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CUSTOS DA REDUÇÃO DAS EMISSÕES: UMA DISCUSSÃO FORA DE FOCO

      Nestes dias, em que se realiza a Conferência Mundial do Clima, em Copenhague, muitos debates giram em torno de quem deve pagar a conta do combate ao aquecimento global, estimada entre 90 bilhões de dólares e US$ 210 bilhões por ano, segundo os cálculos do “Global Canopy Program (OESP 13/12/09). Convenhamos que não é um grande custo para salvar a vida na Terra, quando um conjunto dos países interessados joga fora cifras muito maiores, desenvolvendo e adquirindo armamento, assim como mantendo guerras intermináveis em vários lugares.

      Mas já é um bom começo o reconhecimento da gravidade do problema climático, que alguns teimam em negar, e da relevância da determinação de metas de redução dos gases de efeito estufa. Só que, nesta discussão tergiversam exatamente os maiores poluidores, querendo eximir-se de suas responsabilidades, enquanto os menores poluidores mendigam recursos para poluir menos ainda.

      O grande equívoco da discussão está em avaliar quanto cada país polui, ao invés de verificar quanto cada cidadão polui. Dizer que a China é um dos dois países mais poluidores, ao lado dos Estados Unidos, é uma heresia, pois o gigante asiático tem quatro vezes mais habitantes do que o colosso norte americano. Polui, portanto, quatro vezes menos.

      No afã de crescer aceleradamente, o primeiro mundo comprometeu os recursos naturais da Terra e promoveu o ataque sistemático à Natureza, resultando no que está aí. Portanto, as metas maiores de redução da emissão de gazes de estufa e de outros poluentes que contaminam a terra, os mares e os rios devem caber exatamente a ele.

      As metas internacionais devem ser fixadas per capita, o que demandará mais investimentos por parte dos países que se desenvolveram à custa da degradação do Planeta. Estabelecer algum mecanismo de apoio aos países mais pobres, para que cumpram as suas metas, é justo. Mas essa ajuda deve ser de caráter prioritariamente tecnológico, para que países como Moçambique, por exemplo, passam substituir a madeira que utilizam para queimar, por fontes de maior eficiência energética e mais limpas, como a eletricidade e o etanol.

      O caso brasileiro é singular. Até pouco tempo atrás quase toda a energia elétrica provinha de aproveitamentos hídricos. Além disso, a preocupação com a contaminação do ar e com a escassez do petróleo já haviam incentivado as ferrovias eletrificadas, os bondes elétricos (70 cidades), os tróleibus no transporte urbano (11 cidades), além dos sistemas de ferrovias metropolitanas e metrô. Mais ainda, o Brasil foi o único país do mundo a desenvolver um combustível alternativo, sem contribuição ao efeito estufa – o etanol – para os seus veículos.

      Ainda que alguns governos desavisados hajam posto a perder o transporte ferroviário e boa parte do transporte urbano eletrificado, assim como introduzido a produção de eletricidade a partir de combustíveis de origem fóssil, a matriz energética brasileira ainda é preponderadamente limpa, ao contrário de quase todas as outras do Planeta.

      Que sentido tem, então, o nosso País contribuir para a redução do efeito estufa com metas maiores do que aquelas que se propõem a assumir as nações mais ricas, que cresceram à custa do comprometimento da sustentabilidade terrena? Por outro lado, contribuir com as nações mais pobres, para que elas possam se desenvolver agredindo menos a Natureza, é um dever de solidariedade internacional. Até porque muitos dos países pobres, como os da África, por exemplo, foram espoliados de suas riquezas naturais pelos mais ricos, ficando na dependência deles para resolver os mais comezinhos problemas.

      Por último, é preciso lembrar que exatamente nos países ricos se fez um grande esforço de substituir tecnologias de transporte de baixo consumo por unidade transportada (em geral baseadas na tração elétrica) por outras altamente ineficientes sob o ponto de vista energético, poluidoras e causadoras de acidentes. Essa é bem a história da General Motors que, nos Estados Unidos, financiou a retirada dos bondes e dos tróleibus em todas as cidades, dando oportunidade para um grande e irracional avanço no uso do automóvel. E, ao sentir que era necessário substituir os motores de combustão interna pela tração elétrica, desenvolveu e fabricou 100 automóveis elétricos que, a seguir, destruiu, por pressão das empresas do petróleo. Agora, depois de ir à falência e ser pressionada pelo governo norte-americano, a GM lança novo carro elétrico, coincidentemente com o mesmo nome VOLT, de sua frustrada experiência do passado.

      Com toda esse histórico, será razoável que os países pobres e aqueles que vem se desenvolvendo a duras penas, pagando caro pela energia de que dependem, sejam penalizados com metas de redução das emissões maiores do que às atribuídas às nações desenvolvidas?

 

Adriano M. Branco

 


 

 

 

Sobre Adriano Branco

Eng. Adriano Murgel Branco Adriano Murgel Branco, paulistano de 76 anos, é administrador e engenheiro eletricista formado por uma das melhores escolas de engenharia do país - a Universidade Mackenzie. Branco, foi consultor no Brasil e em Moçambique, professor universitário, ocupou inúmeros cargos públicos, entre eles o de secretário da Habitação e secretário dos Transportes do Estado de São Paulo, nos anos 80. Ocupou também, cargos privados como o de diretor da Coplan, da Trol S.A., da TCL, da Caio entre outras. Ministrou palestras no Brasil,México,Colômbia,Venezuela,Equador, Paraguai, Argentina, Uruguai, Peru e Chile sobre transporte, segurança rodoviária e habitação. É autor de mais de duas centenas de artigos em jornais e revistas, publicadas até na Inglaterra e Alemanha. Em 1972, foi publicada sua primeira monografia sobre Acidentes Rodoviários; em 1975 é publicada a Normatização Brasileira de Defesa Rodoviárias. Teve também três de suas monografias publicadas em 1978: Trólebus,Tendências Modernas dos transportes Coletivos Pneumáticos e Transportes Urbanos por Trólebus; nos anos oitenta foram publicadas: Uma visão Sistêmica do Transporte Urbano, O Transporte Urbano no Brasil e A Prevenção dos Recursos Hídricos no Estado de São Paulo. Seus livros mais ressentem são Segurança Rodoviária, O Financiamento de Obras e de Serviços Públicos, em parceria com o Adilson Abreu Dallari, e Desenvolvimento Sustentável na Gestão de Serviços Públicos, em parceria com o economista Márcio Henrique Bernardes Martins.

One Response to “CUSTOS DA REDUÇÃO DAS EMISSÕES: UMA DISCUSSÃO FORA DE FOCO”

  • Olá,
    Acho q os países ricos tem o dever de fazer metas de redução maiores do que os países em desenvolvimento. Porém, o Brasil é hoje o quarto maior emissor de gases estufa(quantidade total), então ele tb tem q assumir metas ambiciosas de redução.
    Ao meu ver, essa redução não demandará de tanto dinheiro como se prevê. Pois ao mudar o modo como se produz e o modo como se consome, mudança inevitável, isso diminuirá drasticamente as emissões brasileiras em pequeno e médio prazo, e durará para esta geração e todas as próximas.
    Infelizmente, tenho uma visão pessimista sobre essa mudança na economia global após a COP-15. Os países ricos se negam a ajudar os países pobres nesta mudança ao mesmo tempo em que em seus países a consciência e o padrão de consumo se renovam rapidamente. Se não houver pressão sobre os países ricos, o resultado será igual o que vemos hoje. Países pobres com suas populações totalmente dependentes dos ricos e multinacionais “conscientes” explorando-os.
    E os países emergentes? Podem escolher dois caminhos: ou caminham na direção do desenvolvimento sustentável ou ficarão para trás mais uma vez. E, infelizmente, é a segunda opção que os países ricos desejam através da muitinacionas exploradoras e da disseminação das informações contrárias ao modelo que se é projetado em seus países, mesmo q inconscientemente.
    Muito bom seu artigo!!!

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