RENDA E FELICIDADE
Márcio Henrique Bernardes Martins
A questão que envolve renda e felicidade há muito vem sendo tratada na história econômica, com ênfase especial para os últimos anos. Esta preocupação é derivada principalmente da consciência individual sobre a necessidade de considerar o desenvolvimento moral como fator subjacente a qualquer relação social. A crítica feroz de alguns economistas em relação ao mainstream econômico comprova este argumento.
Observe-se a consideração seguinte feita pela economista Henzel Hederson em seu livro “Mercado Ético”:
“O modelo acadêmico da natureza humana na economia é o ‘homem economicamente racional’, que maximiza o egoísmo pessoal na competição com outras pessoas. Na realidade, sabemos que as pessoas são também igualmente solidárias e gostam de dividir e doar… A vida é pródiga em muitas dimensões e sabemos que o dinheiro não compra muito das coisas que mais desejamos – como o amor e a felicidade” [1].
A partir da citação anterior pode-se fazer uma breve análise a respeito da relação entre felicidade individual e aumento da renda. Consubstanciando as afirmações de Henderson, Peter Bernes em “Capitalism 3.0: a guide to reclaiming the commons” afirma que:
“While the opportunity to advance one’s self-interest is essential to happiness, so too is community. No person is an island, and no one can truly attain happiness without connection to others”.
Cabe ao ser humano maximizar a felicidade e não a renda; esta é condição necessária, mas não suficiente, para garantir a máxima felicidade. Para cada indivíduo existe um nível de renda, R*, cuja aquisição está proporcionalmente ligada ao nível de sua felicidade. A renda R* varia de pessoa para pessoa. Um milionário em busca alucinante de renda cada vez maior para atender seus hábitos de consumo luxuosos, tem uma R* maior que o de um frei beneditino. Na média (e para grande maioria dos indivíduos) R* se estabelece a partir do momento em que todas as necessidades para uma vida satisfatória sejam alcançadas.
O que determina o valor individual de R* são as crenças e valores de cada indivíduo, relativas à sua compreensão de mundo. Depende da consciência em face dos problemas que o cerca, aos acontecimentos históricos e atuais, seu entendimento sobre fraternidade, igualdade e liberdade, sua consciência sobre os direitos humanos, enfim, todos os atributos que levem o indivíduo a compreender o valor da vida humana, em relação a sua própria existência.
A partir de um nível de R* estabelecido, partindo da lei de rendimentos decrescentes, incrementos marginais crescentes da renda proporcionam aumentos marginais decrescentes da felicidade, até, no limite, a sua estagnação e, inclusive, diminuição. Assim, como a utilidade de um bem diminui à medida que mais temos dele (e o inverso é verdadeiro, ou seja, a escassez demanda uma utilidade maior), o indivíduo percebe que a felicidade poderia continuar aumentando a taxas crescentes se o excesso de renda acima de R* fosse transferido para aqueles que ainda necessitam de renda para satisfazer suas necessidades básicas, isto é, aqueles cuja renda é menor que R*. Como indicam as citações anteriores, a felicidade é composta pelo atendimento das próprias necessidades e pela satisfação dos demais a nossa volta, pois de que adianta chegarmos ao paraíso se não houver ninguém para compartilhar seu uso? (isto significa que vivemos com a consciência mais tranqüila em um mundo no qual todos têm o que comer, o que vestir, onde morar etc.).

Na citação a seguir, compreende-se que a análise aqui realizada, tem algum sentido:
“O Butão leva a sério o direito das pessoas de buscar a felicidade. País budista da Ásia, o Butão pode não ser uma potência econômica, mas tem uma grande riqueza de recursos internos. Esse país desenvolveu indicadores de felicidade Nacional Bruta (FNB) porque, segundo a sua filosofia, a felicidade deve ser considerada juntamente com o dinheiro e o crescimento do PIB” [2].
Portanto, poder-se-ia argumentar que a felicidade é resultado somente de um sentimento moral mais elevado, de uma evolução espiritual, contraposta com a questão material. Ademais, observando a obra de Charles Darwin, sobre a origem das espécies, citada por Henderson, visualiza-se que a sobrevivência material da humanidade está condicionada ao compartilhamento de recursos, com vistas ao bem-estar de todos. O sucesso do grupo está diretamente condicionado ao êxito individual e vice-versa.
“Darwin pensava que, embora a competição entre as espécies fosse importante para a evolução, a tendência do gênio humano para a união, a cooperação e a divisão foi a chave da nossa sobrevivência – incluindo a evolução de sentimentos morais e do altruísmo”.
Enfim, o que se quer dizer é que a elevação moral é o fator determinante do comportamento dos indivíduos, ou seja, a demanda por bens materiais é somente uma conseqüência, um efeito, decorrente dos princípios e valores morais inerentes à consciência de cada pessoa.
[1] Henderson, H. Mercado Ético: a força do novo paradigma empresarial. São Paulo: Cultrix, 2007.
[2] Henderson, H. Mercado Ético: a força do novo paradigma empresarial. São Paulo: Cultrix, 2007

