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A DIPLOMACIA DA ALTIVEZ

      1. O noticiário recente diz que, finalmente, China e Estados Unidos comparecerão a Copenhague com metas de redução de emissões de gás carbono. E, mais, esses países estarão representados respectivamente pelos seus primeiro ministro e presidente da república.

        Não era essa a posição deles poucas semanas atrás, na reunião prévia da Itália, onde o nosso presidente Lula esbravejou, insistindo em que se valorizasse o encontro de Copenhague com maior representação possível dos países e que se apresentassem metas e não vagas intenções. Parte da imprensa brasileira até procurou ridicularizar a declaração de Lula segundo a qual trataria pessoalmente do assunto com os presidentes dos dois países. Houve até quem dissesse que, “do alto da sua soberba”, o presidente Lula ameaçava puxar a orelha deles.

        Mas o Brasil cumpriu bem o seu papel e, ao que parece, foi ouvido. Em primeiro lugar, porque é legítimo que qualquer país interpele os demais – grandes ou pequenos – acerca de suas políticas de desenvolvimento, que causam prejuízos a todo o Planeta. Em segundo lugar, não só o Brasil cresce no cenário internacional, podendo vir a ser a 5ª economia do mundo dentro de 4 décadas, o que lhe aumentar as responsabilidades e também o peso nas decisões internacionais, mas também enfrenta críticas de muitos outros países pelo descontrole do desmatamento, causador de emissões.

        Tem, sim, grande peso no concerto das nações um país que está conseguindo reduzir drasticamente o seu desmatamento e vai a Copenhague com metas elevadas de redução de emissões. Um país pioneiro no desenvolvimento de combustíveis alternativos, de origem não fóssil e que, 25 anos atrás, já produzira uma avançada legislação de controle veicular, a despeito das pressões contrárias das multinacionais dos automóveis.

        Estados Unidos e China foram sensíveis aos legítimos reclamos de Lula. Particularmente os Estados Unidos, que se diz poluírem tanto quanto a China, mas que, na verdade, poluem quatro vezes mais, levando em conta as respectivas populações. Os EUA são, disparadamente, os maiores poluidores do Planeta e relutam em adotar políticas de sustentabilidade. Obama precisava, mesmo, de um puxão de orelhas.

        2. A reação dos críticos que consideraram o presidente brasileiro um “abusado”, é de mesma natureza daquela manifestada quando o Brasil adotou decisiva posição contra a quartelada de Honduras. Após depreciar os esforços brasileiros, a grande imprensa regozijou-se com a chegada da “cavalaria americana” a Tegucigalpa, arrancando um compromisso em 24 horas. Só que o compromisso não foi cumprido; a cavalaria botou o rabo entre as pernas e a diplomacia americana recuou de parte de suas exigências, criando um problema sério para a OEA. Mesmo assim, um ilustre professor de relações internacionais aqui no Brasil, apoiando as primeiras intervenções brasileiras no caso, recrimina porém o Itamaraty por manter-se intransigente no não reconhecimento das eleições que se processarão em Honduras. Disse ele que seria prudente adotar uma “posição do meio”, para não desagradar os norte-americanos… São os resquícios da subserviência a que nos acostumamos por décadas a fio.

        3. Relativamente ao episódio da visita do presidente iraniano Ahmadinejad ao Brasil, pouco depois das visitas dos presidentes de Israel, Shimon Peres, e da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, Lula foi publicamente cobrado em Berlim (03/12/09) pela chanceler alemã Angela Merkel, que disse estar “perdendo a paciência” com Irã. Trata-se de ameaça rançosa à soberania de um país e de crítica aberta ao Brasil pela postura construtiva e pacífica que tem mantido em relação aos países em conflito.

        Lula reagiu à altura quando disse: “é melhor ter paciência para negociar, do que promover mais um conflito internacional; e falta autoridade moral àqueles que cobram o Irã, mas detêm armas nucleares. Nós brasileiros queremos para o Irã o mesmo que temos no Brasil: o direito ao uso pacífico da energia nuclear”.

        Está certo o governo brasileiro nas três posições adotadas. E podemos estar convictos de que a sua altivez vem repercutindo entre os grandes estadistas mundiais.

  Adriano M. Branco

 

 


 

 

 

Sobre Adriano Branco

Eng. Adriano Murgel Branco Adriano Murgel Branco, paulistano de 76 anos, é administrador e engenheiro eletricista formado por uma das melhores escolas de engenharia do país - a Universidade Mackenzie. Branco, foi consultor no Brasil e em Moçambique, professor universitário, ocupou inúmeros cargos públicos, entre eles o de secretário da Habitação e secretário dos Transportes do Estado de São Paulo, nos anos 80. Ocupou também, cargos privados como o de diretor da Coplan, da Trol S.A., da TCL, da Caio entre outras. Ministrou palestras no Brasil,México,Colômbia,Venezuela,Equador, Paraguai, Argentina, Uruguai, Peru e Chile sobre transporte, segurança rodoviária e habitação. É autor de mais de duas centenas de artigos em jornais e revistas, publicadas até na Inglaterra e Alemanha. Em 1972, foi publicada sua primeira monografia sobre Acidentes Rodoviários; em 1975 é publicada a Normatização Brasileira de Defesa Rodoviárias. Teve também três de suas monografias publicadas em 1978: Trólebus,Tendências Modernas dos transportes Coletivos Pneumáticos e Transportes Urbanos por Trólebus; nos anos oitenta foram publicadas: Uma visão Sistêmica do Transporte Urbano, O Transporte Urbano no Brasil e A Prevenção dos Recursos Hídricos no Estado de São Paulo. Seus livros mais ressentem são Segurança Rodoviária, O Financiamento de Obras e de Serviços Públicos, em parceria com o Adilson Abreu Dallari, e Desenvolvimento Sustentável na Gestão de Serviços Públicos, em parceria com o economista Márcio Henrique Bernardes Martins.

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