OS LIMITES DA QUALIDADE DE VIDA
Na edição de 18/05/09 do O Estado de São Paulo, lê-se artigo de David Brooks, transcrito do The New York Times, cujo título é: “Sensibilidade não faz falta ao CEO de sucesso”.
Sozinho, o título já arrepia. Afinal de contas sensibilidade é um dos maiores dons do ser humano, necessário para todos os tipos de atividade, mormente quando se trata de relações interpessoais. É como a intuição, que tem levado tantos dirigentes de empresa ou de governo a obter resultados além daqueles que a ciência de administrar lhes apontaria.
O articulista cita pesquisas segundo as quais “a leitura de romances, que poderia dar aos CEO’S, que lidam com pessoas todo o tempo, uma maior percepção psicológica, uma queda por relações humanas, uma maior sensibilidade para as suas próprias emoções, é considerada sem importância, pois os talentos a que ela induz não são os mais importantes para quem dirige uma empresa”.
Mais adiante, as pesquisas citadas pelo articulista dizem que “as habilidades de pessoas fortes tem pouca ou nenhuma relação com o fato de serem bom CEO’S”. E mais: “traços como ser bom ouvinte, bom formador de equipes, um colega entusiasmado ou um comunicador não parecem muito importantes quando se trata de comandar companhias bem sucedidas”. Ao contrário, “os traços que se relacionam mais – segundo as pesquisas – com o sucesso foram a atenção aos detalhes, persistência, eficiência e capacidade de trabalhar por longas horas”. “Em outras palavras, conclui, pessoas calorosas, maleáveis, orientadas para a equipe e simpáticas eram menos propensas a prosperar como CEO’S”.
Citando sempre as pesquisas, o articulista diz que “o que o mercado parece querer é um compromisso incansável com ganhos de eficiência”.
A primeira conclusão a que se chega é que o administrador de sucesso é, antes de tudo, “um chato”; esforçado, trabalhador incansável, Põe em segundo plano as relações interpessoais e, provavelmente, a própria família. A motivação de tal personagem acaba sendo apenas o dinheiro.
É por isso que o presidente do banco Leman Brothers, que faliu recentemente, recebeu ainda, ao ser dispensado, uma gorda recompensa de 68 milhões de dólares! É por isso que, em busca de lucros empresariais crescentes, que lhes dão bônus cada vez maiores, não poucos dirigentes de grandes corporações falsearam dados em favor de seus interesses pessoais e m detrimento de seus acionistas. Relembra-se o caso relativamente recente da empresa norte-americana Enron que, ao ser apanhada em informações falsas, levou ao desaparecimento a maior empresa de auditoria do mundo – a Arthur Andersen – que aprovara as suas contas.
Mas a análise das informações contidas no artigo em referência que, diga-se de passagem, não são unânimes – há estudos que cada vez mais valorizam as qualidades humanas e os objetivos sociais e ambientais dos dirigentes – leva também a outras conclusões. Por exemplo, a de que o aumento da eficiência não pode ser um alvo sem limites, assim como não pode ser uma meta sem horizontes finitos o crescimento do PIB.
No inicio do século passado o presidente norte-americano Theodore Roosevelt disse que “a preservação de nossos recursos naturais é apenas o primeiro passo para o amplo programa da eficiência nacional”. Absolutamente correto, se a busca de tal eficiência não acabasse ultrapassando os limites da própria defesa dos recursos naturais, que tem levado os norte-americanos – tal como anteriormente levou os países colonialistas, como a Inglaterra, a França, a Bélgica, a Alemanha, a Itália, Portugal, etc. – a ir em busca dos recursos naturais dos outros países – países pobres – freqüentemente promovendo a discórdia e a guerra.
O presidente Obama, ao anunciar tantas medidas progressistas que pretende adotar nos Estados Unidos, acabou por fazer uma promessa inadequada, de assegurar os níveis de vida alcançados pela população mais abastada. Mas ele sabe que isso é inexeqüível se, por exemplo, a qualidade de vida atual continue apoiada no ilimitado crescimento do consumo de combustíveis, que leva a incontornáveis prejuízos ao meio ambiente.
Por tudo isso, os dirigentes públicos e privados não podem mais ser os “chatos” gananciosos, desligados dos problemas de seus semelhantes e ignorantes do “outro lado” da decantada eficiência. Por isso, a sua formação não pode mais ser apenas técnica, e disso têm que se dar conta as universidades.
Já em 1990, o livro “O Ensino na Sociedade Moderna”, de responsabilidade da OCDE e editado pela Coleção Biblioteca de Educação e Ensino, afirmava:
“O progresso é um acontecimento exógeno cujas conseqüências sobre o emprego são fixas. O argumento precedente torna as decisões e a organização da sociedade responsáveis, simultaneamente, pela evolução da técnica e sua utilização no conjunto da economia. As repercussões no ensino ultrapassam, portanto, muito largamente, a preparação dos trabalhadores para as novas competências exigidas por esta tecnologia. Elas supõem uma formação mais geral da sociedade que a tornará capaz de se servir para fins que escolhe, assim como de inovar e de criar, para dominar o seu potencial. Isso, significa, inversamente, que será preciso instruir a sociedade de modo a que as novas tecnologias não tenham resultados indesejáveis. Esta responsabilidade não depende, unicamente, dos ensinos do setor formal, mas é inconcebível que mudanças tão profundas possam produzir-se sem que os sistemas de ensino tenham aí um papel de primeiro plano”
Mais do que corrigir o rumo do ensino, a sociedade moderna há de se conscientizar de que muitos dos mitos propagados pela economia, hão de ser revistos. A partir da importância exagerada que sempre se deu ao crescimento do Produto Interno Bruto, a ser proporcionado por um chamado “livre mercado” – que nunca foi livre – às sociedades competentes e eficientes, sem qualquer ingerência do poder público controlador.
A desregulamentação absoluta, que foi o tema dos países desenvolvidos, durante as três últimas décadas, levou ao desastre financeiro e econômico que o mundo atual vive. Então, não é mais preciso doutrinar sobre isso: os programas recentes dos Estados Unidos certamente aposentaram os arautos da desregulamentação.
Mas é preciso desligar a sociedade do falso conceito de que o crescimento do PIB propiciará, cada vez mais, qualidade de vida, a todos. É preciso, como o vem fazendo o presidente Obama, reorientar os hábitos de consumo que, se de um lado podem estar enriquecendo alguns, de outro lado estão trazendo problemas de grande envergadura, de custosa solução. Sobre esses temas vamos escrever o próximo artigo.
Adriano M. Branco


Adorei o texto. Adoro ter um avô engenheiro com tanta sensibilidade!