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RECORDANDO O PREFEITO WLADIMIR PIZA

              Wladimir de Toledo Piza, “paulista de 400 anos” e respeitado médico pediatra, foi prefeito de São Paulo desde 1956 até 1957. Este curto mandato foi conseqüência de uma grande movimentação política paulistana, a partir da eleição de Jânio Quadros para prefeito, em 1953.

               Jânio governara o município de 1953 até 1954. Nesta data deixou a prefeitura para candidatar-se a governador. Como o seu vice também candidatou-se – a vice-governador – a prefeitura de São Paulo vagou.

               Assumiu então o presidente da Câmara Municipal, que viria a convocar novas eleições, quando elegeu-se o então Senador Lino de Mattos, tendo como vice-prefeito Wladimir Piza.

               Não bastasse toda essa movimentação, a chegada de William Salem foi precedida de ocorrências insólitas. Ao disputar a Presidência da Câmara, já com vistas a assumir inteiramente a prefeitura, William Salem teve como adversário o vereador João Sampaio, figura ilustre da sociedade paulistana, homem de hábitos conservadores, de fino trato que, num gesto de delicadeza votou no adversário. Como Salem não tinha a exatamente a mesma formação, votou em si próprio. Venceu a eleição por um voto!

               Desanimado com o ocorrido, o vereador André Franco Montoro renunciou ao mandato!

               Assim São Paulo pôs em sua história a gestão de William Salem, por pouco tempo, mas uma das piores de que se tem notícia. Fato pitoresco de sua gestão se deu na área dos transportes. O prefeito nomeara para a presidência da CMTC o vereador Fioravante Iervolino, empresário de ônibus que operava na Região de Guarulhos e que dizia, na Câmara, ser capaz de reduzir à metade as tarifas dos transportes de São Paulo. Mas como nem sempre a prática reproduz a gramática, Iervolino viu-se obrigado a propor ao Salem um aumento das tarifas de ônibus.

               O prefeito reagiu demitindo-o. Mas o fez diretamente, usando um direito que não tinha, pois os diretores da CMTC, a rigor, eram eleitos pela Assembléia de Acionistas. Fioravante não deixou o cargo (até que a Assembléia o demitisse) e, ante a indignação do prefeito, trocou com ele palavras de baixo calão que foram ouvidas nos prédios vizinhos da Praça Dom José Gaspar.

               Valeu o episódio para mostrar a ilegalidade da intervenção do executivo nas empresas públicas ou de economia mista.

               Agenor Lino de Matos herdou essa balbúrdia. Mas tão logo iniciou o seu mandato, sentiu o peso da perseguição dos adversários – dentre eles o próprio governador Jânio Quadros, que desde logo procuraram subtrair-lhe o mandato de senador, ao qual ele não renunciara, por não ser preciso. Quando seus inimigos propuseram alteração da legislação, para obrigar Lino de Matos a optar por um dos dois mandatos, temeroso das perseguições que estavam por vir, renunciou à prefeitura, passando o cargo a Wladimir Piza.

               Piza assumiu em plena crise. E começou pagando um elevado preço político por ter que equilibrar as finanças da CMTC através de aumento das tarifas. Mas aproveitou o momento para dar um impulso na Companhia, adquirindo 75 tróleibus em Denver (usados, mas em bom estado) e abrindo licitação para uma primeira linha de metrô em São Paulo.

               Ganhou a concorrência uma empresa novata, com tecnologia revolucionária. Era o Monorail, proposto pela Alweg, firma sediada em Colônia (Alemanha), onde tinha um trecho experimental em funcionamento.

               A disputa em torno do assunto foi muito grande, embora o processo de julgamento, também inovador, haja sido conduzido tecnicamente pelo engº Paulo Assis Ribeiro, renomado especialista em modelos de decisão. Os políticos diziam que, em fim de mandato, era temerário um contrato dessa magnitude. A grande imprensa, que nutria antiga animosidade com o prefeito, fazia denúncias. A classe dos engenheiros, representada pela Associação dos Engenheiros Municipais e pelo Instituto de Engenharia, repudiou o projeto.

               Mas a CMTC, à qual cabia a decisão, aprovou a contratação, que foi anulada pela gestão posterior, que fez outra licitação, que foi anulada pelo prefeito que se seguiu…

               A Alweg, frustrada com o insucesso, acabou transferindo a sua tecnologia à grande empresa japonesa Hitachi que, nos anos seguintes, instalou o seu projeto na Disneylândia e em Tókio, na ligação do centro da cidade com o aeroporto. Hoje há, no mundo, pelo menos 9 cidades com esse sistema.

               Agora, São Paulo se empenha em implantar um sistema de transportes de média capacidade. E a escolha da municipalidade recai sobre (SURPRESA!) o monorail da Hitachi. Cinqüenta e dois anos depois…

               Mas voltemos à gestão Wladimir Piza. Pouca gente se deu conta do muito que foi feito. Para começar, a Prefeitura tinha enormes dívidas com empreiteiros. O Secretário de obras, engº Maury de Freitas Julião, um dos melhores que já passaram por aquela pasta, reuniu os empreiteiros para uma proposta sui-generis. Como a maior parte deles estava cobrando seus créditos na justiça, Julião propôs que eles seguissem esse caminho, mas aceitassem realizar um grande volume de obras que ele tinha em mente. Adiou, então, as dívidas e viabilizou recursos a curto prazo.

               Fez muitas obras importantes, que eu acompanhei, como estagiário no gabinete do prefeito, através das assíduas visitas que ele fazia aos canteiros. Construíram-se vários viadutos sobre ferrovias e pontes sobre o rio Tietê. Muita coisa para tão pouco tempo.

               Mas as obras que tinham interferência com serviços a cargo do Estado, como ocorreu dramaticamente na reforma da av. Celso Garcia, eram um problema: o então governador Jânio Quadros perseguiu o prefeito até onde pode, com apoio garantido da grande imprensa. Na Celso Garcia, para forçar o Estado a também reformar a rede de esgotos, o prefeito determinou a remoção da galeria. Foi um caos; mas as obras, inclusive as dos esgotos, se concluíram.

               Certa feita, Piza desconfiou que o seu carro era seguido por outro, que acabou interceptado e identificado como a mando do governo do Estado. Mas, pior ainda, o prefeito descobriu que o seu telefone residencial fora ligado, pela Companhia Telefônica Brasileira, a pedido do governo estadual, a uma central de gravações instalada na av. Brigadeiro Luiz Antonio, nas proximidades da residência. Aí a briga assumiu caráter pessoal e irreversível.

               Wladimir Piza, um homem dedicado à infância em sua vida profissional, impressionava-se com baixo atendimento escolar às crianças, pela rede estadual. Decidiu, então, criar a rede de ensino municipal. Para isso implantou 2.000 salas de aula em um ano. As escolas eram de madeira, de construção rápida e barata. Trinta anos depois ainda se viam algumas delas na periferia.

               Muito tempo depois o prefeito de Itapetininga José Carlos Tardelli repetiu o feito, construído escolas com a madeira proveniente de reflorestamentos do Estado. Foi além, montando uma marcenaria para a fabricação do mobiliário escolar.

               Obra importante da gestão Piza foi a construção do Planetário, no Ibirapuera, dando um avanço inédito nos meios de estudo da astronomia.

               Episódio singular promovido pelo prefeito foi o seu discurso de desagravo aos judeus, que haviam sido alvo de pichações em toda a cidade, de cunho nitidamente nazista. Várias entidades sociais – dentre elas a União Estadual dos Estudantes – haviam promovido um ato de solidariedade aos judeus e convidado Wladimir de Toledo Piza. O seu discurso foi contra as discriminações e preconceitos, dentre os quais o de caráter racial. Então lembrou aos presentes que ele próprio era tido como “quatrocentão”, ou seja, descendente de importantes linguagens paulistas. Mas que, entretanto, lá dentre os seus ancestrais – tal como ocorre em outras importantes famílias paulistas, que ele nomeara – havia índios e negros. Não é preciso dizer da irada revolta de alguns ilustres cidadãos…

               Ao escrever sobre alguns fatos da administração de Wladimir Piza como prefeito, referida elogiosamente, há poucos dias, por Jorge Wilheim, não estou procurando ser historiador, pois me falta formação para isso e pesquisa aprofundada. Apenas relatei alguns fatos que testemunhei, como assessor de imprensa – estagiário – em seu gabinete. Há muito mais a acrescentar sobre a ação política e a própria vida dele. Por exemplo, foi importantíssima a sua participação nos episódios que envolveram a morte de Getúlio Vargas – de quem ele fora amigo – impedindo que se instalasse a ditadura. Como o foi, igualmente, no movimento liderado pelo general Teixeira Lott pata garantir a posse de Juscelino Kubitscheck. Mas esses relatos ficam para os historiadores.

 

Adriano M. Branco

 


 

 

 

Sobre Adriano Branco

Eng. Adriano Murgel Branco Adriano Murgel Branco, paulistano de 76 anos, é administrador e engenheiro eletricista formado por uma das melhores escolas de engenharia do país - a Universidade Mackenzie. Branco, foi consultor no Brasil e em Moçambique, professor universitário, ocupou inúmeros cargos públicos, entre eles o de secretário da Habitação e secretário dos Transportes do Estado de São Paulo, nos anos 80. Ocupou também, cargos privados como o de diretor da Coplan, da Trol S.A., da TCL, da Caio entre outras. Ministrou palestras no Brasil,México,Colômbia,Venezuela,Equador, Paraguai, Argentina, Uruguai, Peru e Chile sobre transporte, segurança rodoviária e habitação. É autor de mais de duas centenas de artigos em jornais e revistas, publicadas até na Inglaterra e Alemanha. Em 1972, foi publicada sua primeira monografia sobre Acidentes Rodoviários; em 1975 é publicada a Normatização Brasileira de Defesa Rodoviárias. Teve também três de suas monografias publicadas em 1978: Trólebus,Tendências Modernas dos transportes Coletivos Pneumáticos e Transportes Urbanos por Trólebus; nos anos oitenta foram publicadas: Uma visão Sistêmica do Transporte Urbano, O Transporte Urbano no Brasil e A Prevenção dos Recursos Hídricos no Estado de São Paulo. Seus livros mais ressentem são Segurança Rodoviária, O Financiamento de Obras e de Serviços Públicos, em parceria com o Adilson Abreu Dallari, e Desenvolvimento Sustentável na Gestão de Serviços Públicos, em parceria com o economista Márcio Henrique Bernardes Martins.

8 Responses to “RECORDANDO O PREFEITO WLADIMIR PIZA”

  • Caro Dr. Adriano, bela cronica histórica. Só um reparo: não foi Agenor, e sim Juvenal Lino de Mattos que se elegeu prefeito e acabou optando pelo mandato de senador (trocando em seguida o ademarismo pelo janismo). Agenor foi deputado estadual por várias legislaturas, e morreu deputado. Atenciosamente, ruy

Ruy Fernando Barboza on março 8th, 2010 at 10:08 pm
  • Olá Adriano, gostaria de agradecer pela lembrança e memória.
    Sou neta do Wladimir e fico muito feliz em saber que ainda existem os que lembram dele e de sua gestão!
    Recomendo um livro por ele escrito ‘Por quem morreu Getúlio Vargas’ que traz um realista retrato político da última fase de Getúlio no poder.
    Mais uma vez obrigada,
    Maria

Maria de Toledo Piza on agosto 4th, 2011 at 3:48 pm
  • Prezada Maria

    Conte-me de qual dos filhos do Wladimir Piza você é filha, para ajudar-me em algumas recordações.

    Abraços
    Adriano

  • Prezado Eng. Adriano, lembro-me do senhor nos tempos da CIBRAP, Av. Mofarrej, Vila Leopoldina, 1965, 47 anos atráz. O senhor trabalhava no 1º andar. Eu exercia o cargo de Cronoanalista ( Estudo de tempos e métodos de trabalho ). Fiquei contente em ler seus artigos no site. Lembro-me ainda do Milton, sobrinho do falecido Dr. Dilson Funaro. Guardo muito boas lembranças.

    Abraços, grato, Josué Miron

  • Caro Dr. Adriano, agradeço as palavras sobre meu pai, o qual desfrutava de sua amizade, e que tinha grande estima pelo senhor. Infelizmente a visão futurista de meu pai com relação ao transporte público não teve prosseguimento, o que poderia ter evitado o caos do transito e do transporte publico de massa da cidade de São Paulo. Wladimir Filho

Wladimir de Toledo Piza filho on novembro 27th, 2012 at 10:24 pm
  • Estou conhecendo a cada dia historias do ilustre wladimir de toledo Piza e seus feitos como prefeito da maior cidade do Brasil.gostaria de ler alguns livros que me forem indicados
    Sou neto do ilustre pintor brasileiro domingos viegas de toledo Piza….Serginho

Sérgio toledo Piza on janeiro 24th, 2013 at 8:03 pm
  • Bela notícia sobre o grade Wladimir! De fato, um grande político e realizador de uma gestão limpa e honesta!
    Similar colocação deve ser feita ao Lino, que foi um grande Senador da República.
    Abraços
    Pedro Piza

  • Prezado Engenheiro Adriano
    Sou filho de Plinio de Toledo Piza, médico oftalmologista, primo irmão do Wladimir.
    Fiquei feliz com sua crônica sobre a prefeitura exercida pornum médico. Isto mostra que a capacidade técnica, embora importante, não é o que define uma boa administração.
    Cada dia fica mais evidente que o que nos falta em todas esferas de governo é gente de bem, boa formação moral, e interesse pela sociedade.
    Saudações
    Silvio Calazans de Toledo Piza

Silvio Calazans de Toledo Piza on novembro 19th, 2013 at 2:32 pm

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