OS OBSTÁCULOS À GESTÃO DE BARACK OBAMA – I
Quem leu os jornais de 05/11/09 poderá avaliar a grande dificuldade que o presidente norte-americano está enfrentando para conduzir o seu país ao bom caminho que nos reserva o futuro. Como salientei em meu recente livro Reflexões sobre a Crise Mundial, as agruras financeiras do mundo atual, vividas no último ano, não são muito diferentes daquelas que assolaram os EUA e, por extensão, os demais países, no período 1929/1932. Em 1933, Roosevelt foi eleito com a grande esperança da Nação nas reformas que iria promover.
Em 2008 Barack Obama foi eleito presidente dos Estados Unidos com as mesmas esperanças.
Roosevelt atacou a crise investindo na infraestrutura nacional e gerando milhões de empregos, dando trabalho aquela massa de 18 milhões de desempregados, qualquer que fosse a sua ocupação: reflorestamento, reforma de escolas e de prédios públicos, etc. Já Obama, embora convencido do caminho correto de Roosevelt, que não hesitou em dar ao estado uma função desenvolvimentista muito relevante, segundo a orientação dos keynesianistas da época, viu-se contingencialmente obrigado a salvar bancos e grandes indústrias, impedindo maior desemprego mas não gerando trabalho novo. O desempregado não vê grandes perspectivas a curto prazo e aqueles que investiram nas promessas mirabolantes dos bancos arcaram com os prejuízos.
Mas Roosevelt teve outro papel ainda mais relevante: organizar a vitória das forças aliadas na 2ª guerra mundial e traçar rumos para o pós-guerra, tendo como alvos principais eliminar o colonialismo e oferecer prosperidade a todas as nações. Conduziu com êxito a vitória militar, mas não viu implantados os seus propósitos para o pós-guerra, porque morreu pouco antes do final do conflito mundial. Foi quanto bastou para os Estados Unidos mudarem de rumos e os países colonialistas mandarem às favas os seus sagrados compromissos, em nome dos quais se formou a grande aliança vitoriosa, que envolveu países distantes da luta armada, como o nosso, e recrutou combatentes nas próprias colônias.
Barack Obama vai tendo sucesso na recuperação de seu país; mas está muito longe de exercer um papel de liderança fundamental na visão de futuro do mundo. Com efeito, se o problema de hoje não é o colonialismo, resta uma predominância econômica dos países do primeiro mundo que os leva a consumir recursos naturais em proporção maior do que o globo terrestre pode repor. E, ao consumir tão desbragadamente, produzem estragos ambientais que começam a comprometer toda a vida no planeta.
A principal proposta de controle ambiental e de sustentabilidade da terra deveria partir exatamente do país que mais consome. Procura-se dizer hoje que a China, no seu programa de crescimento, polui tanto quanto os EUA; entretanto, falta nessa constatação lembrar que a China tem 4 vezes mais habitantes do que os Estados Unidos, o que põe esta nação na posição de poluidor 4 vezes maior do que o país asiático.
Esse esforço universal pela sustentabilidade e proteção do ambiente é tarefa muito maior do que a liquidação do colonialismo, que acabou ruindo por si mesmo, mas à custa de muitas guerras que Roosevelt queria evitar. Entretanto, os Estados Unidos sequer aderiram ao protocolo de Kyoto, primeira tentativa – ainda tímida – de proteção ambiental.
No momento em que se preparam propostas para o grande encontro de Copenhague em torno das questões climáticas, diz o Estadão de 05/11/09 que “os republicanos boicotam a lei climática que tramita no congresso americano e o presidente Barack Obama pode chegar a Copenhague de mãos vazias. Anteontem, nenhum senador do partido foi a uma audiência do comitê do meio ambiente que a discutiu”. Noutra parte do mesmo jornal se diz que “uma organização conservadora, a Americans for Prosperity (financiada pela Exxon Mobil, entre outros), lançou um abaixo-assinado “contra o imposto climático” e incentiva eleitores a não votarem em congressistas a favor da lei. Para ganhar tempo, a senadora Barbara Boxer, líder do comitê, pediu à Agência de Proteção Ambiental (EPA) um estudo sobre a lei, que não ficará pronto antes de Copenhague”.
Mais uma vez se vêem pesados lobbies trabalhando contra os interesses da população e, agora, da humanidade. Foi assim que a General Motors conseguiu eliminar os bondes e tróleibus de todas as cidades americanas que os possuíam, abrindo campo para a enorme expansão do uso de automóveis e de queima de combustíveis. Foi assim que ela própria destruiu os carros elétricos que desenvolvera, mas que desagradavam as Exxon da vida.
O congresso americano não difere do brasileiro nesse particular. As manobras políticas, muitas vezes servindo a interesses subalternos, se fazem lá como cá. Por isso não é de estranhar a noticia estampada no mesmo Estadão em que o presidente do DEM diz com toda a sem-cerimônia: “Sei que é difícil criticar alguém que tem avaliação positiva de 80% (Lula), mas é nosso dever (grifo meu) baixar esse índice para pelo menos 50% ou 60%”. Só faltou propor algumas sabotagens ao governo, tal como o congresso norte-americano vem fazendo em relação a Barack Obama. Os americanos, os brasileiros e o mundo todo que se lixem!
Adriano M. Branco

