SEPARANDO O JOIO DO TRIGO
A leitura dos jornais do dia 31/10/09 nos enseja comentários sobre o passo importante que foi dado na direção da restauração da democracia hondurenha. Com efeito, a presença de representante do Departamento de Estado norte-americano em Tegucigalpa, com instruções firmes do governo Barack Obama no sentido de cortar as ajudas financeiras a Honduras se os contendores não chegassem a um acordo, foi decisiva. Por outro lado, ficou a esperança de que o Brasil venha a contar com uma representação diplomática norte-americana de peso, se o negociador em Honduras – Thomas Shanmon – vier a ser, de fato, embaixador em Brasília.
Mas o comentário que mais freqüentemente se leu nesses jornais foi no sentido de que a ação brasileira em favor da superação do impasse em Honduras foi amadorística e inútil. Boa mesmo foi a chegada da “cavalaria estadunidense” que, como nos filmes do velho Oeste, pôs ordem na casa. Sim, os dois maiores jornais trataram dessa forma o evento.
É evidente que o poder de dissuasão dos Estados Unidos é muito maior do que o brasileiro, até em razão da dependência econômica de Honduras. Mas é também rigorosamente provável que os EUA não entrariam na questão – como se recusaram a entrar de imediato – não fora a posição firme do Brasil, denunciando logo de início a entrar quartelada que depusera o presidente legitimamente eleito e apoiando claramente o seu retorno ao cargo. Afinal, as relações dos EUA com os países latinos americanos sempre foi de dominação, ingerência e sustentação de golpes e de ditaduras. Por isso, a nova postura americana, adotada por Obama, precisa do apoio claro das demais nações.
Também se deve a solução hondurenha ao claro posicionamento da Venezuela, país onde se ensaiou a última quartelada do continente.
Na contramão da posição independente que vem assumindo abertamente vários países latino-americanos, como o Brasil, a Argentina, a Venezuela, a Bolívia, o Equador, está presentemente a Colômbia, que acaba de firmar acordo com os EUA ampliando de forma inusitada as possibilidades de ação militar destes em território colombiano. Tão inusitada que o próprio Conselho de Estado da Colômbia condenou o acordo, como lesivo ao país.
Mas o Brasil mantém posição de neutralidade diante disso, pois é decisão soberana de um governo democrático. Pela mesma razão, os senadores brasileiros da Comissão de Relações Exteriores – gostando ou não do presidente Chaves – aprovaram a inclusão da Venezuela no Mercosul.
Não há como deixar de reconhecer a posição equilibrada e pró-ativa da diplomacia brasileira, que hoje segue uma linha de independência e de cooperação internacional. Em algumas questões, pode perder a batalha, o que leva os apressados críticos a manifestar o seu complexo de inferioridade e deslumbramento ante os filmes do velho Oeste. Mas este não é o caso de Honduras, onde a ação do Brasil foi decisiva. Sem ela, os Estados Unidos provavelmente estariam ignorando os acontecimentos, considerando-os de segunda importância, o que, aliás, haviam feito até agora.
Adriano M. Branco

