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NA CURVA DO AMANHÃ

               Almino Affonso acaba de publicar mais um livro, de grande interesse, como os anteriores. Seus livros em geral retratam aspectos ou momentos da história brasileira, não como obra de historiador, mas como testemunha e partícipe. Neste, sobressaem as questões da cidadania e da democracia, tratadas com erudição e permeadas de pronunciamentos seus em diferentes fóruns. Em vários capítulos Almino relembra a sua atuação pública, que lhe valeu muitas homenagens ao longo da brilhante carreira, como também testemunha fatos históricos da maior relevância.

               Assisti de perto o seu empenho na administração pública, quando ele foi secretário de estado e vice-governador. Eu estava nos mesmos governos, também como secretário, e, juntos, vivenciamos a grande epopéia das Diretas-Já, em que Almino teve papel relevante. Juntos, fomos condenados, em primeira instância (e depois absolvidos), por ter oferecido transporte gratuito àquela imensa massa de brasileiros que queria ir ao comício da Praça da Sé…

               Mas, voltemos ao seu livro. Um aspecto que não passa despercebida é a veia literária, com pendores poéticos, que enriquecem tudo o que ele escreve. Na juventude, nós o comparávamos a Castro Alves, até pelo aspecto físico.

               Mas seus livros não revelam o grande tribuno que eu conheci desde cedo. Quando comecei a participar da chamada política universitária, conheci Almino, que era presidente da UEE – União Estadual dos Estudantes, que eu também cheguei a presidir por um breve tempo. Em 1953, se bem me lembro, tivemos um dos congressos anuais da UNE – União Nacional dos Estudantes, creio que o XVI, que se realizou em Goiânia. E a bancada paulista, a segunda maior logo após a do Rio de Janeiro, preparou-se para conclave, presidida por Almino Affonso.

               Fomos então a Goiânia (5 horas de vôo…) imbuídos de nossos ideais democráticos, preparados para o debate de temas de alta relevância, mas também de olhos abertos na questão sucessória. Eu representava a Escola de Engenharia Mackenzie, com o saudoso Rubens Paiva. São Paulo buscava alianças, sobretudo com Minas Gerais, que era a terceira no cômputo de eleitores, para vencer as eleições para a UNE, tendo como principais opositores os cariocas.

               Na bancada do Rio de Janeiro havia muitos estudantes “de fachada”, jovens inscritos nas várias universidades, mas a serviço dos interesses do Ministério da Educação, que procurava reduzir o ímpeto dos jovens na ação política maior. Eram os terríveis “ministerialistas”.

               O Congresso da UNE movimentou Goiânia. Cidade pacata, provinciana, ficava às escuras após meia noite, por falta de eletricidade. Também faltava água e contava-se que nas últimas eleições o grupo do governador Pedro Ludovico Teixeira prometera a água, que jorrou dois dias antes do pleito. Mas no dia seguinte, o poço secou: tinha sido alimentado por bombas, esvaziando os reservatórios, para ganhar a eleição.

               A cidade, de traçado moderno, com largas avenidas, era o paraíso dos ciclistas. Mas contrastava o seu modernismo com a vida provinciana. Foi uma dificuldade achar alojamento para 600 estudantes. Mas o cinema principal foi capaz de abrigar quase 2.000 pessoas no dia da inauguração do Congresso, que lotaram o recinto para receber as mais altas autoridades locais e os estudantes. Para assistir algo de inédito.

               O vendedor de churrasquinhos que postou-se à porta do cinema, passou dia e noite fazendo churrascos e quase morreu de exaustão: eram milhares de varetas de bambu que se acumulavam ao lado do fogareiro, sem interrupção.

               Mas lá dentro, o clima entre os estudantes era tenso. Primeiro porque se tratava de reunião importante; segundo porque queríamos chegar ao final elegendo a nova Diretoria da UNE; terceiro, porque havia os tais ministerialistas, que às vezes apelavam.

               Consta que um ou dois anos antes José Gregori fazia um discurso na UNE, no Rio de Janeiro, quando desligaram os microfones. Orador impecável e de voz forte, ele prosseguiu; então, apagaram as luzes. Como Gregori prosseguiu, sem luz e sem microfone, raptaram-no…

               Naquela sessão de abertura, falavam os representantes dos 23 estados, chamados pela ordem alfabética dos nomes de seus estados. Para mal de nossos pecados, São Paulo era um dos últimos…

               E tome discurso! Na altura da metade, falou Minas Gerais, que nós aplaudíamos freneticamente, em busca dos votos da bancada. Mas o presidente da UEE mineira era um dos bons.

               Entretanto, lendo o discurso, chegou a uma frase que dizia: “nós viemos com fé e esperança…”. Só que esse estribilho estava repetido 6 ou 7 vezes e, quando recitado pela terceira vez, o auditório começou a repeti-lo, como numa ladainha. Discurso escrito, não deu jeito de mudar e nós ficamos penalizados como o fato. Sete vezes, ainda que com muita fé e esperança, foi demais…

               Lá pelas tantas chegou a vez de São Paulo. Almino levantou-se, mancando devido a um ferimento no pé, atravessou todo o palco e assomou à tribuna. Começava as saudações e esbarrou no microfone, quase o jogando lá de cima. Afastou-o e retomou o discurso com voz forte.

O discurso, de improviso, uma preciosidade: escorreito, denso, sem titubear, a ponto de eu pensar que ele o havia decorado. Mas, na medida em que Almino falava, citando discursos anteriores, com referência aos estados representados, viu-se que ele aproveitara o fato de ser dos últimos para compor, em sua cabeça privilegiada, uma peça rara de oratória. E, seguindo a boa regra, foi elevando o tom e conferindo energia crescente ao conteúdo, até chegar ao ápice, quando disse: “por isso nós aplaudimos todas, as vezes em que o nosso colega fulano de tal, de Minas Gerais, disse ter vindo com fé e esperança…”.

               Não terminou a frase: o teatro veio a baixo. Aplausos de todos os que lá estavam, correligionários ou adversários. Os mineiros, de pé nas cadeiras.

               Almino retomou o discurso, ampliou o momento forte e aos poucos nos acalmou, chegando ao final. De regresso ao seu lugar, foi cumprimentado pelos 22 presidentes de UEE e mais 20 ou 30 autoridades que compunham a grande mesa diretora, todo o tempo sob palmas ininterruptas.

               São passados quase 60 anos. Tenho a cena em minha memória sem perda de qualquer detalhe. Para mim, nascia ali um dos mais promissores tribunos de nosso País, dotado de forma e conteúdo inigualáveis.

               Há tantos anos pretendo fazer esta homenagem ao Almino, relembrando fatos que já repeti dezenas de vezes. Agora, o registrei.

 

Adriano M. Branco

 

 


 

 

 

Sobre Adriano Branco

Eng. Adriano Murgel Branco Adriano Murgel Branco, paulistano de 76 anos, é administrador e engenheiro eletricista formado por uma das melhores escolas de engenharia do país - a Universidade Mackenzie. Branco, foi consultor no Brasil e em Moçambique, professor universitário, ocupou inúmeros cargos públicos, entre eles o de secretário da Habitação e secretário dos Transportes do Estado de São Paulo, nos anos 80. Ocupou também, cargos privados como o de diretor da Coplan, da Trol S.A., da TCL, da Caio entre outras. Ministrou palestras no Brasil,México,Colômbia,Venezuela,Equador, Paraguai, Argentina, Uruguai, Peru e Chile sobre transporte, segurança rodoviária e habitação. É autor de mais de duas centenas de artigos em jornais e revistas, publicadas até na Inglaterra e Alemanha. Em 1972, foi publicada sua primeira monografia sobre Acidentes Rodoviários; em 1975 é publicada a Normatização Brasileira de Defesa Rodoviárias. Teve também três de suas monografias publicadas em 1978: Trólebus,Tendências Modernas dos transportes Coletivos Pneumáticos e Transportes Urbanos por Trólebus; nos anos oitenta foram publicadas: Uma visão Sistêmica do Transporte Urbano, O Transporte Urbano no Brasil e A Prevenção dos Recursos Hídricos no Estado de São Paulo. Seus livros mais ressentem são Segurança Rodoviária, O Financiamento de Obras e de Serviços Públicos, em parceria com o Adilson Abreu Dallari, e Desenvolvimento Sustentável na Gestão de Serviços Públicos, em parceria com o economista Márcio Henrique Bernardes Martins.

2 Responses to “NA CURVA DO AMANHÔ

  • prezado dr. Adriano, gostaria de entrar em contato para falar de Rubens Paiva. Favor me enviar seu e-mail. Sou do Rio.
    obrigado.

  • Caro Jason,

    A princípio, me desculpo pela demora.
    Meu e-mail é ambranco@uol.com.br.

    Cordialmente

    Adriano Branco

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