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GOVERNO – SOLUÇÃO OU PROBLEMA?

            Homens importantes dizem, por vezes, bobagens evidentes, mas que correm o mundo como grandes verdades. Assim foi com a tristemente famosa frase de Ronald Reagan segundo o qual “o governo não é a solução para os nossos problemas; o governo é o problema” (recordada por Kishove Mahbubani em artigo transcrito pelo Estadão de 15/11/09).

               Onde esse conceito se encaixa na democracia, da qual os EUA pretendem ser o grande arauto, não se sabe. Parece mais um preconceito anarquista do que outra coisa. Mas o povo americano sabe que não é assim: não fora a decidida intervenção do governo Roosevelt na crise dos anos 30 e o País teria sucumbido; não fora a rápida intervenção do governo Obama no desastre econômico de 2008 e a história teria um rumo diferente. Aliás, se Barack Obama tivesse ido mais fundo, como o fez Roosevelt, provavelmente não estaria amargando hoje os 17 ou 18 milhões de desempregados e/ou subempregados de que fala a imprensa: número semelhante ao de desempregados dos Estados Unidos naquela primeira crise.

               Essa discussão rebate em outra, presente em nosso país. O desenvolvimento nacional esbarra em sérios problemas de infraestrutura, especialmente nas áreas de transporte e de energia. Faltam estradas – especialmente ferroviárias – portos, hidrovias, a produção de energia elétrica vive em seus limites, só não tendo chegado ao colapso devido à ampliação da capacidade instalada de origem térmica, que complica as questões ambientais.

               Entretanto, há muito mais óbices à implantação dessas infraestruturas do que solução. É essa mentalidade de que “o governo é o problema” que não lhe dá condições de agir na direção certa. É claro que os empreendimentos implicam em alguns problemas sócio-ambientais: pessoas que são deslocadas, áreas que são desapropriadas (em geral com lucro para os proprietários), espaços ocupados pelas obras e pelos lagos das hidrelétricas. Mas os benefícios a médio prazo são enormes e compensam os inconvenientes envolvidos.

               Lembro-me, a propósito, da dificuldade de se obterem áreas para habitação popular e de outros entraves a programas de moradia. Há 20 anos se diz que o Brasil tem um déficit habitacional de 12 milhões. Esse número praticamente não muda; são 40 milhões de pessoas (ou algo parecido) vivendo em sub-habitação, perdendo condições adequadas de trabalho, educação e saúde. São grandes contingentes de trabalhadores cuja produtividade é muito pequena, contribuindo para o chamado custo Brasil.

               Recordo-me da discussão inglória que se deu em torno do projeto do Porto Brasil, em Peruíbe, desenvolvido por grupos privados. O Estado de São Paulo ganharia um moderno e eficiente porto de mar e a região usufruiria de oferta de empregos, esforços de qualificação de trabalhadores, reforço do turismo, implantação de conjuntos habitacionais e de pólos industriais, melhorando inclusive as produções locais de pescado, banana e palmito, através da introdução de novas tecnologias. Mas, com o argumento de que o porto se instalaria em terras de índios – o que é uma asneira inacreditável, só aceita por quem jamais esteve no local – o governo não apoiou o projeto. Aí o governo foi o problema e não a solução…

               Mas se o governo quisesse ser a solução, teria seguido os passos do Rio de janeiro, que capitalizou para si todas as energias não gastas em São Paulo e vem desenvolvendo o porto de Açu, valendo-se dos mesmos empreendedores, que acabam de atrair o grupo Camargo Correa para ali implantar uma siderúrgica.

               O governo tem que ser a solução, abandonando preconceitos, disputas políticas, falsa defesa de despossuídos. Os índios ao redor de Peruíbe, inclusive aqueles que vivem na antiga estação ferroviária da velha Sorocabana, que eles invadiram e levaram os desavisados a dizer que ali eles nasceram, ficariam em condição muito melhor se o porto tivesse sido implantado.

               Enfim, a implantação das infraestruturas de que carece o País são a solução, e não o problema. É preciso que o governo esteja do lado certo da solução.

 

Adriano M. Branco

 

 


 

 

 

Sobre Adriano Branco

Eng. Adriano Murgel Branco Adriano Murgel Branco, paulistano de 76 anos, é administrador e engenheiro eletricista formado por uma das melhores escolas de engenharia do país - a Universidade Mackenzie. Branco, foi consultor no Brasil e em Moçambique, professor universitário, ocupou inúmeros cargos públicos, entre eles o de secretário da Habitação e secretário dos Transportes do Estado de São Paulo, nos anos 80. Ocupou também, cargos privados como o de diretor da Coplan, da Trol S.A., da TCL, da Caio entre outras. Ministrou palestras no Brasil,México,Colômbia,Venezuela,Equador, Paraguai, Argentina, Uruguai, Peru e Chile sobre transporte, segurança rodoviária e habitação. É autor de mais de duas centenas de artigos em jornais e revistas, publicadas até na Inglaterra e Alemanha. Em 1972, foi publicada sua primeira monografia sobre Acidentes Rodoviários; em 1975 é publicada a Normatização Brasileira de Defesa Rodoviárias. Teve também três de suas monografias publicadas em 1978: Trólebus,Tendências Modernas dos transportes Coletivos Pneumáticos e Transportes Urbanos por Trólebus; nos anos oitenta foram publicadas: Uma visão Sistêmica do Transporte Urbano, O Transporte Urbano no Brasil e A Prevenção dos Recursos Hídricos no Estado de São Paulo. Seus livros mais ressentem são Segurança Rodoviária, O Financiamento de Obras e de Serviços Públicos, em parceria com o Adilson Abreu Dallari, e Desenvolvimento Sustentável na Gestão de Serviços Públicos, em parceria com o economista Márcio Henrique Bernardes Martins.

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