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O PAPEL DA IMPRENSA NA DIVULGAÇÃO DA VERDADE

                Em 08 de Abril de 2010, o Estadão publicou artigo da professora Flávia Nascimento, sob o título “Clamor Popular Faz Justiça?”, que é um convite à reflexão profunda sobre ações de incitamento da população contra alguma coisa ou alguém. Além de muito sensato, o texto é corajoso, pois referiu-se com clareza às aberrações e ilegalidade de alguns procedimentos do processo de condenação do casal Nardoni. E muito corajoso quando propõe uma discussão sobre a forma como se processa o júri popular. Em síntese, deseja a autora que não se condenem pessoas sob pressão popular, muitas vezes promovida por interessados. E, quando se constata o erro nas acusações que deram origem ao clamor popular, omitem-se os acusadores.

               No mesmo dia, o também professor Eugênio Bucci escreveu para o Estadão “O País Polarizado e o Lugar da Imprensa”, também chamando a atenção para a “desinformação” que o noticiário tendencioso pode gerar na população. E, ao comentar o acirramento dos ânimos diz: “o caminho da exacerbação é o caminho da sombra”, acrescentando: “a indústria do insulto corrói a sabedoria que deveria inspirar as decisões democráticas e solapa o bom senso”.

               Nesse contexto, diz o articulista, a imprensa tem hoje a grande chance de se apresentar como fator de equilíbrio. É, sem dúvida, uma grande verdade; mas é por igual verdadeiro que ela pode representar um fator de desequilíbrio, como tantas vezes ocorreu, condenando inocentes como Alceni Guerra e a Escola de Base, só para lembrar duas ocorrências.

               Em novo artigo no mesmo jornal, em 11/04/10, o prof. Bucci volta ao tema em “Por Uma Justiça Menos Espetacular”. E aí, partindo de considerações sobre o caso Nardoni, como fez a professora Flávia Nascimento, desenvolveu brilhante texto questionando a justiça que se fazia “ao clamor do povo” nos episódios da Revolução Francesa.

               Em conseqüência aborda o papel da imprensa, exercido no caso Nardoni, argumentando: “O jornalismo deve se ocupar dessas histórias? É claro que sim. Os cidadãos têm o direito de saber. Tanto que, nos crimes contra a vida, participam da Justiça por meio de júri popular. Mas a cobertura deveria se dedicar tão apaixonadamente à exploração das sensações mais primitivas, dos impulsos de vingança, das fobias, dos preconceitos? É possível que não”.

                Eu diria: certamente que não!

               Tratando do mesmo tema, o professor Fábio Wanderley Reis, em artigo publicado no jornal Valor Econômico, de 12/04/10, sob o título “Liberdade de Imprensa e Democracia”, chama a atenção, por um lado, da “importância de que se garanta o livre fluxo de comunicações e informações na sociedade, como parte do desiderato democrático de que os direitos civis sejam garantidos”. Por outro lado, ocorre “o perigo de que o valor da liberdade de imprensa como parte do desiderato de comunicação livre degenere, às vezes, em ideologia arrogante de uma categoria profissional. Pois a imprensa pode também surgir como ameaça aos direitos civis, em vez de instrumento de sua promoção e realização”.

               São numerosos os exemplos de exacerbação dos meios de comunicação em críticas infundadas a programas de governo e até os programas de desenvolvimento científico. Neste campo, bastaria lembrar a terrível campanha feita pela imprensa contra o trabalho de Oswaldo Cruz voltado à erradicação da malária.

               Mas também se pode recordar as tentativas de desmoralização da homeopatia como ciência, que levaram, dentre muitos outros casos, o eminente médico Vicente Martins, um dos mais conceituados introdutores da ciência homeopática no Brasil, a deixar o País, em 1852, por não suportar mais a perseguição (regressou em 1854 para aqui morrer, em 8 de julho de 54). Em casos como esse, não raro se percebe a mão oculta da indústria farmacêutica bafejando a mídia para levá-la a posições de seu interesse.

               Este é um dos grandes riscos atuais: o monumental poder econômico por trás da mídia, manipulando notícias e apoiando programas de comunicação deletérios. Na década de 1930, Franklin Roosevelt detectou a influência maléfica que exercia Samuel Insull sobre a juventude, publicando livros escolares que sub-repticiamente defendiam os seus interesses escusos. Mandou prendê-lo, simplesmente. Em momentos mais recentes a grande imprensa colaborou intensamente na veiculação de notícias que levaram o mundo a acreditar nas armas químicas de Bagdá, dando pretexto à guerra do Iraque. Depois ocultou a prisão e tortura de inocentes praticada pelos Estados Unidos em vários países. Também de braço dado com os magnatas americanos, a mídia os ajudou, por ação ou omissão, a levar o País à ruína econômica.

               Mas voltando aos episódios da saúde, que são por natureza graves, o médico professor José de Felippe Junior acaba de publicar, em seu site www.medicinacomplementar.com.br, verdadeiro libelo contra o programa Fantástico, da Globo, que abordou duas semanas atrás a Medicina Biomolecular/Ortomolecular. O próprio Dr. Felippe foi entrevistado longamente, mas teve a desagradável surpresa de ver o seu depoimento reduzido a dois minutos ininteligíveis.

               O que mais apareceu no programa foram referencias a charlatães que, sem qualquer preparo ou formação médica, aplicam técnicas ditas curativas, com aparência de Medicina Biomolecular. Mas o conceito adequado desse campo da medicina, a legislação brasileira sobre a matéria, as experiências altamente positivas já realizadas, ficaram ignorados.

               Indignado com o ocorrido, o professor Felippe transcreve em seu texto trecho de um discurso do jornalista John Swinton, chefe do corpo editorial do New York Times, em que diz, em torno de 1880, que “o serviço dos jornalistas é destruir a verdade, mentir completamente, perverter, deturpar, difamar, bajular a riqueza e vender o seu país e sua raça (humana) em troca do seu pão de cada dia”.

               Mesmo não sendo tão rigoroso quanto o autor do texto, é preciso reconhecer que a força destrutiva dos meios de comunicação é muito maior do que a sua força construtiva. Por isso cabe a ela uma responsabilidade fundamental na difusão de idéias, na representação de atos, na composição de cenários. É preciso, como disse o prof. Wanderley Reis, que a imprensa não surja como ameaça aos direitos civis, em vez de instrumento de sua promoção e realização.

               Em tempo: recomendo a todos a leitura dos artigos aqui citados.

 

Adriano M. Branco

 


 

 

 

Sobre Adriano Branco

Eng. Adriano Murgel Branco Adriano Murgel Branco, paulistano de 76 anos, é administrador e engenheiro eletricista formado por uma das melhores escolas de engenharia do país - a Universidade Mackenzie. Branco, foi consultor no Brasil e em Moçambique, professor universitário, ocupou inúmeros cargos públicos, entre eles o de secretário da Habitação e secretário dos Transportes do Estado de São Paulo, nos anos 80. Ocupou também, cargos privados como o de diretor da Coplan, da Trol S.A., da TCL, da Caio entre outras. Ministrou palestras no Brasil,México,Colômbia,Venezuela,Equador, Paraguai, Argentina, Uruguai, Peru e Chile sobre transporte, segurança rodoviária e habitação. É autor de mais de duas centenas de artigos em jornais e revistas, publicadas até na Inglaterra e Alemanha. Em 1972, foi publicada sua primeira monografia sobre Acidentes Rodoviários; em 1975 é publicada a Normatização Brasileira de Defesa Rodoviárias. Teve também três de suas monografias publicadas em 1978: Trólebus,Tendências Modernas dos transportes Coletivos Pneumáticos e Transportes Urbanos por Trólebus; nos anos oitenta foram publicadas: Uma visão Sistêmica do Transporte Urbano, O Transporte Urbano no Brasil e A Prevenção dos Recursos Hídricos no Estado de São Paulo. Seus livros mais ressentem são Segurança Rodoviária, O Financiamento de Obras e de Serviços Públicos, em parceria com o Adilson Abreu Dallari, e Desenvolvimento Sustentável na Gestão de Serviços Públicos, em parceria com o economista Márcio Henrique Bernardes Martins.

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