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REFLEXÕES SOBRE A CRISE MUNDIAL

 

Adriano M. Branco

 

         Dos vários artigos que escrevi de Outubro de 2008 para cá, muitos deles focalizam a crise econômica mundial de 2008, comparada com a de 1929. Mas vários deles também põem em discussão os rumos a serem adotados mundialmente para que se saia da crise econômica, mas com uma visão de futuro que não tenha o Produto Interno Bruto como o alvo primeiro do desenvolvimento.

         Resolvi, então, transformar essa coletânea de escritos em um pequeno livro, que terá como apresentação o artigo que se segue e como fecho mais dois artigos produzidos pelo economista Márcio Henrique Bernardes Martins. O livro pretendido resulta de apreciações minhas e de terceiros sobre alguns episódios da história universal que abrangem um período de 80 anos, rico em acontecimentos.

         Em 1929 deflagrou-se a grande crise econômico-financeira que atingiu a todos os países e, em particular, os Estados Unidos. Sua origem? A ganância dos homens de negócio, que aumentaram o seu patrimônio vendendo sonhos a uma população desavisada, sem qualquer controle governamental. Afinal, é ideologia arraigada no espírito norte-americano a não intervenção nos negócios privados.

         De 1929 a 1933 o presidente Hoover em vão procurou conter a débâcle, valendo-se de mecanismos tidos como austeros. Uma receita que o Fundo Monetário Internacional veio repetir na década de 80 para os países em desenvolvimento e que acabou por prejudicá-los fortemente, como se verá adiante.

         Resultou do período Hoover o maior desemprego de todos os tempos e uma recessão incontrolável.

         Franklin Delano Roosevelt foi eleito em 1932 para traçar novos rumos. Atuou decididamente na economia, sendo severo com os especuladores e mobilizando recursos públicos para a retomada do desenvolvimento, lançando programas de emprego em escala nunca vista. Por isso foi acusado – até recentemente – de intervencionista, pelos próprios americanos que ele salvou. Dizem até esses detratores do governo Roosevelt que não foi ele que salvou o País, mas sim a 2ª guerra mundial. Provavelmente não foi o que pensaram os seus compatriotas, que o elegeram para quatro mandatos sucessivos.

         Mas era dos próprios norte americanos a grande lição a respeito da necessidade de intervir na economia, quando em favor do interesse público, como o mostra a famosa sentença judicial proferida pela Suprema Corte, em 1876, a propósito do caso Munn e Scott. Assim decidiu o presidente do Tribunal, Chief Justice Waite: “uma propriedade qualquer veste-se de interesse público quando usada de forma a tornar-se de necessidade pública e afetar a coletividade toda. Portanto, quando um indivíduo destina sua propriedade a um uso no qual o público tem interesse, ele associa o público nesse uso e tem que se submeter ao controle do público para o bem comum, proporcionalmente ao interesse criado” (citação do livro O Problema Econômico dos Serviços de Utilidade Pública, de Luiz Anhaia Mello).

         Roosevelt fez importantes intervenções na ordem econômica estadunidense. Mas pretendia ir muito além, criando instrumentos de regulação econômica e até social para o mundo todo, para obter uma nova ordem universal após a guerra de 39/45. Mas, infelizmente ele morreu e aquelas nações que estavam comprometidas com a nova ordem, abandonaram os compromissos, para prosseguir na prática do colonialismo, que acabou convulsionando o planeta. A síntese que fiz do livro “Como Meu Pai Os Via”, de seu filho Elliot Roosevelt, conta o que aconteceu.

         Passados 80 anos, o mundo caiu na mesma esparrela e vive hoje dramáticos problemas de desemprego e recessão em todas as nações. Mais uma vez a ganância e a esperteza, apoiadas em fraudes de diversos gêneros, como relata Stiglitz em texto aqui reproduzido, respondem pelo desastre. E, dados os efeitos da globalização, dos efeitos em cascata, os EUA de hoje, ao invés de desenvolver empreendimentos destinados à geração maciça de empregos, socorreu os bancos e os grandes consórcios industriais, pedindo desculpas à sociedade por mínimas intervenções de controle que há de exercer sobre a economia.

         Ainda ecoa na cabeça dos norte americanos a advertência de seu famoso economista Milton Friedman, segundo a qual a interferência governamental na economia compromete a democracia. Mas agora vai-se percebendo, aos poucos, que essa interferência, como asseverou a Suprema Corte já em 1876, é exatamente necessária para garantir o pleno exercício da democracia, em todos os níveis da sociedade. Teria sido melhor dar ouvidos em toda a metade do século passado ao notável economista, também norte americano, John K. Galbraith, que não cansou de advertir: “deixadas a si mesmas, as forças econômicas não levam a um final feliz, exceto, talvez, para os poderosos”.

         Desde a morte de Roosevelt quatro coisas gravíssimas ocorreram, ao arrepio de sua visão de futuro, construtiva e democrática: o lançamento de dois artefatos nucleares sobre o Japão, já praticamente liquidado, o surgimento da guerra fria, cujas origens Elliot Roosevelt analisa em seu livro, a tentativa de manutenção do colonialismo, que provocou reações armadas em todo o mundo, e as intervenções dos países mais ricos nas nações em desenvolvimento, seja através de controles monetários inibidores do desenvolvimento, ditados através do FMI – organismo idealizado para o papel contrário, que era o de ajudar as nações mais fracas – seja por meio de ações armadas e ou implantação de ditaduras, freqüentemente militares, pelo mundo todo. Os atritos remanescentes com o Irã, com o Iraque, com a Coréia do Norte, com Cuba são exemplos dessa política intervencionista que agora parece ter os seus dias contados, com o presidente Barack Obama. Mesmo assim, vemos os norte-americanos pretendendo impor aos cubanos que libertem os seus presos políticos, esquecendo-se de que lá mesmo, em Cuba, eles mantêm centenas de prisioneiros políticos, sem quaisquer direitos de defesa, freqüentemente torturados, nas prisões de Guantánamo, como em outros presídios secretos pelo mundo todo.

         Reconheçamos que não é fácil mudar o mundo; mas é indispensável. Promessas auspiciosas, por parte dos Estados Unidos, e medidas novas, como a condenação formal do Consenso de Washington pelos seus próprios autores e a aproximação entre os povos, sem que uns se achem no direito de impor regimes políticos aos outros, são prenúncios de novos tempos. Afinal, a tentativa americana de impor democracia a todas as nações é um propósito tão descabido quanto falso, na medida em que não são poucos os aliados dos EUA organizados sob forma de reinados, principados e até ditaduras; não foram poucos os governos democráticos derrubados por ação direta ou indireta daquele país.

         As “Veias Abertas da América Latina”, livro que li trinta anos atrás e que agora o presidente Obama promete ler, constitui um dos mais fortes documentos reveladores de quanto o mundo se desviou dos compromissos assumidos pelos grandes, sob a lúcida condução de Roosevelt.

         Hoje, entretanto, os rumos do Planeta não podem se resumir às tentativas de desenvolvimento econômico igualitário, à não intervenção de umas nações sobre as outras, à plena liberdade de comércio, etc. Nestes últimos 80 anos, em que a procura de um Produto Interno Bruto cada vez maior enriqueceu muitas nações e empobreceu outras, essa corrida pela riqueza comprometeu seriamente o meio ambiente e propicia um desgaste dos recursos naturais, que já atinge, hoje, a 1,3 vezes a capacidade de reposição da Terra.

         Está Claro que os hábitos de consumo devem ser alterados, sob pena de o crescimento econômico dos países em desenvolvimento acelerarem sobremaneira o esgotamento dos recursos naturais. Já se diz que a China, em poucos anos, atingiu um nível de poluição igual ao dos Estados Unidos. Isso é meia verdade, pois a China tem quatro vezes mais habitantes do que os EUA, ficando com o “direito” de poluir quatro vezes mais…

         Hoje se diz que, para os países desenvolvidos não há como retroceder. Caberá àqueles em desenvolvimento buscar modos de vida mais equilibrados e tecnologias novas para a sua prosperidade.

         Essa proposta é, de saída, iníqua, pois a toda a humanidade caberá mudar o seu estilo predatório de vida. Mais ainda, se os países menos desenvolvidos não crescerem nada, os desenvolvidos, sozinhos, já comprometem o ambiente e os recursos naturais.

         Disse Theodore Roosevelt, em 1904 (citado por Frederick W. Taylor em seu livro Princípios de Administração Científica), que “a defesa de nossos recursos naturais é apenas a primeira fase do amplo programa de eficiência nacional”. Mas, por elevada que seja a eficiência no trabalho, demonstrada pelos países ricos, eles fracassaram na busca da eficiência no consumo de recursos naturais, comprometendo os seus e os dos outros, ao lado de degradarem o meio ambiente. O “amplo programa da eficiência” deve ter agora uma visão global e de longo prazo.

         Tudo isso mostra que o desenho de um mundo novo, ou de “New Deal Global”, como sugeriu o primeiro ministro da Inglaterra Gordon Brown, exige um entendimento e uma solidariedade universais sem precedentes na história da humanidade. E esse mundo não terá como valor principal a economia e sim a qualidade de vida, o amor e a felicidade, como propõe o economista Márcio Henrique Bernardes Martins, em dois artigos que fecharão este livro. Oxalá o presidente Obama siga esse caminho, liderando as demais nações como o fez Roosevelt.

         O que me impressionou ao compulsar tantos textos – alguns de minha redação – foi ver quantos anos se tem passado discutindo esses temas, mas caminhando inexoravelmente para o beco sem saída. Na minha juventude eu lia Elliot Roosevelt; na fase universitária tomava contato com os escritos de Anhaia Mello e de meu pai, entre outros, clamando por uma definição do papel do Estado que não permitisse iniqüidades, que obedecesse iniqüidades, que obedecesse ao julgado norte-americano de 1876 em defesa do bem comum. Participava, neste período, dos debates promovidos pelos próprios estudantes, como foram aqueles da Semana de Energia Elétrica, organizada pela União Estadual dos Estudantes, presidida por Fernando Gasparian, em que ouvimos dos mais experientes homens públicos os cuidados com que se deveria cuidar da coisa pública.

         É desse tempo a incisiva pregação do padre Louis Joseph Lebret em favor da igualdade entre os povos, condensada em seu livro “Suicídio ou Sobrevivência do Ocidente”.

         Tempos depois passamos pelo período da obscuridade que se seguiu ao movimento militar de 1964, em que foi subtraída dos jovens a possibilidade de discutir os problemas nacionais criando uma geração de desinteressados e até de alienados.

         O retorno à democratização do País foi um movimento épico, conduzido por lideres populares de primeira grandeza dentre os quais saliento a figura de Franco Montoro, democrata visceral, homem de diálogo e administrador consciente das carências nacionais e dos desequilíbrios mundiais.

         Mas o que fizemos com tudo isso, nós aqui, com nossos dirigentes de segundo mundo, e eles lá fora, com as rédeas do novo mundo, que não conseguiram deter os descaminhos do consumismo e da desigualdade social?

         O que importa agora é a união de todos em prol de novos caminhos, deixando à margem as dissensões políticas, as diferenças raciais e religiosas, dentro e fora do Brasil, para que as energias se concentrem na gigantesca tarefa que se impõe. Não temos mais os 80 anos que tivemos para sair de uma crise de 1929 e mergulhar em outra de 2008, deixando um saldo de desperdícios, de resíduos, de guerras que comprometem a vida das gerações futuras. Tudo o que era preciso fazer com a experiência de 29 e, particularmente, da 2ª guerra mundial foi cantado em prosa e verso; mas pouco executado. Chamar a atenção para esses fatos é o propósito desta coletânea de trabalhos.

 

 


 

 

 

Sobre Adriano Branco

Eng. Adriano Murgel Branco Adriano Murgel Branco, paulistano de 76 anos, é administrador e engenheiro eletricista formado por uma das melhores escolas de engenharia do país - a Universidade Mackenzie. Branco, foi consultor no Brasil e em Moçambique, professor universitário, ocupou inúmeros cargos públicos, entre eles o de secretário da Habitação e secretário dos Transportes do Estado de São Paulo, nos anos 80. Ocupou também, cargos privados como o de diretor da Coplan, da Trol S.A., da TCL, da Caio entre outras. Ministrou palestras no Brasil,México,Colômbia,Venezuela,Equador, Paraguai, Argentina, Uruguai, Peru e Chile sobre transporte, segurança rodoviária e habitação. É autor de mais de duas centenas de artigos em jornais e revistas, publicadas até na Inglaterra e Alemanha. Em 1972, foi publicada sua primeira monografia sobre Acidentes Rodoviários; em 1975 é publicada a Normatização Brasileira de Defesa Rodoviárias. Teve também três de suas monografias publicadas em 1978: Trólebus,Tendências Modernas dos transportes Coletivos Pneumáticos e Transportes Urbanos por Trólebus; nos anos oitenta foram publicadas: Uma visão Sistêmica do Transporte Urbano, O Transporte Urbano no Brasil e A Prevenção dos Recursos Hídricos no Estado de São Paulo. Seus livros mais ressentem são Segurança Rodoviária, O Financiamento de Obras e de Serviços Públicos, em parceria com o Adilson Abreu Dallari, e Desenvolvimento Sustentável na Gestão de Serviços Públicos, em parceria com o economista Márcio Henrique Bernardes Martins.

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