HABITAÇÕES EMERGENCIAIS
Quando fui Secretário de estado da habitação, em 1987/88, propus a utilização de madeira tratada na produção de casas populares. Casas bem feitas, que podem ser progressivamente melhoradas com revestimento térmico e acústico, etc. Como se faz nos EUA, no Chile e em vários outros países. As reservas florestais do Estado de São Paulo poderiam manter, com manejo adequado, uma produção de 20.000 unidades por ano.
Para projetar uma casa econômica e de fácil montagem, a Secretaria contratou o Instituto Mauá de Tecnologia, que fez um muito bom estudo, possibilitando até a auto-construção. E o prefeito de Itapetininga, José Tardelli, fez não só casas como também escolas e até o seu mobiliário.
Ao mesmo tempo, criamos no Estado um núcleo tecnológico para analisar toda e qualquer proposta nova de processo construtivo, dando ênfase àqueles baseados na pré-fabricação dos elementos padronizados.
No embalo dessas idéias, projetamos um “almoxarifado” de casas, que tivesse algumas centenas ou até milhares de kits para construção rápida, em madeira e/ou concreto pré-fabricado. O objetivo, bastante discutido com a defesa civil àquela época, era poder acudir a catástrofes e emergências em uma ou duas semanas.
Mais recentemente tive a oportunidade de sugerir ao Governo do Estado o desenvolvimento de estudo tendente à implantação de uma fábrica de casas populares na região de Cajati, onde se produz cimento, granitos, mármores, pedra britada e areia para construção. Ao invés de pagar um elevado frete desses insumos, que vem para as regiões metropolitanas por caminhão, as casas viriam por ferrovia, devidamente pré-fabricadas.
Não há nenhuma genialidade nessas idéias, em boa parte praticadas em muitos países a partir do término da 2ª guerra mundial, quando se fez necessário construir aceleradamente, com projetos econômicos. Só a antiga Alemanha Oriental, país com 14 milhões de habitantes, construiu, em 30 anos, 3 milhões de habitações populares pré-moldadas (1957-1987). A região metropolitana de São Paulo, com população maior, não fez a quarta parte disso nos últimos 30 anos.
Estou meramente contando história, pois nenhuma daquelas propostas vingou: não se aceita a casa de madeira (por puro preconceito), não se faz a casa pré-moldada, não se sabe sequer onde fica Cajati e os planos estaduais não levam em conta a ferrovia, operada até alguns anos atrás pelo próprio Estado, que a estendeu a Cajati.
Lamentavelmente ficamos à mercê das catástrofes, tendo que alojar famílias em escolas e igrejas ou oferecer-lhes o aluguel de alguma casa inexistente. No Haiti se montam pelo menos barracas para abrigar as vitimas do infortúnio; aqui nem isso temos.
Faço o meu apelo ao Governador Serra para que tire o Estado de sua visão elitista habitacional e ponha os pés no chão, duplicando, triplicando, quadruplicando a sua capacidade de atendimento às famílias pobres. Se não, vamos continuar atendendo apenas ao crescimento vegetativo da demanda e completamente incapazes de enfrentar as tragédias; de remover de imediato as famílias em situação de risco, como quer o Governador.
Adriano M. Branco

