A DIPLOMACIA BRASILEIRA E A CAVALARIA NORTE AMERICANA – I
Mais uma vez a grande imprensa critica a política externa brasileira, atribuindo-lhe várias derrotas, dentre as quais o atrito com os EUA e o “esvaziamento” das reuniões de cúpula em Manaus e em Quito, pouco apoiadas pelos chefes de estado.
Mais uma vez essa imprensa se equivoca, criticando a independência e a coerência com que o Brasil se houve na questão hondurenha. Essas críticas é que não tem coerência, pois festejaram a ação rápida dos EUA em Honduras, invocando o que chamaram de “chegada da cavalaria norte-americana” que teria, em 24 horas, posto termo às disputas políticas em Tegucigalpa. Só que, desta vez, os “índios” centro-americanos enganaram a cavalaria e não cumpriram nada do acordo.
Ali, Obama foi derrotado. E, sem capacidade de reação, fez o pior: acomodou-se com os golpistas, contrariou a Organização dos Estados Americanos, autoridade maior para questões dessa natureza, e frustrou pelo menos duas dezenas de países que subscreveram o acordo arrancado pela “cavalaria”. Não há portanto como falar em revés da diplomacia brasileira.
No que respeita à posição brasileira, de pressionar os grandes países poluidores do meio ambiente para que cheguem a Copenhague com propostas concretas de redução de emissões, que também fora criticada como “quixotada” do presidente Lula – quando disse que cobraria pessoalmente dos EUA e da China uma postura pró-ativa – mais uma vez o Brasil foi vencedor. Já teria justificado plenamente a sua posição, ainda que os outros países não lhe seguissem o exemplo, pela sua determinação em contribuir para a solução de um problema que é de todos. Mas foi além: a partir de um posicionamento comum com a França, estas nações conquistaram o apoio da África do Sul, da China, Índia e, finalmente, dos Estados Unidos para levarem a sério a reunião de Copenhague, com propostas coerentes e, se possível, conciliadas entre si.
Por essas e por outras posições o Brasil vem conquistando credibilidade mundial, que já está emprestando a países de reconhecida liderança universal, mas que ainda não conseguem respaldo interno para as atitudes que gostariam de subscrever. Esse é bem o caso dos Estados Unidos, cujo presidente – o mais bem intencionado das últimas décadas – sofre as conseqüências das desconfianças externas, geradas pelas muitas e graves desconsiderações e intervenções praticadas, além das pressões internas das maiorias do Congresso e da própria população, que não abrem mão da hegemonia de seu país, custe o que custar para o resto do mundo.
Por incrível que pareça, não é mais o Brasil que precisa da compreensão dos EUA, mas sim o presidente Obama que necessita do nosso apoio e de vários outros países para implementar, aos poucos, as mudanças que prometeu, em particular nas relações com o resto do mundo, com destaque para a América Latina, e na sua contribuição à sustentabilidade do planeta e ao resgate de bilhões de pessoas do estado de pobreza em que vivem. Neste quadro, não foi nada promissor o recuo norte-americano em relação ao acordo de Tegucigalpa, que a sua própria “cavalaria” havia conquistado.
Adriano M. Banco

