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A NAVEGAÇÃO FLUVIAL NO ESTADO DE SÃO PAULO

               No inicio da década de 1940 o engenheiro Catullo Branco, da Inspetoria de Serviços Públicos da Secretaria de Viação e Obras Públicas do Estado de São Paulo, começou a idealizar o aproveitamento das águas do rio Tietê para produzir eletricidade. Na sua avaliação, o fornecimento de energia pela Light avizinhava-se de um colapso, por desinteresse da concessionária, o que, de fato, ocorreu em 1952, com graves conseqüências para a economia regional, exigindo-se pois uma intervenção do poder público que evitasse as conseqüências anunciadas.

                A proposta de Catullo era modernizante: ele não só previa a possibilidade de construção de um conjunto de usinas hidroelétricas ao longo do rio, como preconizava a instalação de eclusas nas usinas, visando à garantia da navegação. Tais obras voltam-se, assim, ao uso múltiplo das águas (energia, navegação, irrigação, saneamento, piscicultura, combate às enchentes), tal qual se desenvolvia, nos Estados Unidos, o projeto da Tenessee Valey Authority para a regularização e aproveitamento do rio Tenessee. Para conhecer melhor o projeto americano, Catullo foi visitar as suas instalações em 1941, trazendo copioso material técnico. “Fui visitar, insistia ele, às minhas expensas…”.

                 Rapidamente as diretrizes de projeto se estenderam aos estudos dos rios Paraíba e Paraná, dentre outros.

                Mas a resistência da Light ao desenvolvimento de obras governamentais desse tipo era muito grande e somente na década de 1950 o governador Lucas Nogueira Garcez (1951/1955) fez andar o projeto do rio Tietê. Contudo, o conjunto das obras hidrelétricas e de navegação só veio a se completar por volta de 1999, no governo Mário Covas, quase 60 anos após os primeiros estudos.

                 Quando Franco Montoro assumiu o governo do Estado, em 1983, encontrou o projeto Tietê com várias usinas já construídas, mas com apenas duas eclusas dotadas das respectivas comportas. Determinou logo a implantação das restantes comportas, ampliando consideravelmente o canal navegável, ao mesmo tempo em que se iniciava a implantação da última represa, a de Três Irmãos.

                Ao longo das obras do Tietê, o governo do estado iniciou também obras de regularização do rio Paraná, implantando 3 barragens, das quais uma contornada pelo canal de Pereira Barreto, uma com a respectiva eclusa e comporta, tendo sido implantada a última comporta, a de Porto primavera, em 1999. Assim, alcançou-se nessa época a plena navegação de 2.400 km de rios (Tietê e Paraná) e respectivos afluentes.

                Não foi sem razão de ser que o legislativo paulista deu o nome de Catullo Branco à hidrovia conhecida até então como Tietê Paraná.

                Iniciando a navegação em trechos sucessivos, foi ela aos poucos atraindo cargas especiais para o transporte fluvial, alcançando hoje cerca de 5.000.000 de toneladas desse transporte, por ano. O crescimento nos últimos 10 anos está representado na figura abaixo:

               Agora vem uma notícia alvissareira: a Transpetro, desenvolvendo amplo projeto logístico para a exportação de álcool, decidiu, após 3 ou 4 anos de estudo, implantar uma rede de transportes fluviais, composta de linhas de navegação, terminais de carga e uma ligação dutoviária entre o rio Tietê e Paulínia. Como ponto de partida, a empresa está adquirindo 20 comboios, compostos de 1 empurrador e 4 barcaças cada um, com capacidade para transportar 6 milhões de toneladas de álcool por ano. Significa isso a possibilidade de duplicar, com folga, o movimento da hidrovia, em pouco tempo.

               Por outro lado, a Transpetro está preparada para orientar o projeto dos barcos, desenvolvendo algum estaleiro da região ou incentivando alguma nova indústria, modernizando a construção naval requerida. Além disso, cuidará ela própria da operação do sistema, certamente em base de novos paradigmas de eficiência, necessários ao bom aproveitamento dos investimentos novos e anteriores, de molde a obter um custo reduzido para o transporte planejado.

              Além disso, notícia recente nos dá conta de que a Destilaria Pioneiros, instalada no Município de Sud Mennucci, às margens da represa Três Irmãos, no rio Tietê, implantou com sucesso o transporte de cana de açúcar através do lago, numa distância de 13 km, para obter o produto na margem oposta do rio, onde a terra é mais barata. Com isso, a Destilaria, operando um rebocador com 3 conjuntos de transporte de cana, vem transportando 500.000 toneladas anuais, nos dois últimos anos (ainda não assimiladas pelas estatísticas), reduzindo em 70 km o percurso, com grande impacto ambiental e energético. Trata-se de atividade efetivamente pioneira, mas que já acrescenta 10% ao volume de transporte fluvial do Estado.

                 São ventos novos soprando sobre a péssima distribuição modal do transporte de cargas no Estado de São Paulo, caracterizada pela presença do modo rodoviário em 93% do transporte dessas cargas. Só assim se evitará o que hoje ocorre com a exportação de soja, cujo custo logístico até o porto equivale a 50% do custo de produção do produto, reduzindo a competitividade brasileira no mercado internacional.

               O Estado, por seu turno, desenvolve estudos de incentivo à intermodalização do transporte, cujo principal resultado é o projeto de uma rede de terminais logísticos, integradores dos vários modos de transporte, incentivando sobretudo o uso adequado da ferrovia e da hidrovia já existentes em seu território.

 

Adriano M. Branco

 


 

 

 

Sobre Adriano Branco

Eng. Adriano Murgel Branco Adriano Murgel Branco, paulistano de 76 anos, é administrador e engenheiro eletricista formado por uma das melhores escolas de engenharia do país - a Universidade Mackenzie. Branco, foi consultor no Brasil e em Moçambique, professor universitário, ocupou inúmeros cargos públicos, entre eles o de secretário da Habitação e secretário dos Transportes do Estado de São Paulo, nos anos 80. Ocupou também, cargos privados como o de diretor da Coplan, da Trol S.A., da TCL, da Caio entre outras. Ministrou palestras no Brasil,México,Colômbia,Venezuela,Equador, Paraguai, Argentina, Uruguai, Peru e Chile sobre transporte, segurança rodoviária e habitação. É autor de mais de duas centenas de artigos em jornais e revistas, publicadas até na Inglaterra e Alemanha. Em 1972, foi publicada sua primeira monografia sobre Acidentes Rodoviários; em 1975 é publicada a Normatização Brasileira de Defesa Rodoviárias. Teve também três de suas monografias publicadas em 1978: Trólebus,Tendências Modernas dos transportes Coletivos Pneumáticos e Transportes Urbanos por Trólebus; nos anos oitenta foram publicadas: Uma visão Sistêmica do Transporte Urbano, O Transporte Urbano no Brasil e A Prevenção dos Recursos Hídricos no Estado de São Paulo. Seus livros mais ressentem são Segurança Rodoviária, O Financiamento de Obras e de Serviços Públicos, em parceria com o Adilson Abreu Dallari, e Desenvolvimento Sustentável na Gestão de Serviços Públicos, em parceria com o economista Márcio Henrique Bernardes Martins.

2 Responses to “A NAVEGAÇÃO FLUVIAL NO ESTADO DE SÃO PAULO”

  • Bom dia Sr Adriano,
    Inicialmente parabens por seus conhecimentos, capacidade e sua participação em todo o processo.
    Penso em implantar uma pequena area (Ainda nao determinado tamanho) para a plantaçãode Cocos Anão e Palmeiras Imperiais.
    Por experiÊncia ja sabia que o transporte seria modulo pesadissimo no custo. Por isso pensei logo no Rio Tiete. Vi lá, na viagem atual que faço, as eclusa, barcaças, os escoteiros; uma maravilha. Pergunto: esse transporte é acessivel a uma cultura diferente como o Coco?
    Peço a sua colaboração para responder ou direcionar minha dúvida.
    Certo de sua atenção, antecipadamente agradeço.
    Rubens Carlos Rodrigues

  • Prezado Adriano, saudações.

    Caro, foi um imenso prazer poder falar com você.

    Agradeço “de coração” a atenção dispensada.

    Estou lhe enviando este, como forma de garantir nossos contatos.

    29 de Novembro (1973 – 2013) 40 anos da inauguração da Eclusa de Barra Bonita…

    Com meus cumprimentos,

    Helio Palmesan

    http://www.maenatureza.org.br

    ongmaenatureza@gmail.comnavios@barrabonitasp.com.br

    (14) 3641-0901 (res) 99773-3148 (cel) 3641-2422 (navegação)

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