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A ESTRADA CUNHA-PARATI

            Quando assumi a Secretaria Estadual dos Transportes, em maio de 1984 – Governo Montoro – eu tinha como principal plano de investimentos um amplo programa de asfaltamento de estradas vicinais. A proposta desse programa eu mesmo fizera ao então candidato, em 1982. Mas as dificuldades financeiras não permitiram evoluir satisfatoriamente.

            Como eu assumira já no 5º mês do orçamento, também não tinha como realizar muita coisa em 84. Mas preocupava-me ver passar o segundo ano de governo em brancas nuvens. Concentrei-me, então, em analisar prioridades, o que me permitiu levar, em Agosto, uma proposta ao Governador: 4.000 km de estradas poderiam ser considerados no programa.

            O Secretário do Planejamento, presente à reunião, entendeu que não daria para iniciar mais do que 2.400 km; mas eu convenci o Governador de que, para realizar de fato 2.400, seria necessário ter à mão autorizações para uma extensão maior. Decidiu-se, então, programar 4.000 km.

            Mas também se aprovou na reunião uma programação por etapas, ficando convencionado não ceder a pressões políticas para qualquer alteração do cronograma. Essa era uma condição para que tudo desse certo.

            Ao regressar para a Secretaria, grande era a expectativa de meus companheiros. Contei-lhes o desfecho e, ao ser indagado sobre os primeiros passos, surpreendi a todos: “contratem projetos para 6.000 km de pavimentação, dando prioridade para os 4.000 combinados”.

            Em 3 de outubro realizamos uma grande festa no Palácio: a Secretaria lançava 304 licitações de obras, atendendo a 280 municípios, a maior parte delas destinadas à pavimentação de estradas municipais.

            Aquela época o Governo estava sofrendo grande pressão pública, refletida em declarações de políticos adversários e de vários órgãos da imprensa. Na verdade, Montoro recebera o Estado falido e só no final do 2º ano de mandato as realizações se tornaram possíveis. Havia, assim, grande expectativa por parte do Governador em relação à festa programada, que ele chegou a recear que fosse um fracasso.

            À hora aprazada estavam presentes 1.800 pessoas (o auditório e seus corredores completamente tomados), sendo cerca de 300 prefeitos (dentre eles o de São Paulo), 40 deputados e dois senadores. Três bandas de música de cidades do interior e 72 faixas de homenagem ao Governador davam o tom festivo ao ato.

            Depois de muitos discursos chegou a minha vez e Montoro pediu-me para ser breve, ao que respondi: “agora começa a festa dos prefeitos; eu vou nominá-los um a um”. E, é claro, ele concordou, resultando quase trezentas ovações, ao serem anunciadas as obras.

            Nossos adversários diziam: “eles anunciam e depois não fazem nada”. Mas naquele dia os jornais já convocavam, em página dupla, as licitações para aquelas 304 obras. Então nos criticaram por uma “propaganda” em página dupla, ao que reagimos mostrando que, reunindo todas as convocações havíamos economizado 40% do espaço nos jornais. Além disso, a publicidade era obrigação legal.

            Então, o novo argumento: “eles abrem as licitações e não contratam as obras”. Mas 30 dias após, como previsto no edital, todas as propostas foram julgadas, dando origem, em pouco tempo, aos respectivos contratos.

            Agora, nova crítica: “eles assinam contrato e não começam as obras”. Mas tiveram que se conformar com todas as obras sendo iniciadas pouco tempo depois.

            No ano seguinte, nova festa, para mais 300 obras. E, em 1986, tiramos da prateleira os projetos dos 2.000 km de vicinais não aprovados inicialmente. Ocorreu que o Plano Cruzado fez elevar-se muito a arrecadação e nós estávamos preparados para gastá-la…

            O resultado, só em estradas vicinais, é o que se estampa a seguir.

           

                

   Características

  Estradas

 

Quantidade

 

Extensão

Estradas  com  mais  de

5 km, concluídas ou em

obras

 

377

 

5.730 km

Estradas com menos de

5 km, concluídas ou em

obras

 

78

 

190 km

 

TOTAL

 

455

 

5.920 km

 

            Nós tivemos em 84, 85, e 86 cerca de 2.000 obras em execução, com grandes programas como o de vicinais e o de estações rodoviárias de passageiros, através do qual conveniamos com as prefeituras a construção de mais de 300 estações. Era dinheiro federal, administração do estado e terreno e construção por conta das prefeituras.

            Toda essa história recorda os êxitos da administração Montoro. Mas também serve para rememorar um fato pitoresco. Certa feita o Governador me chamou ao Palácio e, como que se desculpando, disse-me que era preciso alterar a prioridade da estrada de Cunha a Parati. Embora eu brincasse com ele por causa do nosso compromisso de não mudar prioridades, na verdade essa foi a única inversão.

            Preocupava-se o Governador com o anúncio, pelo Estado do Rio de Janeiro, do início do seu pedaço, da divisa com São Paulo até Parati. O Governo de São Paulo não podia ficar atrás e os prefeitos fluminenses lá estavam também para pressionar.

            Adotada a decisão, Montoro pediu-me que começasse a obra em 15 dias, com as máquinas do DER, ao que eu argumentei contrariamente, dizendo que esse seria o caminho mais longo, pois as máquinas da autarquia se destinavam apenas à conservação. Minha proposta era licitar a obra, iniciando-a em 60 dias.

            O Governador não se conformava: queria iniciar antes, pois o seu colega do Rio de Janeiro já estava manobrando máquinas. Montoro só se conformou quando eu lhe disse: o trecho dele é a subida da serra; não vai aprontar nunca.

            Seis ou sete meses depois, inauguramos a nossa; do trecho do Rio, nem notícia. Ou melhor, a notícia que assustou o nosso governador, pelo conteúdo de ilegalidade, é que as prefeituras de São Paulo e do Rio de janeiro haviam realizado um mutirão no fim de semana para pelo menos cascalhar o trecho fluminense.

            São passados 23 anos e os jornais noticiam agora o início das obras de asfaltamento da estrada que vai da divisa com São Paulo a Parati.

            Parabéns para nós todos, que teremos uma estrada asfaltada, numa das mais bonitas regiões serranas, com acesso à linda cidade de Parati.

 

Adriano M. Branco

  

 


 

 

 

Sobre Adriano Branco

Eng. Adriano Murgel Branco Adriano Murgel Branco, paulistano de 76 anos, é administrador e engenheiro eletricista formado por uma das melhores escolas de engenharia do país - a Universidade Mackenzie. Branco, foi consultor no Brasil e em Moçambique, professor universitário, ocupou inúmeros cargos públicos, entre eles o de secretário da Habitação e secretário dos Transportes do Estado de São Paulo, nos anos 80. Ocupou também, cargos privados como o de diretor da Coplan, da Trol S.A., da TCL, da Caio entre outras. Ministrou palestras no Brasil,México,Colômbia,Venezuela,Equador, Paraguai, Argentina, Uruguai, Peru e Chile sobre transporte, segurança rodoviária e habitação. É autor de mais de duas centenas de artigos em jornais e revistas, publicadas até na Inglaterra e Alemanha. Em 1972, foi publicada sua primeira monografia sobre Acidentes Rodoviários; em 1975 é publicada a Normatização Brasileira de Defesa Rodoviárias. Teve também três de suas monografias publicadas em 1978: Trólebus,Tendências Modernas dos transportes Coletivos Pneumáticos e Transportes Urbanos por Trólebus; nos anos oitenta foram publicadas: Uma visão Sistêmica do Transporte Urbano, O Transporte Urbano no Brasil e A Prevenção dos Recursos Hídricos no Estado de São Paulo. Seus livros mais ressentem são Segurança Rodoviária, O Financiamento de Obras e de Serviços Públicos, em parceria com o Adilson Abreu Dallari, e Desenvolvimento Sustentável na Gestão de Serviços Públicos, em parceria com o economista Márcio Henrique Bernardes Martins.

2 Responses to “A ESTRADA CUNHA-PARATI”

  • Como está aestradahoje 07 de novembro de 2009? Toda asfaltada? Pronta para utilização pública, com segurança? Um abraço.

  • Gostaria de saber quais as condições de tráfego na estrada que liga Cunha a Paraty? Obrigado Marcio SP

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