 3,708 bilhões. Isto significa que a Avaliação Socioambiental, somando os dois valores, corresponde a um valor de R$ 3,209 bilhões, ou seja, o serviço de transporte prestado para a sociedade por meio do Metrô é altamente rentável. Neste caso, o Poder Público subsidia o transporte metroviário com um aporte de R$ 500 milhões para equilibrar as finanças, mas isto não ocorre a esmo, e sim pelo fato de este montante resultar em um bem estar para a população mais de seis vezes o custo incorrido, em termos monetários.

          Diante deste impasse, o gestor público, ciente de que a principal atribuição do Poder Público é promover o interesse público mediante o lucro socioambiental, deve agir de que forma: esquecer o empreendimento, pois, não há recursos para financiá-lo ou buscar novas fontes de recursos, que priorizem assim o bem-estar social em relação ao equilíbrio de caixa?

          Há muitos caminhos que podem levar à Superação de um problema momentâneo de caixa, a começar pelos financiamentos. Pode-se ver, hoje, a importância que tem tido o BNDES no apoio aos grandes projetos de desenvolvimento no Brasil, contando com o retorno de tais projetos, sob a forma de benefícios sociais e tributos gerados pelo crescimento.

        É também factível a participação do empreendedor em atividades públicas, como o transporte, na valorização das áreas lindeiras, promovida pelo próprio empreendimento. A Constituição Federal de 1934 já previa a “contribuição de melhoria”, como uma das formas de participação na mais valia gerada. Mais recentemente, o município de São Paulo instituiu a “Concessão Urbanística” com a mesma finalidade.

        O que não é possível manter por mais tempo é a sobrecarga de custos atribuídos a toda a sociedade na solução de problemas em que os beneficiários usufruem do investimento público, mas as externalidades negativas recaem sobre a sociedade como um todo. Esse é bem o caso dos transportes coletivos, cuja ineficiência gera perdas da ordem de 40 bilhões de reais por ano, suportadas pela população.

 

Adriano M. Branco


[1] Smith, A. An Inquiry into thr Nature and Causes of the Wealth of Nations. Edição digital: MetaLibri, 2007. Disponível em www.Ibiblio.org/ml/libri/s/SmithA_WealthNations_p.pdf.

[2] “Não é da benevolência do açougueiro, do cervejeiro ou do padeiro que esperamos nosso jantar, mas da consideração que eles têm pelo seu próprio interesse. Dirigimo-nos não à sua auto-estima, e nunca lhe falamos das nossas próprias necessidades, mas das vantagens que advirão para eles.”

[3] Stiglitz, J. Globalização: como dar certo. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

[4] Henderson, H. Mercado Ético: a força do novo paradigma empresarial. São Paulo: Cultrix, 2007.

[5] Na verdade, pode-se dizer que, em alguns casos, mesmo uma queda do PIB pode ser mais benéfica do que seu crescimento. Isto se verifica a longo prazo, quando se consideram os interesses das gerações futuras. Quando se inclui na análise os limites ambientais ao crescimento, o bem-estar está condicionado a perpetuidade de condições satisfatórias de vida para todos. A diminuição do padrão de consumo, por exemplo, que diminuiria o PIB a curto prazo, poderia garantir a sobrevivência da humanidade a longo prazo, sem que isso seja considerado como uma queda do bem-estar da população.

[6] Este tema já vem sendo abordado pelo grande economista britânico John Kenneth Galbraith há muito tempo, como pode ser encontrado em seu livro “A Sociedade Justa: uma perspectiva humana”. Galbraith, J.K. A sociedade justa: uma perspectiva humana. Rio de Janeiro: Campus, 1996.

[7] Stiglitz, J. Globalização: como dar certo. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

[8]Stiglitz, J. Globalização: como dar certo. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

[9] Bernes, P. Capitalism 3.0: a guide to reclaiming the commons. 2006.

[10] “A corporação é uma máquina de externalizar, assim como o tubarão é uma máquina de matar. Não há questão alguma referente à maldade ou ao desejo. A empresa tem isto dentro dela, assim como o tubarão tem isto dentro dele, características que permitem que eles façam aquilo para o qual foram designados”.

[11] Ótimo de Pareto.

[12] Brown, L. Plan B 2.0: Rescuing a Planet under Stress and a Civilization in Trouble. New York: W.W. Norton & Co., 2006.

[13] Um galão americano corresponde a 3,785 litros.

 


 

 

 

Sobre Adriano Branco

Eng. Adriano Murgel Branco Adriano Murgel Branco, paulistano de 76 anos, é administrador e engenheiro eletricista formado por uma das melhores escolas de engenharia do país - a Universidade Mackenzie. Branco, foi consultor no Brasil e em Moçambique, professor universitário, ocupou inúmeros cargos públicos, entre eles o de secretário da Habitação e secretário dos Transportes do Estado de São Paulo, nos anos 80. Ocupou também, cargos privados como o de diretor da Coplan, da Trol S.A., da TCL, da Caio entre outras. Ministrou palestras no Brasil,México,Colômbia,Venezuela,Equador, Paraguai, Argentina, Uruguai, Peru e Chile sobre transporte, segurança rodoviária e habitação. É autor de mais de duas centenas de artigos em jornais e revistas, publicadas até na Inglaterra e Alemanha. Em 1972, foi publicada sua primeira monografia sobre Acidentes Rodoviários; em 1975 é publicada a Normatização Brasileira de Defesa Rodoviárias. Teve também três de suas monografias publicadas em 1978: Trólebus,Tendências Modernas dos transportes Coletivos Pneumáticos e Transportes Urbanos por Trólebus; nos anos oitenta foram publicadas: Uma visão Sistêmica do Transporte Urbano, O Transporte Urbano no Brasil e A Prevenção dos Recursos Hídricos no Estado de São Paulo. Seus livros mais ressentem são Segurança Rodoviária, O Financiamento de Obras e de Serviços Públicos, em parceria com o Adilson Abreu Dallari, e Desenvolvimento Sustentável na Gestão de Serviços Públicos, em parceria com o economista Márcio Henrique Bernardes Martins.

Your email is never shared.
Required fields are marked *




Gingerpages