APROXIMA-SE O FIM DAS AÇÕES MILITARES AMERICANAS NO IRAQUE E NO AFEGANISTÃO?
A atitude do presidente Barack Obama de receber pessoalmente os despojos dos soldados norte-americanos mortos no Afeganistão, que os jornais estamparam em 01/11/09, revogando a proibição de seu antecessor à divulgação até de fotos dos esquifes com os restos mortais, tem um valor simbólico muito importante.
Em primeiro lugar o País presta a devida homenagem àqueles jovens que enviou para um destino incerto, em nome de duvidosos interesses da Pátria. A atitude, de Bush, afora o fato de que os EUA recrutavam os seus jovens para uma luta absolutamente inglória, tratava os militares como peças de artilharia que, uma vez inutilizadas, deveriam ir anonimamente para o ferro-velho.
Em segundo lugar, é a divulgação ampla dos mortos e feridos que acaba influenciando a opinião pública para por um paradeiro na guerra, especialmente quando a Nação não chega a entender porque os seus filhos estão sendo levados a morrer em terras estranhas. Só se dá conta desse desatino quando os heróis são devolvidos mortos ou mutilados.
Foi assim no Vietnã. Os americanos sustentaram uma guerra cruel, que feriu e matou alguns milhões de vietnamitas, a maior parte deles civis, covardemente atingidos por bombas incendiárias, mas voltaram para casa, sem glória nenhuma, com quase 60 mil mortos e centenas de milhares de feridos. Mais ainda, os EUA receberam milhões de seus jovens recrutas viciados em drogas, o que obrigou o País implantar clínicas de reabilitação em todo o território nacional.
Na leitura das memórias do presidente egípcio Nasser, publicada pelo Estadão muitos anos atrás, lembro-me de referência a essa estratégia de distribuição de tóxicos aos soldados americanos. Em visita ao Cairo, o premier chinês Chu En Lai teve a oportunidade de ver uma gigantesca manifestação política contra o crescente envio de tropas americanas para o Vietnã. Empolgado com tão grande manifestação, Nasser pediu a opinião de seu ilustre visitante, que o desapontou: “é um belíssimo comício, de evidente solidariedade; mas o seu objetivo é estrategicamente errado”.
Diante da surpresa de Nasser, o líder chinês explicou: “se os americanos tiverem no Vietnã apenas 20 ou 30 mil soldados, podem se aventurar a um bombardeio nuclear, pois o risco de perderem gente sua é pequeno. Mas se tiverem 350 mil homens (como era aproximadamente o seu contingente) e praticarem uma agressão desse tipo, eles sabem que a China invadirá o Vietnã com os cerca de 3 milhões de soldados que tem preparados e as tropas americanas serão dizimadas em larga escala”.
Estupefato com a visão estratégica de Chu Em Lai, Nasser ainda indagou: “mas como é que se tirarão, então, esses soldados de lá?”. Ao que o líder chinês respondeu: “com a estratégia de que os chineses foram vitimas quando da dominação inglesa: o ópio. Nós estamos infiltrando grande quantidade de tóxicos entre os soldados americanos – que são alvo fácil por não entenderem porque lutam numa guerra que não é sua”.
Os efeitos dessa prática foram conhecidos em todo o mundo, representados pelo pavor que os soldados americanos tinham de seus adversários, que os emboscavam a toda hora e os matavam até com flechas envenenadas, levando-os a atos de insanidade e de atrocidade, matando indiscriminadamente os vietnamitas mas, por vezes, também os seus aliados e compatriotas. E não durou muito para que eles se dessem por vencidos e fossem repatriados pelo seu governo, sob forte pressão da opinião pública.
Não foi diferente o que ocorreu com os franceses na Argélia. Ouvi de um jovem recruta a manifestação do seu terror ao ser lançado de pára-quedas e recebido a bala, como num verdadeiro ao alvo, pelos argelinos. Metade dos pára-quedistas morria ou ficava ferido nessas ações, o que levou as suas famílias a pressionar cada vez mais o governo francês a encerrar a guerra.
Também foi a pressão das famílias portuguesas contra o envio de tropas às colônias africanas de Portugal, tropas de jovens que iam para uma luta sem glória e sem volta, que fez o País desistir. Além do fato de que, no agudo da crise, Portugal gastava algo como 40% de seu orçamento para manter as colônias.
Agora é chegada a vez de os norte-americanos se convencerem de que as suas guerras de denominação militar e econômica, fomentadas por grandes interesses da indústria da guerra e do petróleo, estão com os seus dias contados. E isso, depende da consciência da coletividade, da qual se vinha ocultando a face mais dramática: a crescente quantidade de mortos e de feridos. Barack Obama resolveu encarar essa realidade!
Adriano M. Branco

