COMENTÁRIOS ENVIADOS AO ESTADÃO
I – Sobre os equívocos da Política de Transporte (19/05/10)
Excelente o artigo “Obra Viária em meio a 6 milhões de veículos é paliativo”, do professor João Sette Whitaker Ferreira (OESP 19/05/10). Em poucas palavras ele mostrou que abrir espaços novos na Cidade para a circulação de automóveis é medida de curta duração e custo cada vez mais elevado.
No início da década de 1960, quando a recém instalada indústria automobilística propagava a idéia equivocada de que o bonde atrapalhava o trânsito (nós dizíamos que era o trânsito que atrapalhava o bonde) evidenciou-se o embate que se daria entre o transporte individual e o coletivo. Em 1967, quando se procurou implantar um plano de trânsito que privilegiava o automóvel, os técnicos em vão proclamaram que somente os investimentos em transporte coletivo poderiam evitar o caos do trânsito. Em 1968, extinguiu-se o bonde, que era a modalidade de transporte público de maior capacidade. De lá para cá, nunca mais a oferta de transporte público eletrificado foi capaz de oferecer a mesma mobilidade que os bondes ofereciam: hoje, metrô e trens metropolitanos oferecem menos da metade do transporte, por habitante, que os bondes faziam.
II – Sobre “Inviabilidade” do Carro Elétrico (20/05/10)
O artigo de Cleide Silva sobre o carro elétrico (Estadão de 20/05/10) corresponde ao julgamento que se faz correntemente acerca da chamada “inviabilidade” do carro elétrico. Entretanto, esse modo de comparar os custos inclui um grave equívoco: só se levam em conta os custos diretos, excluindo-se as denominadas “externalidades negativas” que, no caso dos veículos movidos a combustíveis, especialmente derivados de petróleo, são muito elevadas. Assim, a poluição ambiental (particulados, gases e ruídos), que não existem no carro elétrico, são pagos pela sociedade como um todo, até com um número considerável de vítimas fatais, desonerando os custos reais do transporte por automóvel não elétrico. E se a comparação for feita entre transporte coletivo eletrificado (corredores de tróleibus, como desenvolvidos na administração Setubal) as diferenças, em favor do coletivo, são ainda mais gritantes.
Adriano M. Branco

