DIPLOMACIA OU SUBSERVIÊNCIA?
Nos últimos dias concentraram-se os comentários de parte da imprensa e de seus leitores no sentido de que o Brasil fez um “fiasco” ao tentar intermediar a posição do Irã com o Conselho de Segurança da ONU, mais precisamente com os Estados Unidos, que pretendem, como sempre o fizeram, conduzir as decisões do organismo internacional, até mesmo contrariando-o, como ocorreu no episódio da invasão do Iraque. Fiasco porque o Brasil se meteu em “briga de cachorro grande” e porque ficou apenas com a Turquia, numa votação em que 12 dos grandes e de seus acólitos lhe impuseram uma fragorosa derrota.
Na verdade, foi uma grande vitória o Brasil ter lutado por uma decisão pacífica, ainda que ficando quase só, mas saindo da sua posição subserviente de outrora. Quem não se lembrará do rompimento das nossas relações com a União Soviética, desejada pelos EUA, valendo-se do triste episódio da prisão de um diplomata brasileiro em Moscou que, embriagado, teve um acesso de fúria e quebrou os cristais em uma recepção para a qual fora convidado? (Esse fato, o mesmo diplomata repetiu, anos depois, em outra festa…)
Quem não se recordará do rompimento das relações do Brasil com a China, novamente por motivos fúteis, pouco depois de uma aproximação feita no governo Jânio Quadros, mas com o aplauso dos EUA?
Enquanto nós e a esmagadora maioria dos países sob o jugo norte-americano teimávamos em não reconhecer a China (o maior país do mundo!) como componente das nações Unidas, sob o pretexto de que a China “legítima” era a ilha de Formosa, eles, os americanos, negociavam a entrada dos produtos “Jeans”, “Mc Donald’s”, “Coca-Cola” no imenso mercado chinês, traindo os interesses econômicos de seus próprios parceiros. Aqueles poucos países que sempre votaram contra essa artimanha dos EUA não foram “quixotescos”, mas sim autênticos, defensores dos princípios universais que deram origem à ONU. Infelizmente o Brasil não estava entre eles…
Mais grave ainda, dentre tantas iniqüidades praticadas pelos grandes sempre com o apoio ou o silêncio da ONU, quando não em desobediência às diretrizes da organização internacional, foi a ação da Anglo-Iranian, com a cumplicidade da CIA, para depor o primeiro ministro do Irã, Muhammad Mossadegh, em 1953, porque ele nacionalizara as fontes de petróleo. Além de deposto, para gáudio dos Estados Unidos, que passaram a pilotar os destinos daquele país, Mossadegh foi preso por 13 anos, até o fim de sua vida. O desfecho dessa trágica intervenção, ignorada ou apoiada pelo resto do mundo, salvo raras exceções, foi a deposição do Chá Reza Pahlevi, em 1979, com a ascensão dos aiatolás. Mas também resultou que os Estados Unidos, para garantir as suas reservas de petróleo, fossem baixar noutra freguesia, invadindo o Iraque, derrubando o governo e se apossando de suas fontes do ouro negro, ainda que sob censura da ONU, mas com apoio dos seus aliados de sempre.
Essas lembranças são importantes quando os Estados Unidos rechaçam as negociações pacíficas havidas entre o Irã, a Turquia e o Brasil, censurando os pacifistas, impondo a sua vontade ao Conselho de Segurança, tudo sob a alegação de que o Irã não merece confiança.
Quem é mesmo que não merece confiança?
Esse quadro parece querer mudar. Já na questão iraquiana, os EUA não arrancaram o apoio universal, mas apenas o de alguns cúmplices tradicionais. E agora não alcançaram a unanimidade de sempre, o que levou um leitor do ESTADÃO, revelando a sua subserviência, a escrever que, com sua rebeldia, o Brasil passou a integrar o “eixo do mal”.
O presidente norte-americano formulador da política do eixo do mal saiu desmoralizado, responsável por incentivar um clima de guerra no mundo e, finalmente, por quebrar os Estados Unidos. Em seu lugar, veio um homem equilibrado e pacifista, que desde logo propôs-se a um entendimento com o Irã, mas submetido a fortes reações de seus próprios compatriotas. Por isso, não foi capaz de cumprir os seus compromissos de fechar o centro de torturas de Guantánamo, como de lançar um programa efetivo de proteção ao meio ambiente. Agora mesmo, em reunião climática da ONU, em Bonn, os Estados Unidos “voltaram a ressaltar que não aceitam nada que remeta a Kyoto, já que o País não ratificou o protocolo” (OESP 12/06/10). É a suprema arrogância que está de volta.
Em conseqüência de atitudes como essa e, mais, de declarações como a do chefe do Estado Maior das forças armadas almirante Mike Mullen, considerando possível uma ação militar contra o Irã se as atuais sansões falharem (OESP 11/06/10), outras ameaças já se desenvolvem: diz o Estadão, na mesma edição, que “Israel teria mostrado aos chineses o impacto econômico para a China de um ataque aéreo israelense contra instalações iranianas, convencendo aquele país a apoiar as novas sanções ao Irã”.
Até para nós sobrou: “Brasil ignora ameaça americana e promete enviar etanol ao Irã (OESP 12/06/10): o poderoso lobby pró-Israel do Congresso dos EUA já indicou que deixará de apoiar a abertura do mercado americano para o etanol brasileiro, caso a aproximação com o Irã avance”.
Sobre a Rússia, as ameaças já surtiram efeito: “sob pressão, Rússia cancela acordo para a venda de mísseis antiaéreos (armas defensivas) ao Irã” (OESP 12/06/10). E esse clima de ameaças fez o Estadão de 11/06/10 recordar frase do presidente Obama, segundo a qual “uma recusa do Irã em iniciar negociações sérias envolvendo o seu programa nuclear conduzirá a sanções terríveis”. É a volta da diplomacia do “big stick”: luva de pelica numa mão e borduna na outra…
Foi em apoio à mão estendida ao Irã no primeiro discurso de Obama e para evitar a sua ameaça posterior, que o Brasil se propôs a colaborar diplomaticamente. E foi um grande vencedor, ao obter compromissos do Irã, ao quebrar a hegemonia dos belicistas do Conselho de Segurança, ao lograr obter atenuações nas novas sanções impostas aquele País, mantendo, com isso, um clima pró-negociações, reconhecido até pelos Estados Unidos. Por acaso Gandhi e Mandela foram ridículos pregadores no deserto?
O ex-embaixador americano em Israel, Daniel Kurtzer, faz ponderações a propósito (OESP 11/06/10) que devem ser registradas: “Os países soberanos não dependem apenas do poderio militar e de uma retórica insistente para defender o seu povo, mas também da diplomacia e dos valores da empatia e do entendimento. Os países soberanos podem ser fortes promovendo ao mesmo tempo um discurso que destaca a preocupação com as conseqüências de suas políticas”.
Diante dessas questões, é triste ler em editorial de O Estado de São Paulo, de 12/06/10: “a intromissão (do Brasil) no caso palestino-israelense foi apenas patética. Já o envolvimento com o Irã é perigoso, porque afeta graves questões de segurança internacional, que o Brasil não está preparado para enfrentar”. Declarações como essa e tantas outras similares contribuem para o cerco quase apoplético que o Departamento de Estado norte americano constrói em torno do Irã, recusando-se a qualquer entendimento, embora contrariando algumas posições do presidente Obama.
Mas o prestigioso jornal até certo ponto se redime, ao publicar o notável artigo “O Voto do Brasil na Questão Nuclear Iraniana”, de autoria da embaixadora do Brasil na ONU, diplomata Maria Luiza Ribeiro Viotti. Diz ela logo no início: “No exercício de nosso mandato no Conselho (Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas), levamos a sério a responsabilidade, compartilhada com outros membros, pela manutenção da paz e da segurança internacionais”.
E, mais adiante: “Os proponentes da resolução (sanções contra o Irã) afirmam que o objetivo não é punir o Irã, e sim trazê-lo à mesa de negociação, mas não explicam como é que se pretende obter cooperação pela via de novas sanções. Na verdade, pelo acordo feito por Brasil, pela Turquia e pelo Irã em maio, Teerã já voltou às negociações – e fez suas ofertas. As sanções podem, isso sim, dificultar a continuação do diálogo. A penosa experiência no caso do Iraque serve para ilustrar o perigoso caminho a que pode levar uma espiral de sanções”.
Acrescenta a ilustre autora, em outro trecho: “A demonstração de coerência com nossas convicções e iniciativa faz o Brasil ser respeitado e manter a sua credibilidade como interlocutor válido. É portanto equivocada e mesmo superficial a visão matemática de que o Brasil ficou isolado porque 12 países votaram “sim! E 2, “não””.
Temos à frente, enfim, um novo Brasil, que trocou a velha subserviência, que chegou a levá-lo a participar de ações militares em apoio ao colonialismo estrangeiro, por uma política de solidariedade aos mais pobres, de defesa do meio ambiente, de respeito à soberania das demais nações, ainda que, por vezes, falando em minoria.
Adriano M. Branco

