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ECONOMIA E AMOR: UMA NOVA CONCEPÇÃO DE MUNDO

Márcio Henrique Bernardes Martins 
 

      Vivemos hoje dias difíceis, de incerteza e desconfiança.  A crise econômica que assola o mundo preocupa cada vez mais nossos governantes que, a todo custo, buscam alguma saída. No entanto, como estamos no olho do furacão, a tendência é que a análise do problema se restrinja à superficialidade e que sejam admitidas soluções de curto prazo, sem considerar a real origem e a profundidade do problema.

      Segundo os analistas econômicos, a falta de confiança no mercado gera uma crise de crédito. Sem saber se o tomador tem condições de arcar com suas dívidas, os emprestadores entesouram seus recursos em títulos mais seguros, como os do governo norte-americano. O crédito mais caro impede que os consumidores adquiram bens muito acima de sua capacidade de pagamento, diminuindo o consumo nacional. Isto, por sua vez, sinaliza aos produtores menores vendas através do acúmulo de estoques, o que resulta num reajustamento da produção futura e, consequentemente em desemprego. Menor renda disponível, menor consumo e menor produção. Se a produção diminui porque diminui o consumo e vice-versa, menor é o crescimento econômico. Sem crescimento econômico não há acúmulo de riqueza e sem esta não há felicidade ou prosperidade.

      Assim, para a grande maioria de nossos governantes e líderes, o problema passa ser reorientar o sentido da economia, restabelecendo a confiança no mercado, por meio de políticas públicas que fomentem a iniciativa privada a investir, contratar mão-de-obra e gerar renda. Além disso, é preciso convencer os indivíduos a consumir avidamente, para que as empresas possam produzir mais e mais. Deste modo, quanto maior o consumo, maior o investimento e quanto maior este, maior aquele. Nessa espiral ascendente de consumo e produção, o crédito é elemento catalisador fundamental, potencializando esta relação. O objetivo original então é alcançado satisfatoriamente, isto é, retoma-se o crescimento econômico e o acúmulo de riqueza. A felicidade ou prosperidade é completa, pois cada um tem tudo que materialmente gostaria de ter. É um mundo perfeito.

      Aparentemente, conforme a descrição realizada, bastam algumas medidas de política fiscal e monetária expansivas, aliadas a alguns pormenores localizados e, em alguns anos, a economia mundial voltará aos trilhos do crescimento econômico proporcionando a prosperidade que todos nós merecemos e muitas vezes, exigimos, para nossas sagradas existências. Até que uma próxima crise, abarque a economia mais uma vez.

      Esta análise simples reflete a essência do pensamento intelectual dominante na sociedade atual. Ao invés de serem questionadas as premissas que nos levaram a atual crise, o que se tenta é voltar ao ponto em que o sistema degringolou, consertando os eventuais erros cometidos e, assim, dando continuidade ao que se estava fazendo, postergando a necessária quebra de paradigma para o futuro.

      Algumas pessoas já perceberam a necessidade de mudanças estruturais na maneira de pensar do homem moderno, incluindo aí a questão econômica. Os questionamentos cada vez mais abundantes sobre a desigualdade social e sobre a insustentabilidade das práticas de produção, no que concerne ao meio-ambiente, são o resultado direto desta tentativa de quebra de paradigma e de desenvolvimento de uma nova visão de futuro.

      Ora, como é possível, diante do atual momento, acreditar que, no longo prazo, basta que sejam restabelecidas as condições de crescimento econômico anteriores à crise e, então, tudo voltará à boa e velha ordem mundial? E o aquecimento global? E os dois bilhões de pessoas abaixo da linha de pobreza? E as necessidades das gerações futuras?

      O que se quer é provocar, algo que muitos já estão fazendo em diversas publicações recentes (ver Prosperity without Growth: The transition to a sustainable economy), o debate em relação às premissas utilizadas pelos tomadores de decisões no tocante ao conceito de felicidade ou prosperidade. Se crescimento econômico é sinônimo de felicidade, nada mais no resta do que aceitar o mundo como ele é e torcer para que a economia se recupere rápido, bem como para que estejamos longe da linha da pobreza e que o provável colapso da natureza ocorra após o fim de nossas vidas. Isto não é nenhuma ilusão ou alguém acredita que o planeta Terra é suficiente para que todos tenham o mesmo consumo per capita de um norte-americano ou europeu médio? Permanecendo esta visão de mundo (que somente o dinheiro traz a felicidade), equidade social e equilíbrio ecológico são mera utopia para não dizer insensatez.

       Façamos agora um exercício baseado em crenças conservadoras, nada revolucionárias. Vamos modificar o conceito de felicidade, dividindo-o em duas partes: bem-estar individual e bem-estar coletivo. O primeiro se refere à nossa subsistência, ao nosso consumo, à nossa concepção materialista. Para assegurá-lo dependemos, realmente, de crescimento econômico, de geração e acúmulo de riqueza, que permitam nossa sobrevivência. No entanto, ao invés de este fator ter peso cem em nosso índice de felicidade, vamos dizer que seja cinqüenta. Os outros cinqüenta se referem a o bem-estar coletivo, ou seja, a felicidade por nós alcançada quando outros compartilham do mesmo bem-estar individual que nós mesmos. Neste caso, separemos o restante da humanidade em gerações presentes e gerações futuras. Para os primeiros, desejamos que possuam a mesma possibilidade que nós temos em termos de uma vida digna; em outras palavras, gostaríamos que todos pudessem desfrutar das mesmas condições sociais. Para os demais, esperamos que tenham a mesma disponibilidade de recursos naturais que temos hoje para sustentarem sua própria reprodução.

      Em suma, o que estamos propondo é que a felicidade ou a prosperidade seja uma média ponderada entre nosso bem-estar e a felicidade alcançada pelas demais pessoas, tanto no espaço, quanto no tempo. Parece um absurdo? Pois saibamos que já fazemos isso há muito, muito tempo.

      O que acontece quando um casal ou um indivíduo tem um filho? Na maioria dos casos, os pais buscam para seus filhos o melhor dos mundos, mesmo que isto signifique abrir mão de certos benefícios, principalmente materiais. O bem mais valioso que temos em vida, o tempo, é fator crucial para a boa educação de uma criança. Doamos parte de nossas riquezas para possibilitar aos nossos filhos a felicidade. Dividimos o que temos para que todos na família possam ter algo, para que todos possam viver dignamente. Não obstante dividirmos isto quando pequenos, mesmo já na sua maturidade, fazemos o possível para assegurar boa vida a eles e aos seus próprios filhos, já assegurando as benesses para as gerações vindouras. E por mais sacrificante que isto seja, nos sentimos realizados, felizes e completos quando percebemos que nossos filhos, parentes e amigos estejam também felizes.

      Ora, o que se propõe é que o segredo da felicidade esteja não somente em nossa realização material, mas também no nosso desenvolvimento espiritual, que envolve a solidariedade com o próximo, mesmo que, num primeiro instante, este próximo seja bem próximo, restrito ao nosso círculo familiar. Se expandirmos esta capacidade de solidariedade à sociedade como um todo, inclusive às próximas gerações, estamos incluindo na nossa visão de mundo (e no modelo econômico) a necessidade de equidade social e de sustentabilidade ambiental. Em outros termos, estamos solicitando a mudança do modelo atual para um modelo de Desenvolvimento Sustentável (ou Economia sustentável).

      Utopia? Nem tanto. Cada um que seja capaz de amar sinceramente alguém tem em si todas as potencialidades de desenvolver este sentimento de Amor Universal em relação a todos. Nesta concepção de felicidade, nos sentimos como parte de um todo onde a felicidade absoluta depende do bem-estar de todos, hoje e amanhã. Afinal de contas, do que adianta chegar ao paraíso se não houver alguém para compartilhá-lo?

      Concluímos então que a crise econômica que nos abate é somente um efeito amargo cuja causa está centrada na concepção de mundo, de vida, que temos. Acreditar que a benesse individual é suficiente para a felicidade pessoal e que maximizando nossos ganhos, o coletivo estará no melhor dos mundos é algo ultrapassado e irreal como atestam os fatos. A sociedade já atentou para isto, daí cada vez mais recorrente a preocupação com a pobreza, com a desigualdade social e com os desequilíbrios ambientais, algo ignorado há algumas décadas. É preciso aproveitar o momento de reflexão que a crise enseja para estabelecer um novo paradigma, onde o crescimento econômico é condição necessária, mas não suficiente para a prosperidade. Inclusive, em muitos casos, o decrescimento econômico de alguns, imbuídos pelo novo conceito de felicidade, somente lhes trará mais prosperidade.

      Uma última palavra: somente o Amor, no mais sublime de sua acepção, pode levar a humanidade a se salvar de si mesma.

      

 


 

 

 

Sobre Adriano Branco

Eng. Adriano Murgel Branco Adriano Murgel Branco, paulistano de 76 anos, é administrador e engenheiro eletricista formado por uma das melhores escolas de engenharia do país - a Universidade Mackenzie. Branco, foi consultor no Brasil e em Moçambique, professor universitário, ocupou inúmeros cargos públicos, entre eles o de secretário da Habitação e secretário dos Transportes do Estado de São Paulo, nos anos 80. Ocupou também, cargos privados como o de diretor da Coplan, da Trol S.A., da TCL, da Caio entre outras. Ministrou palestras no Brasil,México,Colômbia,Venezuela,Equador, Paraguai, Argentina, Uruguai, Peru e Chile sobre transporte, segurança rodoviária e habitação. É autor de mais de duas centenas de artigos em jornais e revistas, publicadas até na Inglaterra e Alemanha. Em 1972, foi publicada sua primeira monografia sobre Acidentes Rodoviários; em 1975 é publicada a Normatização Brasileira de Defesa Rodoviárias. Teve também três de suas monografias publicadas em 1978: Trólebus,Tendências Modernas dos transportes Coletivos Pneumáticos e Transportes Urbanos por Trólebus; nos anos oitenta foram publicadas: Uma visão Sistêmica do Transporte Urbano, O Transporte Urbano no Brasil e A Prevenção dos Recursos Hídricos no Estado de São Paulo. Seus livros mais ressentem são Segurança Rodoviária, O Financiamento de Obras e de Serviços Públicos, em parceria com o Adilson Abreu Dallari, e Desenvolvimento Sustentável na Gestão de Serviços Públicos, em parceria com o economista Márcio Henrique Bernardes Martins.

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