RECORDANDO DILSON FUNARO II
Discurso proferido pelo engº.Dilson Domingos Funaro, por ocasiãode sua posse como Presidente do Sindicato da Indústria de MaterialPlástico do Estado de São Paulo, em 14 de Junho de 1966
Sejam as nossas primeiras palavras as de agradecimento à presença ilustre de todos os que aqui vieram nos emprestar o prestígio de sua solidariedade. Em especial, agradecemos aos componentes da mesa, que ora dirige os trabalhos, a gentileza do seu comparecimento e as palavras de incentivo e confiança que proferiram.
Seja-nos permitido, ainda, agradecer especialmente a presença do Sr. André Barone Neto, a quem sucedemos, neste instante, na Presidência do Sindicado da Indústria de Material Plástico do Estado de São Paulo, e que dedicou o melhor dos seus esforços ao engrandecimento da nossa entidade sindical, durante os 12 anos em que a presidiu.
A nossa investidura, no cargo para o qual a amizade e confiança dos industriais de plásticos nos guindaram, marca o nosso retorno às atividades da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, com a qual já colaboramos em tempos idos. No intervalo dessas duas fases, dedicamo-nos, em grande parte, ao estudo dos problemas da industrialização no Brasil e, em particular, aos assuntos da produtividade nacional, procurando reunir elementos, conhecimentos e experiência que nos permitissem uma dedicação mais proveitosa à indústria brasileira, principalmente nesta sua fase de aguda crise.
Retornamos à luta árdua, que vem sendo mantida pelos órgãos que congregam o empresariado e o operariado nacionais, num momento decisivo para a história industrial brasileira. A Nação vive dificuldades sem precedentes; o momento e a orientação dada ao País exigem um alto grau de maturidade empresarial e uma perfeita consciência dos nossos problemas.
Depositamos aqui, neste instante, as forças do nosso Sindicato, que se alia de corpo e alma aos exércitos da libertação nacional: libertação da infra-economia, do subdesenvolvimento, da subnutrição, da incultura, da sub-industrialização.
Já é tempo de que o Brasil usufrua das virtudes da industrialização, libertando-se econômica e socialmente. Há dois séculos passados, o aumento dos níveis de bem estar social de alguns tinha, como contrapartida inelutável, a escravização de outros. Os grandes monumentos e riquezas produzidos pelos povos antigos, de que nos fala a História, foram indiscutivelmente amalgamados com o sangue e suor dos povos escravizados.
Mas as revoluções industriais, resultantes da invenção e emprego das máquinas, bem como a codificação dos meios racionais da utilização dos recursos físicos e intelectuais, permitiram aos povos, nos dois últimos séculos, um desenvolvimento sem precedentes, antes beneficiando o homem, do que o escravizando. Entretanto, ainda no Brasil de nossos dias, 11% das crianças não atingem a idade adulta, 50% dos cidadãos não sabem ler, regiões inteiras vivem o regime de sub-nutrição e há aqueles que nunca viram a moeda corrente nacional!
A esperança desse povo está na industrialização. Bem pior foi a situação anos atrás, até que o advento da indústria começou a transfigurar a fisionomia de um Brasil tipicamente colonial, permitindo-lhe, pelo menos, antever o seu grande destino de país livre, independente e desenvolvido. O primeiro grande e passo, já dado, permitiu transferir para dentro do país o comando do processo dinâmico. Já não dependemos hoje, para nosso desenvolvimento, das decisões externas que, estimulando ou reduzindo as nossas exportações, proporcionaram, no passado, fases alternadas de euforia e depressão.
Bem sabemos que a independência não será completa enquanto não tivermos condições de criar uma tecnologia própria, de desenvolver laboratórios e recursos para pesquisas, de elevar constantemente os níveis de eficiência de nossas empresas. Todavia, não podemos aceitar, de forma alguma, a culpabilidade que alguns setores da administração pública brasileira nos querem atribuir, no tocante à elevação do custo de vida e à ampliação dos índices inflacionários.
A indústria brasileira nasceu da necessidade de substituição dos produtos importados, que nas crises de exportação nos impediam de continuar trazendo do exterior. Assim, lutou contra as dificuldades de produzir para um mercado interno incipiente; de valer-se de mão de obra inqualificada; de desenvolver processos tecnológicos sem auxilio maior; de investir sem ter capital bastante para fazê-lo. Mas o fez e venceu!
A única ajuda, e assim mesmo parcial e insegura, que a indústria nacional recebeu, foi a proteção alfandegária, criando uma reserva de mercado. Mesmo essa foi algumas vezes destruída, como no período de após guerra, em que as nossas disponibilidades cambiais no exterior foram transformadas em bens de consumo, que poderiam ter sido produzidos no país, se as divisas tivesses sido aplicadas em equipamentos, em know-how, em laboratórios de pesquisas, em treinamento de pessoal especializado.
Desenvolveu-se, dessa forma, uma indústria insegura, fruto do espírito inventivo de alguns e da habilidade profissional de outros, mas raramente de um estudo profundo e orientado, de uma atividade amparada pelo poder público. Sob o pretexto de assegurar a livre iniciativa, legou-se o industrial a uma verdadeira lei das selvas e de uma selva desconhecida para ele. Mesmo assim ele venceu!
Enquanto que, num país altamente industrializado, como os Estados Unidos, beneficiados pela melhor experiência vinda da Inglaterra, a indústria se desenvolveu paralelamente à implantação de modernas técnicas de administração e de produtividade, amparada ainda por uma política de ampliação de mercados internos e externos, a indústria brasileira praticamente cresceu na orfandade; aprendeu no auto-didatismo; formou-se na auto-suficiência.
A crise brasileira, hoje sentida tão profundamente, esboça-se há 4 ou 5 anos. A superação dos produtos importados, pelo menos daqueles cuja fabricação mais ou menos econômica se poderia estabelecer no Brasil, exigiria o aumento do consumo, para que a indústria pudesse se consolidar e expandir. A grande tarefa governamental estava na ampliação do mercado interno, com medidas capazes de incrementar o poder aquisitivo da população. Porém, enquanto a renda per capita cresceu, o salário médio real diminuiu, principalmente na classe média.
Cabe, aí, parcela ponderável de responsabilidade à sociedade capitalista nacional, que não teve suficiente ação planejadora ou se omitiu na função de pressionar o desenvolvimento social. As questões de fundamental importância para esse desenvolvimento social foram transformadas em saborosos pratos políticos, que deram ao Brasil uma verdadeira indigestão de demagogias e agitações extremistas. Pouco sensíveis foram a sociedade capitalista e os governos às advertências do próprio clero, representado por sacerdotes que tantas vezes alertaram a Nação para os níveis de pobreza e miséria a que populações inteiras estavam entregues.
Como obter, nesse clima, o aumento do consumo interno, senão levando a essa imensa classe trabalhadora e ausente do processo econômico, os benefícios do desenvolvimento? Como obter a necessária estabilidade política com a marginalização da maior parte do povo e com a indiferença das chamadas classes dominantes, frente à evolução social e política do país?
Dessa situação, decorreu a queda do ritmo de desenvolvimento econômico com a conseqüente ociosidade dos recursos industriais já investidos na expansão. Crise econômica e crise política!
Substituindo o governo anterior, apontou-se como salvação nacional a tese da moralidade administrativa e da produtividade industrial. E os meios para alcançá-los seriam o alijamento dos políticos comprometidos com a improbidade administrativa, ao lado de um programa de combate à inflação, que tem resultado menos nesse objetivo do que na pressão econômica sobre a livre empresa.
A técnica do aumento de preços, através da aplicação das famosas verdades tarifárias, cambiais e outras, para forçar a redução dos consumos, desconhecendo que o mercado existente no Brasil era apenas capaz de assegurar uma incipiente produção em série de inúmeros artigos, levou muitas indústrias a se verem compelidas ao retorno à atividade quase artesanal. Assim, ai invés de se obter uma contenção de custos, obteve-se o seu aumento, só não transformado em elevação de preços à custa da perda do lucro e mesmo da descapitalização das empresas.
Ora, não padece duvida de que o aumento da produtividade é indispensável à indústria nacional. Mas jamais se conseguirá obtê-lo com a redução do mercado consumidor e em clima de pressões econômicas. A recessão econômica resultante foi tão grande que até a esperança depositada no investimento estrangeiro se perdeu, pouco a pouco, apesar das vantagens inéditas que se lhe oferecera.
Pior que isso: grande parte dos capitais estrangeiros que afluíram ao Brasil neste período, ao invés de se destinarem à expansão econômica, vem se aplicando sistematicamente na aquisição do controle de empresas brasileiras, forçando uma verticalização altamente prejudicial ao desenvolvimento da pequena e média empresas.
A recessão econômica atingiu níveis tão altos que o desemprego, só em São Paulo, chegou a abranger 150.000 famílias, em 1965. Este fato, aliado à contenção dos salários, provocou redução ainda maior do poder aquisitivo da população, com novas conseqüências nocivas à industrialização.
A evidência maior de que o caminho seguido para alcançar melhores níveis de produtividade era puramente teórico, desvinculado mesmo da realidade nacional, ressalta do exame dos resultados da própria atividade pública. Num país em desenvolvimento, grande parte da atividade empresarial é de responsabilidade do governo. Por isso, o aumento da eficiência nacional está inteiramente condicionado à produtividade das empresas públicas, que influem preponderantemente na economia do país.
Verifica-se , porém, que, enquanto se impõe à empresa privada medidas drásticas, forçando a contenção dos preços, praticamente nenhuma melhoria ainda se nota nos custos da iniciativa pública. Fala-se, por exemplo, na eliminação dos déficits ferroviários. Todavia, ela está sendo obtida com a extinção dos ramais considerados anti-econômicos. Conseqüentemente, as mercadorias terão que suportar fretes muito mais onerosos, pelo transporte rodoviário, elevando os seus custos, enquanto o Governo se livra de um prejuízo, livrando-se simplesmente da prestação do serviço.
Não é isso, evidentemente, que consiste a melhoria de produtividade. Os serviços de transportes, como quase todos os demais de natureza pública, pouco alcançaram de aperfeiçoamento técnico, de elevação da eficiência, a despeito dos diferentes recursos de que se dispõe. Como, então, exigir-se das empresas privadas resultados especiais, sem ajuda, sem mercado e em clima de tensão econômica que elas sentem a cada dia?
O “maior parque industrial da América Latina”, de que tanto nos orgulhamos, oferece uma visão clara da realidade brasileira. Se atentarmos para o fato de que, dentre as 40.000 indústrias existentes em São Paulo, apenas 1.000 tem mais de 100 empregados, estaremos verificando que esse parque industrial é formado maciçamente de pequenas e médias empresas; e empresas que tem, na quase totalidade das vezes, origem indiscutivelmente artesanal. Por isso, não será sem um auxilio da mais alta qualidade que se conseguirá uma substancial melhoria da produtividade.
A história, entretanto, não retrocede; e o caminho da indústria brasileira está traçado. É inelutável a participação preponderante da industrialização no desenvolvimento nacional.
A indústria de que o Brasil necessita para o seu progresso será brasileira por excelência. Brasileira porque o país precisa deixar de ser um exportador de capitais, como o é hoje, apesar da sua extrema carência de maiores inversões; brasileira porque a própria capacidade de investimento dos outros países em terras estranhas está decaindo, como hoje ocorre com aqueles que, há pouco, eram exportadores de capitais.
O desenvolvimento econômico está, portanto, na dependência da evolução do capitalismo nacional, consciente de suas responsabilidades econômicas e sociais. A capitalização deverá ser fruto do lucro e este decorrência do aumento sempre crescente da produtividade. O lucro não é um crime, como se vem apregoando nos últimos tempos, numa pretensa defesas da economia popular; mas é a forma de desenvolver a produção no sistema econômico vigente.
Diante disso, a medida que vem de ser adotada pelo Governo, através do Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico, de promover aumento da eficiência das indústrias, financiando-lhe os meios para tanto, é uma forma de ação que, se convenientemente aplicada, poderá oferecer resultados positivos e concretos. A utilização crescente, pela indústria, de técnicas que estiveram até hoje fora do seu alcance e de profissionais especializados, a cujas virtudes, em grande parte, ela não teve ocasião de recorrer, redundará em benefícios indiscutíveis para a manutenção, pelo menos, do mercado consumidor.
A quebra do círculo vicioso “redução do consumo – elevação dos custos” deve ser propiciada, entretanto, por medidas de alto sentido econômico e social, capazes de elevar o poder aquisitivo do povo brasileiro. As modificações estruturais de que tanto se tem falado, mas de maneira pouco objetiva, devem ser aceleradas a fim de que se ampliem as camadas sociais beneficiárias do progresso pelo desenvolvimento econômico.
Até aqui, Prezados Senhores, temos destacado as imensas responsabilidades governamentais no processo do desenvolvimento econômico. Será, entretanto, objetivo do nosso Sindicato a pregação e prática das responsabilidades que, em contrapartida, cabem às classes empresariais. Se muitos dos caminhos adotados fogem da realidade nacional, é porque o empresário brasileiro não adquiriu consciência dessa realidade ou, pelo menos, não se valeu de sua representatividade para forçar o poder público a ouvi-lo e a dialogar com ele. E esse diálogo, é fundamental que seja feito pelo Indústria como instituição, instituição esta à qual cabem as maiores responsabilidades em qualquer esquema de desenvolvimento econômico.
O empresário nacional necessita, mais do que nunca, incorporar as doutrinas econômicas às doutrinas sociais; aliar o conceito do “homo–economicus” do século passado ao conceito do homem social de nossos dias. Em seu próprio benefício e no da coletividade, o empresariado nacional deve auxiliar o desenvolvimento da cultura, amparando as escolas, provendo a criação de centros de pesquisas, colaborando com as universidades, utilizando os profissionais capacitados e bem formados e impedindo o seu êxodo para outros países, como vem acontecendo de modo geral na América Latina.
A indústria brasileira vive uma nova etapa de sua evolução; vive hora cruciante de sua existência; procura sair vitalizada de um momento decisivo de sua história. À nova geração de indústrias, que se segue à heróica primeira geração, cabe a responsabilidade pela preservação dos ideais de seus antecessores, pela perfeita integração na realidade nacional, pela tomada de consciência das necessidades históricas do povo brasileiro, pela aplicação de novos conceitos econômico-sociais e de novas técnicas de administração e relacionamento humano.
A falta de unidade das classes empresariais e a omissão de muitos órgãos representativos dessas classes as tem prejudicado seriamente e, mais do que isso, os superiores interesses do País. É chegado o momento de substituir a força dos grupos econômicos de interesses egoísticos ou subalternos pelo poder da união da livre empresa. Esse é o verdadeiro papel das entidades de classe, dos Sindicatos e das Federações; essa é a grande meta da Confederação Nacional da Indústria, liderada hoje por um industrial de escol, o General Edmundo de Macedo Soares e Silva.
Essa senhores, é a empolgante luta que pretendemos desenvolver no nosso Sindicato, reunindo as 600 indústrias que o congregam e que transformam nada menos de 80.000 toneladas de matéria prima por ano. O poder da unidade dessa classe há de propiciar o auxilio a cada empresa; há de ser utilizado em favor do progresso social do povo brasileiro.
Acreditamos todos que o capitalismo nacional entenderá a sua verdadeira missão na sociedade capitalista. Ele não poderá se omitir nos destinos da Nação, não poderá ser esquecido ou desconhecido nos programas de desenvolvimento social. Mas a sua atividade não poderá se restringir aos aspectos econômicos da vida nacional, na medida em que propugnará pela melhoria das condições de vida do povo brasileiro.
Ao empresariado nacional não interessam as extravagâncias extremistas ou totalitárias, pois que o capitalismo liberal depende da existência de uma democracia liberal. O seu pleno exercício é condição da retomada do desenvolvimento econômico e social de nossa pátria.
Estes, Senhores, os ideais que empolgam a nossa luta no seio das classes produtoras de São Paulo; este é o verdadeiro sentido que entendemos deva ser dado à união das categorias industriais em torno dos seus Sindicatos. Somente o trabalho pelo desenvolvimento econômico e social do país e a extensão dos seus benefícios a todo o povo brasileiro, permitirão levar a nossa terra à posição de grandeza, à que está predestinada.
Nota histórica
À medida em que o discurso de Dilson Funaro evoluía, focalizando os erros cometidos pelos dirigentes do País, sufocando a indústria nacional, fez-se um silencio sepulcral no auditório. Muitos de nós tememos que o orador fosse forçado a suspender o seu pronunciamento.
Atento a tudo isso, o ex-governador e ex-ministro Carvalho Pinto, componente da mesa diretora da solenidade, começou a aplaudir o discurso, já na sua metade, arrancando alguns tímidos aplausos da platéia, que evoluíram para uma consagração ao final.
(Adriano M. Branco)

