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GUERRA É SEMPRE GUERRA*

 

Adriano M. Branco

 

 

“O pior de todos os erros na guerra é o mal entendido espírito de benevolência… Porque aquele que usa de sua força inexoravelmente, sem medir o sangue derramado, levará sempre vantagem grande ao adversário, se este não se houver do mesmo modo. A estratégia regular consiste, primeiro que tudo, em descarregar no exército do inimigo os mais terríveis golpes que se possa, e depois em causar aos habitantes de seu território sofrimentos tais que os obriguem a desejar com ansiedade a paz, e constranjam o seu governo a solicitá-la. Às populações não se devem deixar senão os olhos para chorar a guerra”

 

         Uma das grandes farsas que envolvem o conflito do Golfo Pérsico é a discussão da legitimidade, da justiça e até da santidade da guerra. Ruy Barbosa, em impressionante libelo contra a primeira guerra mundial, proferido em 14.07.16, cita um dos generais importantes daquele episódio, transcrevendo-lhe o terrível pronunciamento que encabeça este artigo, mas que tem o condão de nos mostrar que guerra limpa não existe: ela é sempre suja!

         Em seus candentes comentários, Ruy Barbosa interpreta ainda as ocorrências dizendo: “o essencial agora, não é amarmo-nos uns aos outros, como nos prescrevia o antigo Deus dos cristãos, varejado hoje em dia nos seus templos, bombardeado nas suas catedrais, profanado nas suas imagens, espingardeando nos seus sacerdotes. Não. O essencial é que emulemos entre nós a quem mais se distinguirá nas sublimes artes de nos espionarmos, nos saltearmos, nos espoliarmos, nos fuzilarmos, de nos trairmos, nos invadirmos, nos mentirmos, nos extinguirmos. Daí a mais absoluta inversão do que se chama direito internacional”.

         Nada mais apropriado para o debate que hoje se trava em torno dos episódios do Golfo Pérsico, do que recordar a primorosa oração de Ruy, que acrescenta: “Duas morais nas relações internacionais: uma para os estados militarmente robustos; outra para os estados militarmente débeis”. E completa: “Na República de Platão, já o cinismo de Thrasymacho afrontava a lógica de Sócrates, dizendo-lhe: Eu proclamo que a justiça não é senão o interesse do mais forte”.

         Einstein, indagado sobre como seria a terceira guerra mundial, disse certa vez: “a terceira guerra eu não sei, mas a seguinte será a pedradas e pauladas”, procurando não só mostrar a destruição que os armamentos modernos poderiam causar, mas sobretudo a condição em que a humanidade se encontraria, de retorno à época das cavernas.

         A grande hipocrisia que está por detrás da atual guerra é essa discussão sobre a sua legitimidade. As forças coligadas do primeiro mundo, capitaneadas pelos Estados Unidos, Inglaterra e França, conduziram a maioria das nações a intervir num conflito localizado, despejando ali todo o seu poderio e seu desejo de vingança. Vingança, sim. De países como a Inglaterra e a França, que jamais se conformaram com a perda de suas colônias naquela região; vingança sim, dos Estados Unidos que se viram desafiados por um governante de terceiro mundo, quando defenderam seus interesses estratégicos e comerciais. É a desforra pela derrota no Vietnã.

         Bush lidera as forças coligadas, decidindo acima do bem e do mal com a mesma ira pessoal contra Sadam que tivera Macmillan contra Nasser e que levou a Inglaterra, a França e Israel a bombardear o Cairo e o Canal de Suez, num dos mais vergonhosos episódios que a história moderna registrara. Mas, ao lado da força bélica, o primeiro mundo possui a força do lobby, a força da mídia, que procura mostrar ao mundo que a grande tragédia dessa guerra foi a matança dos patinhos pelo derramamento do petróleo no mar, atribuída ao Iraque, mas iniciado pelos próprios aliados. Quanta gente tem morrido no Iraque, no Kuwait, na Arábia Saudita e em Israel, não tem importância; qual grau de contaminação atmosférica causada pela inacreditável seqüência de bombardeios ao Iraque, não conta; que conseqüência está tendo a destruição de mais de 80% das estações de tratamento de esgoto e de águas de Bagdad, causando epidemias que, como os bombardeios, não distinguem soldados de civis, homens, mulheres, anciãos e crianças, não é preocupação. A grande vítima desta guerra, na TV, parece serem apenas os patinhos…[**]

         Os interesses em jogo, das grandes nações, são de tal ordem, que até a União Soviética e a China, que já sofreram na carne as ações do colonialismo internacional, omitiram-se lastimavelmente quando da decisão do Conselho de Segurança, permitindo essa catástrofe que se abateu sobre os quatro países submetidos hoje – diretamente – à guerra.

         A mídia internacional se esforça por apresentar o conflito como uma cruzada das forças do bem, representadas pelos países mais desenvolvidos, contra os assassinos, sanguinários, títeres daquele mundinho de segunda classe, até bem pouco tempo tutelado pelos protetores europeus; os iraquianos são bárbaros e os seus adversários cultores do direito internacional e das virtudes da civilização cristã. Alguns empedernidos pensadores do mundo ocidental até teorizam sobre a guerra justa e sobre o direito e a necessidade da guerra.

         O nosso Ruy, entretanto, dizia que a inversão que se processou no direito internacional levou ao conceito de que “se a guerra é a pedra de toque do justo e do injusto, o arbitramento do lícito e do ilícito, a instância irrecorrível do direito entre as nações, a guerra é a razão, a absolvição e a canonização de si mesma. Daí o princípio de que a necessidade, na guerra, sobrepuja a todas as leis divinas e humanas” (…). “A lei da necessidade, na guerra, aconselha que se matem às cegas velhos, mulheres e crianças, lançando bombas sobre a população adormecida em cidades pacíficas e indefesas? Matar-se-ão”.

         Os patrulheiros da paz e dos direitos internacionais de hoje, acobertados por uma débil Organização das Nações Unidas, esquecem-se do que eles próprios já fizeram nesta segunda metade do século XX, só para mencionar alguns episódios de um período sob tutela da O.N.U. Israel – vítima de hoje – não se recorda dos incríveis atentados terroristas que praticou para conquistar o direito de se tornar nação e as atrocidades que cometeu para expulsar os palestinos de suas casas; não quer lembrar do bombardeio gratuito ao Egito – só para ajudar Macmillan a destruir Nasser – as bombas que despejou sobre o Iraque para impedí-lo de desenvolver um arsenal atômico semelhante ao seu, a ocupação de territórios vizinhos através de guerras de conquista, dentre outras ações condenadas pela própria O.N.U. sem qualquer efeito prático.

         Os Estados Unidos não gostarão, por certo, de recordar as ações da Cia para desestabilizar governos nos Irã, no Chile, na Nicarágua, em Cuba, no Brasil, na Guatemala, na Argentina, no Uruguai, treinando torturadores e promovendo deposições e até assassinatos de líderes adversários, em outros países; não se lembra das intervenções militares na revolução chinesa, isolando, Formosa, no Panamá, em Granada, na Coréia e, sobretudo no Vietnã, onde destruiu o país, devastou a terra, assassinou inocentes aos borbotões, usando armas químicas do tipo agente laranja e napalm; esqueceram-se de que estiveram ao lado do Iraque no seu propósito de anexar áreas do Kwait…

          A Inglaterra, ao querer se impor como justiceira no Oriente Médio, esqueceu-se da sua ação colonialista em todo o continente e das atitudes criminosas que teve em relação à Índia, ao Egito, ao Irã e a tantos outros protetorados e colônias que procuravam a sua auto-determinação.

         A França, por seu turno não recorda as suas atitudes colonialistas e bélicas sobretudo na Indochina e na Argélia, onde matou indiscriminadamente. O próprio Presidente francês Charles de Gaulle não ficou imune aos atentados terroristas dos próprios franceses, como não escapou da sanha dos interesses subalternos o Presidente norte-americano John Kennedy.

         A União Soviética, omissa na atual decisão da O.N.U., já não quer lembrar também do Afeganistão, da invasão da Polônia e da Primavera de Praga.

         Os santos de hoje são os demônios de ontem. E isso nada tem haver com os povos das nações em guerra que, à distancia, não avaliam os seus horrores e são levados a um espírito patriótico pela propaganda farisaica, que esconde as verdadeiras motivações dos conflitos; aqueles que estão sob o bombardeio, padecem as agruras da má sorte, iniciada com um passado de submissão inglória, e só podem se solidarizar com seus líderes – ainda que ditadores belicistas – e odiar as nações agressoras. Não foi sem razão que aquela senhora lembrou ao povo norte-americano que os iraquianos não são os pele-vermelhas que nos Estados Unidos foram massacrados em nome do progresso e do desenvolvimento nacionais.

         Jogue-se fora, portanto, toda a informação que circula com a velocidade da luz e que serviu de pretexto para que o Conselho de Segurança promovesse a guerra, ao invés da paz. A grande verdade é que entraram em conflito velhos e novos interesses econômicos estratégicos, que tem suas raízes no colonialismo inglês e francês, no neo-colonialismo norte-americano – ambos responsáveis pela luta entre judeus e árabes – e nos interesses mais recentes em torno da “necessidade” de manter baixo o preço do petróleo “para que se mantenha o padrão de vida ocidental” e de queimar os armamentos que o cessar da guerra fria tornou inúteis, viabilizando por mais algum tempo a formidável indústria bélica, em crise até no Brasil. Não é por acaso que, ante a iminência de acordo de cessar fogo proposto pela URSS, as forças coligadas precipitaram o ataque terrestre e, após a desocupação do Kwait, insistem em prosseguir a guerra. E, se a China e a União Soviética ficaram em cima do muro, é porque os seus interesses do momento se concentram na ampliação de seus mercados, o recomenda “prudência comercial”.

         O resto é farisaísmo puro: guerra é guerra! É suja sempre. O próprio mundo ocidental repudiou em passado recente o uso de armas químicas pelo Iraque contra o Irã, embora países europeus houvessem propiciado tal armamento ao Iraque e os Estados Unidos o estivessem apoiando naquele conflito.

         Mas é interessante lembrar que tudo isso que ocorre hoje nos antigos domínios imperiais estava de certa forma previsto. O profético livro de Elliott Roosevelt, “Como meu Pai os Via” – que li na juventude e, impressionado, escrevi um de meus primeiros artigos “Porque se Perdeu a paz” – prenunciou o descaminho das negociações de paz, que o ex-presidente americano Franklin D. Roosevelt teceu minuciosamente e dedicadamente nos últimos anos da segunda grande guerra, buscando uma nova forma de convivência entre as nações, ao término daquele conflito. E uma das bases daquelas negociações entre os “cinco grandes” (Estados Unidos, U.R.S.S., Inglaterra, França e China) era a rápida e total extinção do colonialismo, com a ampla concessão da auto-determinação dos povos subjugados ou submetidos aos países colonizadores.

         Só que a morte do Presidente Roosevelt fez o mundo perder prematuramente aquele fiel da balança. Rapidamente, os ingleses voltaram à surrada frase proferida por Churchill, no sentido de que o objetivo da sua política não era dissolver o império de sua majestade, ao mesmo tempo em que a França fez letra morta dos tratados. Chiang Kai Chek, por sua vez, repudiou sua própria promessa de um governo de coalizão, dando origem à Revolução Comunista; a União Soviética tratou de reforçar o seu próprio mundo socialista e de se defender das ameaças militares de Londres; e os Estados Unidos abandonaram o papel de fiadores da paz universal, procurando tirar proveito do irreversível esfacelamento do colonialismo – para o qual eles contribuíram sub-repticiamente – criando um neo-colonialismo de oportunidade, que lhes permitiu montar interesses econômicos e estratégicos em boa parte do globo terrestre, denominada por eles de “mundo livre”. Um mundo que em vão tem procurado se libertar da dominação econômica, política e até militar dos próprios americanos.

         A história moderna é farta de episódios que demonstram que o farisaísmo tem sido a grande arma dos conflitos modernos. E a constatação desse fato não nos permite mais alinhamentos com esta ou aquela atitude política ou com esse ou aquele regime. Juscelino Kubitscheck, em conferência nos Estados Unidos em 1965, já dissera que a crítica norte-americana às débeis democracias latino-americanas, que freqüentemente davam lugar à ascensão de ditadores, poderia se voltar para o seu próprio país, onde um sólido regime democrático não rara vezes ensejara o assassinato dos seus presidentes.

         Nesta passagem de milênio, cumpre a todos os povos preservar acima de tudo a paz, evitando o vaticínio de Einstein. Cumpre demonstrar o que o homem civilizado tem o poder do entendimento, maior que o poder da guerra.

         Por isso, de tudo que se tem lido sobre o conflito no Golfo Pérsico é de justiça ressaltar o veemente editorial da Folha de São Paulo, de 27/01/91, sob o título de “Parar o Massacre, Buscar a Paz” que, dentre várias assertivas de grande significado, ponderou: “como nunca, percebe-se a enorme fragilidade dos instrumentos de preservação de um relacionamento internacional pacífico e construtivo – para não dizer um vazio desolador”. Editoriais subseqüentes da mesma Folha de São Paulo, como o de 27/02/91, confirmam claramente que novos pretextos servirão para eternizar os conflitos entre nações, particularmente porque o mundo continua sob o comando de potenciais dominantes e as demais nações convertidas em “espectadoras perplexas” dos seus desígnios, onde as guerras entram como mero fator estratégico em beneficio da economia ou da dominação de alguns.

É preciso, agora, que este conflito no Golfo Pérsico, acompanhado de perto, através da TV, por todo o planeta, sirva definitivamente para convencer que a guerra não pode ser opção para o mundo civilizado.

 


[**] Tudo isso se repetiu na 2ª invasão do Iraque pelos Estados Unidos, sob pretextos forjados.

 


 

 

 

Sobre Adriano Branco

Eng. Adriano Murgel Branco Adriano Murgel Branco, paulistano de 76 anos, é administrador e engenheiro eletricista formado por uma das melhores escolas de engenharia do país - a Universidade Mackenzie. Branco, foi consultor no Brasil e em Moçambique, professor universitário, ocupou inúmeros cargos públicos, entre eles o de secretário da Habitação e secretário dos Transportes do Estado de São Paulo, nos anos 80. Ocupou também, cargos privados como o de diretor da Coplan, da Trol S.A., da TCL, da Caio entre outras. Ministrou palestras no Brasil,México,Colômbia,Venezuela,Equador, Paraguai, Argentina, Uruguai, Peru e Chile sobre transporte, segurança rodoviária e habitação. É autor de mais de duas centenas de artigos em jornais e revistas, publicadas até na Inglaterra e Alemanha. Em 1972, foi publicada sua primeira monografia sobre Acidentes Rodoviários; em 1975 é publicada a Normatização Brasileira de Defesa Rodoviárias. Teve também três de suas monografias publicadas em 1978: Trólebus,Tendências Modernas dos transportes Coletivos Pneumáticos e Transportes Urbanos por Trólebus; nos anos oitenta foram publicadas: Uma visão Sistêmica do Transporte Urbano, O Transporte Urbano no Brasil e A Prevenção dos Recursos Hídricos no Estado de São Paulo. Seus livros mais ressentem são Segurança Rodoviária, O Financiamento de Obras e de Serviços Públicos, em parceria com o Adilson Abreu Dallari, e Desenvolvimento Sustentável na Gestão de Serviços Públicos, em parceria com o economista Márcio Henrique Bernardes Martins.

One Response to “GUERRA É SEMPRE GUERRA*”

  • É muito gratificante conhecer e poder conviver com uma pessoa com inteligência e conhecimento, além da clareza de idéias, grandes o bastante para fazer qualquer um compreender o que existe por trás de um tema como a guerra, tão atual e tão complexo! Fonte de inspiração e de reflexão para todos nós, principalmente para mim, sua filha.

    OBS.: Por haver escutado em casa algumas vezes o citado comentário de Einstein, no 4o. parágrafo, peço licença para corrigir o que foi uma distração na digitação:
    ” indagado sobre como seria a terceira guerra mundial, disse certa vez: “a terceira guerra eu não sei, mas a segunda será a pedradas e pauladas” – leia-se seguinte (e não segunda).

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