UM NOVO NEW DEAL
Adriano M. Branco
1. INTRODUÇÃO
Sob o título de “Por Um New Deal Global”, o primeiro ministro britânico Gordon Brown escreveu importante documento de análise do momento atual, transcrito pelo O Estado de São Paulo, de 03/03/09. Como muitos dos analistas, o ministro centra seus comentários na reorganização das finanças mundiais, sem deixar de fazer referências aos problemas do meio ambiente e da pobreza, embora destituídas de propostas concretas. E, ao enumerar seis elementos de ações internacionalmente coordenadas, enfatiza simplesmente as questões econômicas e financeiras.
Esta visão econômica financeira do mundo também permeou os primeiros discursos do presidente Obama, deixando muito a desejar quanto a propostas mais sólidas relativas à autodeterminação dos povos, à necessidade de reduzir o desequilíbrio de qualidade de vida entre as nações, ao direito de preservação dos recursos naturais de cada país, dentro de uma política de distribuição de renda que permita não só evitar o esgotamento dos recursos da natureza, como assegurar a conservação do meio ambiente global. Em artigo que escrevi em fevereiro de 2009 chamei a atenção para vazios importantes notados nos primeiros momentos do governo Obama, como uma declaração enfática contra a intervenção de umas nações nas outras, como enfática foi a condenação da tortura. Observei ainda a posição secundária a que aparentemente foi relegado o ex vice-presidente Al Gore, que representa um pensamento universal e avançado sobre o destino do globo terrestre. Mas apontei ainda a necessidade de um compromisso global, especialmente dos países ricos, no sentido da mudança de hábitos de consumo e de qualidade de vida, responsáveis hoje pela degradação do ambiente, e pelo consumo acelerado dos recursos naturais, além da capacidade de reposição do Planeta. Neste particular, ao contrário, o compromisso de Obama foi no sentido de manutenção do estilo de vida norte-americano.
Todos esses comentários objetivam mostrar que a preocupação maior dos dirigentes dos grandes países está focada no arranjo econômico financeiro que lhes assegure o status-quo ante. Fala-se da natureza e da miséria em tom retórico apenas, para oferecer uma moldura mais humana às preocupações com os bancos e com a volta à livre economia, que levou ao desastre atual.
Após décadas de criticas ao New Deal de Roosevelt, fundado nas concepções econômicas de Keynes – ele próprio ignorado pelos economistas do mercado – a crise do momento fez com que até os mais empedernidos defensores das práticas econômico financeiras que levaram os EUA à derrocada começassem a rever as teorias Keynesianas e a recordar o notável economista John K. Galbraith, que levou anos insistindo na tese de que, “deixadas a si mesmas, as forças econômicas não levam a um final feliz salvo, talvez, para os poderosos”.
É a hora, portanto, de rever a história dos anos 30 e 40. Há quem diga, ainda hoje, que não foi o New Deal que salvou a economia americana, mas sim a guerra mundial. Mas foi o contrário: o fortalecimento dos EUA é que lhe permitiu entrar na guerra. Isso explica, aliás, por que os países do Eixo declararam guerra aos EUA no fim de 1941: foi o reconhecimento, pelos adversários, de que era perigoso deixar prosseguir o desenvolvimento americano, que definiu o momento da declaração de guerra.
Foi o desenvolvimento dos EUA que lhes permitiu ganhar a guerra e não o contrário! Desenvolvimento conseqüente da firme implantação do New Deal, de que todos voltam a falar agora.
Mas é preciso reconhecer a ação de Roosevelt como algo muito além de um programa intenso de desenvolvimento. A segunda face do governo Roosevelt foi a mais importante para o mundo. Quando Roosevelt disse a Churchill, em 1941, que os americanos não estavam empenhando as suas vidas para manter o império de Sua Majestade (respondendo a uma frase do Primeiro Ministro segundo a qual os ingleses não estavam se empenhando em uma guerra que poderia levar à dissolução do Império de Sua Majestade), tocou no ponto fulcral da reorganização do mundo: a extinção do colonialismo.
Quando o Primeiro Ministro Gordon Brown diz hoje que “nossas histórias (dos EUA e da Inglaterra) se forjaram pela democracia e pela crença inabalável no poder de empresa e oportunidade”, está de novo no campo da retórica. Os vários episódios de intervenção em outros países, seja para garantir as várias formas de colonialismo, seja para impor regimes políticos nunca democráticos, comprova isso.
É preciso reconhecer, então, que Roosevelt pautava as ações por um ideário de igualdade entre os povos, que está bastante bem descrito no livro de Elliott Roosevelt, “Como Meu Pai Os Via”, documento de extraordinário valor histórico e que resultou das reflexões e confidências do Presidente ao seu filho. Para recordá-lo em momento tão oportuno, transcrevo aqui um resumo do livro, que fiz em 1991, quando, mais uma vez, a guerra do Golfo – e não a paz preconizada por Roosevelt – era utilizada para garantir a hegemonia dos EUA.
Todo o conjunto de princípios que Roosevelt defendeu, na relação entre os povos, foi a sua grande obra, infelizmente inacabada. Bastou que Roosevelt morresse para que todos os seus aliados esquecessem dos compromissos firmados e tentassem garantir as suas colônias, o que levou a uma luta sem fim e sem glória. Bastou a ausência do grande líder para que o seu próprio país bombardeasse Hiroshima e Nagasaki com artefatos nucleares, causando um dos maiores horrores do século XX. E por quê? Para evitar que os russos, que haviam recentemente declarado guerra ao Japão, conforme acertado anteriormente com seus parceiros, viessem a participar do futuro governo do Japão.
Basta conhecer o ideário de Roosevelt para entender tudo o que ocorreu na seqüência, levando a uma divisão do mundo entre brancos e vermelhos, entre brancos, amarelos e negros, entre ricos e pobres, utilizando-se desde a guerra até a falsificação dos balanços…
É preciso que Obama leia a segunda parte do programa Roosevelt, aquele que preconizava a igualdade entre os povos, a supressão do colonialismo e das guerras, hoje acrescentado da defesa do meio ambiente e do uso equilibrado e equitativo dos recursos naturais. Esse é o lado ainda obscuro de seu programa de governo, embora algumas iniciativas recentes, como o recente périplo internacional da Secretária Hillary Clinton, nos dê alguma esperança em uma nova ordem mundial.
2. OS IDEAIS PERDIDOS DE ROOSEVELT
Nenhuma biografia de Franklin Delano Roosevelt retrata tão bem o seu modo de pensar, relativamente ao futuro do mundo, como o já citado livro de seu filho Elliott. Ele não é um livro de história, mas de confidências – por vezes angustiadas – daquele que, envolvido na recuperação econômica de seu país desde 1934, teve ainda que acudir os países amigos agredidos pela brutal guerra nazi-fascista declarada em 1939. A partir desse momento os EUA tiveram que se preparar não só para ajudar os seus aliados, como também para uma reação a um possível ataque das forças do Eixo, que acabou por se iniciar pela agressão japonesa a Pearl Harbour, em 1941, e em seguida pela declaração de guerra da Alemanha.
No momento em que os norte-americanos entraram efetivamente na guerra, foi necessário estabelecer uma forte articulação das forças aliadas, tarefa que também coube a Roosevelt, que foi muito além, planejando o mundo do futuro. O que Roosevelt fez pela recuperação econômica de seu país está relatado em várias de suas biografias; o que ele fez para apoiar os seus aliados e depois participar da própria guerra também consta de suas biografias. O que nem sempre está claro para os leitores é a condução das negociações em favor de um novo mundo. Nesse particular o livro de Elliott é fundamental.
Em 1991, em plena guerra do Golfo, lembrei-me do livro de Elliott, de onde se poderiam tirar conclusões acerca do porque da guerra. Procurei, então sumarizá-lo, para uma leitura mais fácil.
Mas, depois veio a guerra do Iraque, mal explicada e tão dramática quanto a de 1991. Agora, nos últimos anos mas com ênfase em 2008, repetiu-se o desastre econômico mundial de 1929. Tanto um episódio quanto o outro fazem com que se reconheça que o mundo pós-Roosevelt afastou-se por completo do ideário do grande presidente. Passados praticamente 80 anos a roda da história recomeça o seu giro que tantas tragédias registrou nesse período.
Será que ninguém percebe para onde caminhamos?
É por isso que não se pode cobrar hoje, de Obama, um simples plano de governo que restabeleça o equilíbrio financeiro universal. É preciso ir muito mais longe, preparando um novo mundo que não consuma recursos naturais além da capacidade reprodutiva do Planeta; que não destrua o meio ambiente como vem ocorrendo; em que todos os povos sejam tratados com equidade, no plano econômico e de sua auto-determinação.
Sobre tudo isso pensou Roosevelt, como registra o livro de seu filho, cuja tarefa de resumi-lo eu assumi em 1991, recordando-o a partir de 2008.
Estamos diante da volta da história, sem tirar nem por, que se relata nos próximos capítulos, segundo o registro de Elliott Roosevelt.
3. COMO MEU PAI OS VIA
(Sumário do livro de Elliott Roosevelt,
(publicado no Brasil em 1947)
3.1. APRESENTAÇÃO
Com o título acima, um dos filhos – Elliott – do presidente norte americano Franklin Delano Roosevelt relata minuciosamente os encontros havidos entre os principais líderes das nações aliadas na segunda guerra mundial. Mas não se limita aos termos dos acordos celebrados em cada ocasião, dando a público muitos dos comentários que seu pai fez acerca do próprio comportamento pessoal de cada chefe de estado, muitas vezes divergentes dos compromissos assumidos.
De toda a longa e íntima vivência com todo o processo de discussões, Elliott procura transmitir em seu livro as diretrizes de Roosevelt para o após guerra, mostrando o seu enorme empenho em construir um mundo de paz, de respeito entre às nações, de convivência pacífica sem discriminações de raça, credo religioso ou doutrina política. E, obviamente, um mundo em que o colonialismo e o imperialismo não teriam mais oportunidade.
Mas Elliott conclui, por outro lado, que o falecimento prematuro de seu pai, antes do fim da guerra e da implantação da ONU, acabou dando vezo a que a maior parte daquelas lideranças comprometidas com ideais traçados nos encontros os abandonassem rapidamente, criando-se uma situação de beligerância, que fazia prenunciar para breve uma terceira guerra mundial. Por isso, o autor decidiu escrever seu livro, dizendo ver “as promessas quebradas, as forças políticas renascentes do imperialismo voraz e desesperado”.
A leitura desse livro enseja-nos compreender os nove lustros de seguidos conflitos que sucederam à segunda guerra mundial até 1991, quando foi elaborada esta síntese procurando interpretar os fatos que conduziram à tragédia do Golfo Pérsico, onde, em 45 dias, morreram talvez 200.000 pessoas, onde se mutilaram milhares de outras, onde se destruíram infraestruturas nacionais cuja reconstrução demandará o emprego de centenas de bilhões de dólares, onde se comprometeu o meio ambiente de maneira gravíssima, onde se despejaram milhões de toneladas de bombas, numa concentração de poder destrutivo nunca vista na face da Terra, onde se gastaram dezenas e dezenas de bilhões de dólares em armamentos e suprimentos bélicos.
Se não conhecermos as razões que estão por trás desses acontecimentos, não poderemos atinar com o porquê de se transformar a decisão da ONU, ou de forçar o Iraque a se retirar do Kuwait – decisão igual a tantas outras que si quer passaram do papel – numa destruição maciça, num genocídio brutal e na exigência de alguns países useiros e vezeiros no uso da força para garantir os seus interesses, não raro invadindo e ocupando território alheio, no sentindo de que o poderio bélico do Iraque, já derrotado seja, por fim, destruído.
A CONCLUSÃO do livro é por si só elucidativa de todo o pensamento e, mais, de toda a constatação de Elliott Roosevelt. Por isso, vai transcrita ao final deste comentário. E ela justificará mais uma vez que a análise de fatos importantes de 1945 para cá tenha como embasamento e ponto de origem o livro “COMO MEU PAI OS VIA”.
3.2. CARTA DO ATLANTICO
Argêntia, porto de Atlântico onde, à época, os EUA implantavam uma base militar, foi o local escolhido para o primeiro encontro, em agosto de 1941, entre o Presidente Roosevelt e o Primeiro Ministro Churchill. O objetivo central deste era mais uma vez pressionar os EUA para o seu ingresso na guerra, sob os argumentos de que, sem isso, a Inglaterra estaria perdida e que, mais adiante, os alemães iriam derrotar também os americanos.
Roosevelt estava disposto a debater o tema proposto. Mas demonstrou logo que, mais do que discutir a guerra, ele queria discutir a paz. E começou por dizer que uma paz duradoura deveria contemplar a maior liberdade possível de comércio, um mínimo de acordos econômicos com favorecidos, oportunidades de expansão e mercados abertos para competições sadias. E completou afirmando que os acordos comerciais do Império Britânico “são um caso de estudar-se. É devido a eles que os povos da Índia e da África, todos os do Próximo e Extremo Oriente ainda se acham atrasados”.
Ao ser retrucado por Churchill, o presidente americano completou que não seria com métodos do século XVIII que se desenvolveriam os territórios atrasados. E, dirigindo-se ao primeiro ministro, acrescentou: “quaisquer de seus ministros que recomendam a política que extrai riquezas em matérias primas de uma colônia e nada devolve ao povo dessa colônia os praticam (referia-se aos métodos do século XVIII). Métodos a século XX exigem que tais colônias sejam industrializadas. Métodos a século XX incluem o desenvolvimento das riquezas de um povo, a melhoria do seu padrão de vida, sua educação, condições higiênicas de vida, a garantia de que receberá a retribuição da riqueza em bruto que teve de deixar sair de sua comunidade com essa prática”. E mais: “não posso acreditar que façamos guerra à escravidão fascista e, ao mesmo passo, não trabalhemos por libertar os povos de todo o mundo de uma política retrograda e colonial”.
Estava dado, assim, em Argêntia, o tom em que se deveria desenvolver o planejamento da paz. Tom esse que desagradava a Churchill, que chegou a declarar que não aceitara o cargo de primeiro ministro para dissolver o Império de Sua Majestade. Contudo, reconhecia que, sem a América, o Império não sobreviveria, o que o obrigava a render-se aos preceitos norte-americanos.
Deste primeiro encontro, realizado às vésperas do ataque-surpresa a Pearl Harbour, pelos japoneses, resultou a Carta Atlântico, que englobava as seguintes declarações dos dois estaditas:
1. “Seus países não procuravam engrandecimentos territoriais nem outros;
2. Não desejavam mudanças territoriais que não concordassem com os desejos livremente expressos pelos povos interessados;
3. Respeitavam o direito de todos os povos de escolherem a forma de governo sob a qual queria viver, e desejavam ver os direitos soberanos e o governo próprio restaurados para aqueles que se tinham visto privados deles pela força;
4. Fariam o possível, respeitando os compromissos assumidos, por proporcionar meios a todos os Estados, grandes e pequenos, vitoriosos ou vencidos, de comerciarem em condições iguais, de terem acesso às matérias-primas do mundo, necessários à sua prosperidade econômica;
5. Desejavam efetivar a mais completa colaboração entre todas as nações no campo econômico, com o fim de garantir, para todas, melhores condições de trabalho, acordos econômicos e segurança social;
6. Após a destruição final da tirania nazista, esperavam ver estabelecida uma paz que proporcionasse a todos os países os meios de viverem em segurança dentro das próprias fronteiras, meios que proporcionassem garantia para todos os homens, em todos os países, para poderem viver livres do medo e da indigência;
7. Tal paz possibilitaria a todos os homens cruzarem os mares sem obstáculo;
8. Acreditavam que todas as nações do mundo, por motivos tanto realistas como espirituais, deveriam chegar ao abandono do uso da força. Porque paz alguma, futuramente, poderia ser mantida se os armamentos de terra, mar e ar continuassem a ser empregados pelas nações que ameaçassem ou pudessem ameaçar de uma agressão outras além de suas fronteiras, disso decorrendo ser essencial, para o estabelecimento de um mais amplo e permanente sistema de segurança geral, o desarmamento de tais nações. Auxiliariam igualmente e incentivariam todas as demais medidas praticáveis, no sentindo de aliviar os povos amantes da paz, do fardo cruciante dos armamentos.
3.3. ENCONTRO EM CASABLANCA
Em janeiro de 1943 Roosevelt e Churchill encontraram-se em Casablanca. Haviam procurado convencer Stalin a estar presente, mas ele alegara estar pessoalmente no comando de suas tropas. Mas já fizera saber que sua reivindicação era a abertura da Frente Ocidental.
De Gaulle se recusara a ir lá, pois fora contrário à invasão do norte da África pelos americanos, como ocorrera, e, principalmente, se agastara com a nomeação, por Eisenhower, de um governo francês lá.
Entre os aliados, já se notavam divergências fortes, seja devido à estratégia de Churchill no sentido de retardar o desembarque na Europa, visando o enfraquecimento das forças alemãs nos combates na frente russa e até mesmo a debilitação dos russos – se não a sua própria aniquilação – naquela fase da guerra, seja porque os norte-americanos adotavam decisões, sem muita consulta aos franceses, relativas aos seus próprios territórios, então ocupados pelos nazistas. Com relação a De Gaulle, Roosevelt sugeriu a Churchill que ele fosse advertido de que os EUA retirariam o seu apoio à França se ele persistisse na atitude de “prima dona”, recusando-se a ir às conferencias. No íntimo, Roosevelt achava que o primeiro ministro não transmitira o convite ao general francês, porque o tinha sob controle para assegurar o colonialismo de ambos os países após a guerra.
Já nos primeiros momentos do encontro de Casablanca, Roosevelt percebera que o interesse de Churchill em retardar o desembarque na Europa através do canal da Mancha tinha também outro objetivo. Com efeito, o Primeiro Ministro advogava uma concentração de esforços no sentido da retomada de Burnia, com o evidente interesse de assegurar o quanto antes o domínio colonial inglês e francês sobre a Índia, Indochina e Indonésia.
Mas em suas confidências a Elliott, Roosevelt mostrava-se decidido a lutar pela libertação da Índia (da qual a Inglaterra sugava as riquezas, dizia ele) para que ela pudesse conhecer os benefícios do progresso. O Presidente estava, na verdade, terrivelmente impressionado com a miséria reinante nas colônias inglesas e francesas, que agora ele pudera conhecer mais de perto.
“A Organização das Nações Unidas – sentenciou Roosevelt, referindo-se pela primeira vez ao propósito de constituí-la, perante seu filho – deverá assumir o compromisso de promover a educação, de levantar os padrões de vida, de melhorar as condições de saúde de todas as deprimidas áreas coloniais da retaguarda, no mundo inteiro”.
“Os imperialistas roubaram bilhões deste continente, por terem vistas curtas, sem avaliar que os seus bilhões eram níqueis, comparados às possibilidades da região”.
Após várias discussões com os seus estados maiores, os dois “grandes” decidiram desembarcar na Sicília ainda na primavera de 43, adiando para a primavera de 44 a invasão pelo Canal. A razão principal era assegurar o controle das rotas de suprimentos, através do Mediterrâneo, para o Golfo Pérsico e para a União Soviética. E disso dariam ciência a Stalin, antevendo a sua reação desfavorável, pois tal estratégia corresponderia a manter a URSS sob todo o peso das forças alemãs.
Já meio caminho andado na conferência, finalmente De Gaulle apareceu, ainda que contrafeito por estarem os americanos defendendo a idéia de que o general Giraud – lá presente também – deveria dividir, com o primeiro, o comando das forças francesas. Aliás, após entrevistar Giraud, Roosevelt mostrara-se absolutamente decepcionado com esse general, que não tinha qualquer plano político e administrativo para o após guerra e se limitava a pedir armas, para retornar as colônias francesas.
Mas também De Gaulle não fez outra coisa que defender perante Churchill a devolução de todas essas colônias.
Um dia antes, Roosevelt convidou para jantar o Sultão de Marrocos; e, até para provocar um pouco as reações de Churchill, discutira com ele as vantagens de melhor aproveitar as riquezas do país em favor de seu próprio desenvolvimento. Na medida em que o Sultão mostrava a necessidade de ajuda externa para que isso se tornasse possível, o Presidente acenava com a possibilidade da formação de recursos humanos nos EUA e do apoio de empresários norte-americanos, que teriam os seus lucros naturais, mas sem que o Marrocos tivesse que, através de concessões aos estrangeiros, escoar os recursos nacionais para o exterior.
Enquanto o Sultão se enchia de esperança em dias melhores, Churchill abominava a conversa. Na verdade, prenunciava-se até não só a desmontagem do imperialismo europeu no continente africano, como possível surgimento de alianças norte-americanas que, após a morte de Roosevelt, se transformaram no neo-colonialismo estadunidense, que substituiu a presença física dos europeus nas colônias, pela ação diplomática, pela aliança militar e até por um novo regime de concessões em favor dos EUA, naquela e em outras regiões do chamado terceiro mundo.
Ao comentar com Elliott todos os debates que se travaram em torno do tema “imperialismo”, durante o encontro de Casablanca, seu pai lhe indagava: “Por que essas colônias (francesas) deverão permanecer assim?” Em sua opinião, a facilidade com que os japoneses haviam dominado a Indochina, revelara que, para os nativos, nada seria pior que a dominação francesa.
Daí a sua preocupação: “o que acontecerá a este mundo se, depois desta guerra, permitimos que milhões de criaturas escorreguem de novo à semi-escravidão”. E o seu propósito: “quando ganharmos a guerra vou trabalhar com todas as minhas forças e poder, para que os EUA não sejam engodados e reduzidos à posição de ter que aceitar qualquer plano que favoreça as ambições imperialistas da França, ou ajude e incite o Império Britânico em suas ambições imperialistas”.
Essa sua posição Roosevelt tornava cada vez mais clara perante os ingleses, que só não se rebelaram porque sabiam impossível vencer a guerra sem a ajuda norte-americana.
O encontro de Casablanca, enfim, ao lado de propiciar tais discussões e de atrair De Gaulle para os acordos necessários à união das forças aliadas, trouxera como decisões estratégicas o desembarque na Sicília e o ultimato às forças do Eixo no sentido da “rendição incondicional”, que passou a ser a palavra de ordem dos aliados.
3.4. ENCONTRO NO CAIRO
Em agosto de 43, Roosevelt e Churchill encontraram-se em Quebec, para discutir a invasão da Europa pelo Canal da Mancha, o que ficou, então, acertado, para a primavera de 44.
Mas, ao retornar, Roosevelt queixava-se das dificuldades de compor os objetivos da futura ONU, à medida em que a guerra se aproximava do fim. Os chineses de Chiang-Kai-Chek não lutavam contra os japoneses e havia divergências entre ingleses e russos, russos e chineses, bem como chineses e ingleses. Roosevelt passou, então, a planejar duas outras reuniões, uma em que estivesse Chiang-Kai-Chek e outra em que estivesse presente Stalin. Estes dois não estariam numa mesma reunião, porque a URSS não declarara guerra ao Japão, enquanto que, à China, interessava discutir primordialmente a luta contra os japoneses.
Em 20 de novembro, Roosevelt chega a Orã, de navio, para, de lá, deslocar-se para o Cairo e, depois, Teerã, palcos das duas conferências aprazadas.
No Cairo, conferenciou com o casal Chiang, que lhe explicou não estarem os seus soldados lutando, devido à falta de equipamentos e de adestramento. Por outro lado, disse da sua necessidade de concentrar os seus melhores soldados na fronteira com a China Vermelha, ao Norte. Eles queriam fazer crer, também, que os soldados comunistas igualmente não se empenhavam na guerra com os japoneses, mas os militares americanos tinham conhecimento de que em vários trechos da costa os guerrilheiros já haviam desalojado os japoneses.
Na verdade, Chiang-Kai-Chek não era o líder que Roosevelt admirasse, para conduzir os destinos da China. Mas, na falta de outro, era necessário seguir com ele.
Por seu turno, Churchill teimosamente procurava reabrir a discussão acerca da invasão da Europa pelo Canal – assunto já acertado em Quebec – mas Roosevelt não estava mais disposto às filigranas estratégicas, que visaram os interesses específicos do colonialismo inglês. Opunha-se àquelas tentativas já se valendo das prerrogativas de sustentáculo industrial das forças que desembarcariam na Europa.
Enquanto isso, os russos levavam de vencida os alemães, havendo libertado Stalingrado e, mais recentemente, Kiev. Aproximavam-se agora das fronteiras com a Polônia, após terem sentido o risco de perder Moscou.
Churchill advogava agora a entrada da Turquia no bloco aliado, em parte visando a fortalecer as posições ocidentais no Oriente.
Enquanto isso, os Chiang reivindicavam junto ao Presidente que a URSS respeitasse a fronteira com a Mandchúria e que a Inglaterra perdesse os direitos imperiais sobre Hong Kong, Changai e Cantão. Essas eram exigências prévias para o seu compromisso de promover um governo de coalizão, preparatório de eleições gerais na China. Roosevelt prometeu-lhes que, vencido o Japão, nenhum navio de guerra inglês chegaria aos portos chineses.
Ao final da conferência, Roosevelt redigiu texto, a ser aprovado em Teerã, no sentido de que a Mandchúria, Ilha dos Pescadores e Formosa voltariam a ser território chinês, enquanto a Coréia seria tornada livre.
3.5. ENCONTRO EM TEERÃ
Em 29 de novembro de 1943 Roosevelt chegou a Teerã, para um encontro com Churchill e Stalin. Com um aparato de proteção fortemente preparado, ele hospedou-se na Embaixada Russa, em frente à Inglesa, pois a sede diplomática americana ficava muito distante.
Teerã pareceu-lhe uma cidade moderna. Mas logo se deu conta da extrema miséria do povo persa, contrastando com o fausto de alguns poucos, em geral funcionários do governo e persas ligados à exploração do petróleo, pelos ingleses.
No seu primeiro encontro com Stalin, o Presidente ouviu dele a disposição de respeitar a soberania de todas as nações – pequenas ou grandes – uma vez respeitada a da própria União Soviética. Falaram da Manchúria, que Chiang-Kai-Chek colocara como ponto de conflito da China com a Rússia, tendo Stalin dito que respeitaria as divisas entre os dois países.
Roosevelt, por sua vez, mencionou o seu propósito de continuar insistindo com Chiang no rápido reconhecimento dos comunistas pelo governo e na realização de eleições gerais logo a seguir.
Na ocasião, Churchill presenteou Stalin com uma espada especialmente confeccionada para que o Rei da Inglaterra homenageasse os russos pela resistência em Stalingrado, “onde se quebrara para sempre a ofensiva e o mito da invencibilidade dos nazistas”.
Durante as discussões entre os três grandes, Churchill insistiu em que os aliados fizessem não uma, mas duas invasões simultâneas à Europa: uma pelo Oeste, como já fora decidido, e uma pelo Leste. Na verdade, sua proposta visava a cortar o avanço russo pelo Hungria, Romênia e Áustria, para impedir o fortalecimento da U.R.S.S. no cenário europeu.
Roosevelt e seu estado maior eram contra essa estratégia, que levava a uma sub-utilização do potencial bélico aliado, e, com isso, ao retardamento do fim da guerra.
Durante os banquetes, em que a enorme quantidade de brindes às vezes inflamava os ânimos, os russos reclamavam dos americanos o atraso no fornecimento do material de guerra, obrigando-os a uma luta muito mais encarniçada, com grandes perdas. Mesmo assim, Stalin creditava aos E.U.A. o papel de grande esteio da luta, pela crescente produção de armamentos.
Num dos episódios, Stalin propôs que, finda a guerra, fossem condenados pelo menos 50.000 criminosos. Churchill irritou-se e passou a discursar sobre a necessidade de julgamentos corretos, o que desaconselhava as previsões precipitadas; e invocou a opinião americana. Naquele clima de disputas, Roosevelt acabou troçando, propondo a redução do número para 49.500, o que deixou Churchill irritadíssimo, enquanto Stalin se divertia com a disputa. No dia imediato, o Primeiro Ministro ofereceu um banquete, de comemoração dos seus 69 anos de idade.
Durante o período de conferencias, o xá visitou Roosevelt, que comentou com ele a rápida desertificação de vasta área do Irã antes possuidora de abundante vegetação. E lhe propôs um programa de reflorestamento.
Mas comentou ainda a extrema pobreza dos persas, que acabaram por queixar-se da exploração dos minerais e do petróleo pelos ingleses, que dominavam a economia do País.
Após o encontro, Roosevelt pediu a seus assessores que redigissem um documento assegurando a independência econômica do Irã no após guerra.
No final da reunião de Teerã, os aliados combinaram a invasão européia pelo Oeste, em primeiro de maio, combinada com um avanço das forças anglo-americanas pelo sul da França, enquanto os russos cuidariam do avanço na frente oriental. Com isso, imaginavam por fim a guerra até o final de 1944.
No dia imediato (1/12) Roosevelt regressou ao Cairo.
3.6. COMO MEU PAI OS VIA – CONCLUSÃO
(de Elliott Roosevelt)
Iniciara-se bem o trabalho de planificação da paz mundial. Mas algures, num ponto qualquer, nos meses que se seguiram à morte de Franklin Roosevelt, seu desassombrado início foi prejudicado. “Prejudicado” talvez seja expressão demasiado branda. Melhor: A paz está sendo “inteiramente perdida”.
A evidência desta dura verdade salta-nos aos olhos. “Não há paz” – é o que grita Walter Lippman. Publicam os jornais notícias de bases aéreas avançadas na parte oriental da nossa zona administrativa da Alemanha e contam como nossas forças aéreas lá estão sendo equipadas com os últimos e mais rápidos aviões-foguetes em substituição aos “antiquados” P-51. Este fato exige-nos uma dolorosa pergunta: por quê?
Não seria isto mera suspeita oriunda de nossa ciumenta e insana relutância em repartir o “segredo” da bomba atômica, “segredo” que cada cientista que trabalhou no projeto Manhattan declara, abertamente, não ter segredo algum? Entretanto, seguramos ao peito este joguete assassino, para livrá-lo de nosso aliados, “indignos” de confiança, e confiamo-lo preferivelmente ao controle de homens fardados do exército, como se fossemos um estado militarista e não, graças aos nossos antepassados, uma democracia civil.
Tal evidência pode facilmente ser multiplicada.
Nossa obrigação é descobrir as causas fundamentais do por que a paz está sendo perdida, do por que as conhecidas tagarelices nos coquetéis de Washington se referem à guerra contra a União Soviética “preferivelmente antes de 1948” – o que quer dizer, preferivelmente antes que os soviéticos aperfeiçoem sua versão da arma atômica. Devemos saber por que os correspondentes escrevem que “cada homem de estado na Europa abriga, no fundo da consciência a suposição de que deve agir como se devesse haver guerra entre a Grã-Bretanha e a Rússia, guerra esta que envolverá todas as demais nações”? Devemos descobrir quais são esses homens de estado; devemos atacar sua suposição; devemos lutar pela paz mundial que parecia tão segura, quando o Dia-V-J se seguiu ao Dia-V-E.
Que mudança se deu que nos desviou do caminho da paz, impelindo-nos confusamente para a direção oposta?
Acredito que haja um fato que, uma vez compreendido, conduza à clarividência e à apreciação de todos os acontecimentos do após-guerra. E que, ao falecer Franklin Roosevelt, a energia motora para o progresso do mundo atual perdeu seu advogado mais influente e persuasivo. Sua morte fez silenciar a voz melhor articulada para a união entre os povos e as nações. Mais do que isso, para todos os povos do mundo ele foi o símbolo da América e da Liberdade, em que haviam colocado a esperança de libertação e de um novo mundo de paz e bonança. Ao morrer Roosevelt, muitas de suas esperanças morreram com ele, assim como a fé, que as inspirava.
É evidente que indivíduo algum, por maior líder que tenha sido, possa, pela sua vida ou sua morte, influenciar a História do mundo mais do que por uns momentos, em comparação com a eternidade. Mas, em nosso caso, uma morte individual significa um vácuo conseqüente – para aqueles poucos momentos – na força para o progresso, no avanço para a frente, para garantir que a guerra não foi feita, afinal de contas, só para preservar o “status quo” anterior. Estando ausentes desse vácuo; os amigos do progresso foram substituídos pelos adversários – os inimigos do progresso, os advogados de um mundo reacionário.
Não me é difícil citar documentos em abono desta asserção. Registrei nas primeiras páginas deste livro, de meu conhecimento pessoal, vários planos que o arquiteto de nossa vitória mundial discutiu com outros líderes. Delas consta a promessa. Coloquemo-la ao lado da execução e, que encontramos?
Há o exemplo da China. No Cairo, Franklin Roosevelt arrancou um compromisso, do senhor feudal da guerra, que acontecia ser então, de fato, o líder da guerra da China. O compromisso era que, antes da cessação das hostilidades, seria instituído um governo verdadeiramente representativo de unificação nacional na China, e que, sob a égide deste novo governo mais democrático, haveria – logo que se tornasse possível – eleições nacionais. Obviamente, fora um compromisso condicional. As condições de Chiang eram duas: primeiro, que meu pai obteria do governo Soviético a inteira segurança de que a Mandchúria retornaria à soberania chinesa e a garantia absoluta de que as futuras fronteiras chinesas seriam respeitadas, incluindo este compromisso um ajuste de que os soviéticos não interfeririam nos problemas internos da política chinesa; segundo, que os Estados Unidos apoiariam a China em sua recusa de após-guerra com referencia aos direitos extraterritoriais britânicos em Hong-Kong, Cantão e Changai; e, com certa ênfase baseada nestas condições, disseram a Chiang que os vasos de guerra americanos teriam entrada nesses e em outros portos da China e que os vasos de guerra britânicos deles seriam excluídos, ao cessar a resistência japonesa.
Onde, pois a sua execução? O enviado especial de meu pai, Pat Hurley, produziu uma obra notável. Todas as garantias necessárias foram recebidas dos soviéticos que, de fato, se submeteram em espírito e letra ao seu ajuste, desde essa época. Cabia então aos Estados Unidos cumprirem com a responsabilidade condicional que assumiram. Não o fizemos. Os primeiros vasos de guerra que entraram em portos da China foram britânicos. A ordem que os excluía foi escondida algures, muito provavelmente no Departamento de Estado.
Que resultado adveio disso? Ante uma promessa quebrada, americana, Chiang por sua vez quebrou a sua. O quadro atual da China não é o do progresso, mas o da persistente reação. O governo não é o de união nacional, com representação de todos os partidos, mas um governo déspota, com a fome em sua base, suborno e cinismo em sua superfície.
Uma comparação entre promessas e desempenhos no mundo colonial evidencia disparidade ainda mais aguda. Vejamos o caso das Índias Orientais Holandesas: a rainha Guilhermina dissera que haveria de declarar, imediatamente depois da cessão das hostilidades, que eles teriam primeiro status de domínio, com a oportunidade de votarem a própria independência. Naturalmente, tal compromisso foi assumido ante o acordo de que seriam tropas americanas que libertariam essas ricas regiões. Na realidade, como o mundo consternado verificou, os ingleses, cônscios dos efeitos da independência de Java sobre suas próprias colônias, atiraram-se com armas às Índias Orientais Holandesas e valeram-se do material Lend-Lease americano para suprimir desapiedadamente o anseio desses povos pela independência, enquanto na América ficamos de braços cruzados.
Tomemos ainda o exemplo da Indochina francesa. Quantas vezes sustentou meu pai que esta colônia, liberta na maior parte com armas americanas e tropas americanas, não deveria ser retomada pelos franceses para ser sangrada pelos imperialistas como, por décadas, se verifica! Todavia, quando tropas coloniais britânicas lá penetraram, levaram consigo tropas francesas e administradores franceses. Depressa! Chegou a hora! Devolvamo-la aos mesmos interesses imperialistas, enquanto ninguém nos observa!
Mas, tais exemplos, por notáveis e significativos que sejam, são entretanto, diminutos ante a mais grave evidência de que o progresso foi invalidado pela reação. Esta evidência é o colapso da união dos Três Grandes, da união – chave da paz. Franklin Roosevelt cinzelou essa chave e colocou-a em seu lugar; muitos, muitos figurões, desde então, lhe tem lascado pedaços, na esperança de que brevemente se desfaça.
Tais sabotadores da união internacional são chefiados pelos homens que insistem em que não presta o princípio do poder do veto. São os homens que, por ignorância ou cupidez, encobrem o fato de que em mundo dominado pelos Três Poderes, os Estados Unidos, a U.R.S.S. e o Reino Unido, todos três devem agir de comum acordo para que a paz seja mantida. Não é bastante afirmar que os soviéticos são tão vorazes que nenhum Estado que se preze pode com eles viver em harmonia, sem primeiro – o que é terrível! – pacificá-los. Tal argumento não tem valor algum, pois o mundo assistiu a união dos Três Grandes; observou-a, aprovando-a, por muitos e muitos meses; observou-a ao tempo da Conferência dos Ministros do Exterior, em Moscou, em dezembro de 1945 e janeiro de 1946. Foi só depois dessa Conferência, quando aqui se começou a gritar que Byrnes entregara os Estados Unidos de mão beijada, quando, sob a orientação de homens como Vandenberg no Senado e o côro Hearst-Roy-Howard-McCormick na imprensa, foram todos chamados para “resistir à Rússia” – só aí a nossa união periclitou.
E que coisa tão terrível fizera Byrnes em Moscou? Discutira a possibilidade de eventual colocação da bomba atômica sob controle das Nações Unidas. Pois Byrnes era bastante esperto para compreender que, se havia um fator magnificamente bem calculado para criar suspeitas contra a rica e poderosa América nos espíritos e corações de nossos aliados na guerra, e presumivelmente de nossos aliados na paz, era o fato de estarmos escondendo a arma mais devastadora do mundo. Por quê? Para usá-la contra quem?
Aparentemente, Byrnes aprendeu a lição. Dois meses mais tarde, atendeu a uma voz interior e preparou-se para promulgar sua receita própria de “resistência à Rússia”. Por curiosa casualidade, foi uma semana depois que Winston Churchill, que planejara incansavelmente para evitar a invasão da Europa pelo canal – desde a primavera de 1942 até o inverno 1943-44 – que sempre lutara por forçar uma mudança de estratégia aliada para que nossas tropas fossem encaminhadas para penetrar nas barreiras montanhosas que ele qualificava de “a barriga mole da Europa”, pronunciou seu discurso em Fulton, Missouri, em que dirigiu um furioso ataque aos soviéticos. Ele procurava desviar o peso da ofensiva de maneira a proteger os interesses do Império Britânico nos Bálcãs e na Europa Central contra seu aliado soviético e por em perigo a vitória rápida; e ocupava-se agora com soltar um balão de ensaio para uma guerra direta contra seu antigo aliado. Nem podíamos ignorar, ao tempo em que ele sugeriu uma aliança militar anglo-americana, que os chefes do Estado-Maior ainda se reuniam em Washington regularmente, meses depois do “fim” da guerra – como ainda se reúnem.
O colapso gradual da união desesperadamente necessária dos Três Grandes pode ser considerado como iniciado antes mesmo do fim da guerra. Três meses antes do colapso germânico, os Ministros do Exterior e os da Guerra dos Três Grandes, começaram a fazer circular, entre Londres, Washington e Moscou, esquemas de como deveriam ser redigidos os termos da rendição. Após alguns debates, houve acordo final sobre o documento. Dele foi expedida uma cópia, de Moscou ao Marechal Zúkov. Nenhuma cópia entretanto, foi expedida, nem de Londres, nem de Washington, ao General Eisenhower, no SHAEF. De fato, os termos da rendição de que ele se valeu, foram redigidos pelo seu chefe de Estado-Maior, general Beadle Smith, pela razão dele ignorar a existência do documento oficial. Será de espantar-se que os soviéticos se tenham irritado? E que mais tarde se tenham ressentido por tropas americanas e britânicas não se retirarem prontamente das zonas de ocupação, como fora ajustado em Ialta? Ou que, neste momento, se magoem que as forças de ocupação, inglesas e americanas, não estejam fazendo esforços por cumprir as cláusulas de reparações igualmente estabelecidas em Washington?
Ao ocorrerem tais fatos, provocaram, inevitavelmente, reação no Kremlim. Indubitavelmente, do Dia-V-E em diante, Stalin e seus Conselheiros resolveram que, se o quadro geral da desunião era tão notório, eles prontamente se poriam a remendar sua muralha contra qualquer eventualidade. Cortinas de aço não crescem espontaneamente. Há razões para sua existência. Se Churchill pode falar em cortina de aço na Europa, um Stálin poderá indicar as razões de sua necessidade. Desgraçadamente, os políticos internacionais sendo o que são, a lógica é substituída pela política do “Você também é! Em meu esforço por tornar às primeiras causas do nosso problemático e critico presente, noto apenas que foram os Estados Unidos e a Grã-Bretanha que em primeiro brandiram à mão armada, que primeiro fraudaram as decisões coletivas.
E deve também ser notificado que, ao abalo mundial que se seguiu à matança, nós fugimos ao nosso papel relevante e vital de agir como mediadores entre Grã-Bretanha e a União Soviética, as duas únicas nações cujos interesses de segurança hoje se acham em choque. Ao contrário de agirmos como árbitros de tais divergências, como meu pai sempre tivera o cuidado de fazer, tomamos partido; pior ainda, em vez de cerrarmos fileiras ao lado da Grã-Bretanha, postamo-nos atrás dela. Assim, no caso trágico da Grécia, em que soldados britânicos, a despeito de um veemente protesto do povo inglês, mataram a sangue frio antifascistas gregos, aliamo-nos ao Ministério do Exterior inglês, declarando ser zombaria uma eleição puramente democrática; da mesma maneira, na Turquia, protegemos os objetivos britânicos, aos empurrarmos uma Turquia dúbia para uma posição de ataque às ambições soviéticas de controle conjunto dos Dardanelos. Duas nações, geometricamente, controlam os Dardanelos; a Grécia e a Turquia. Apoiando os britânicos, quando eles impõem condições anti-soviéticas nesse importante estreito, tornamos a negar, mais uma vez, o princípio da união dos Três Grandes.
Aí está o caso do Irã. Seria alta comédia, se não fosse ao mesmo tempo ladeada de amargura. O Conselho de Segurança da Nações Unidas – desprezando freqüentemente os desejos do governo persa – insistiu como conseqüência da chefia anglo-americana, por conservar vivo o caso do Irã, como se ele significasse uma seria ameaça para a paz. E os acontecimentos facilmente chegaram a isto: a Grã-Bretanha preservava zelosa seu controle das concessões de petróleo no sul da Pérsia sobre uma base de 51-49 – a parte do leão cabendo naturalmente ao leão britânico. Quando a União Soviética pretendeu negociar sobre uma base de 50-50 para as concessões de petróleo do norte (lembrai-vos como os campos de petróleo do Baku são próximos do Irã), o Conselho de Segurança das Nações Unidas fez do caso uma verdadeira parada anti-soviética. Por todos os Estados Unidos realizou-se um acordo geral, por parte dos jornalistas e redatores, clamando que os russos eram imperialistas, de tal maneira que estávamos prontos para aceitar a distorção simplesmente por ela se haver repetido tantas vezes.
A importância do Irã apenas existe porque indica que um pequeno numero de homens inflexíveis em Londres e Washington anseia por criar e alimentar uma atmosfera de guerra odiosa contra os russos, como se o povo russo não tivesse suportado o peso da força militar nazista, suportado, rechaçado e com isso demonstrado à saciedade sua importância na coalizão para a paz.
Se me expresso com esta ênfase é porque, numa ínfima parte, adquiri o direito de assim proceder, em virtude de ter trabalhado e convivido com mais homens, hoje falecidos, cuja recordação me é grata. Ser-me-ia, portanto, desagradável verificar que o que eles fizeram está sendo desprezado dentro de tão poucos meses depois, e por indivíduos que jamais estiveram no seu verdadeiro lugar, mesmo depois do ataque a Pearl Harbor. É com desprazer que ouço a voz desses novos “intercionalistas”, que é hoje a mais estridente – a dos homens do Congresso, cujas idéias de internacionalismo são uma combinação internacional para levar a cabo uma Terceira Guerra Mundial contra um dos nossos aliados da Segunda Guerra Mundial.
Vali-me da expressão “um pequeno número de homens inflexíveis” e coloquei-os em Washington. Talvez deva ser ainda mais explícito. Penso nos homens de carreira do Departamento de Estado, em que meu pai jamais confiou, incluindo entre eles alguns que muitas vezes foram erroneamente citados como nossos “especialistas”, em matéria de política internacional. Refiro-me aos reacionários das duas casas do Congresso, homens que decidiram ser mais importante escolher de que lado ficar para o futuro, do que trabalharem juntos para o futuro. Refiro-me aos guardiães de nossa “imprensa livre” – a imprensa que luta heroicamente pela liberdade da irresponsabilidade. São as vozes que mais vituperam o princípio da união dos Três Grandes, idéia resultante de sua própria insistência de que o poder do “veto” é um sistema vicioso.
E refiro-me também aos homens que circunscrevem a nossa política exterior ao tamanho de uma bomba atômica; aos oficiais do exército que – considerando apenas o seu futuro profissional – estão dispostos a fazer com que a civilização se reduza a um montão de cascalhos.
Ergue-se minha voz para dizer que o costume e a tradição americanos exigem que o militar não controle os destinos da nação. Foi – estou convencido – não por coincidência, que se estipulou que o Presidente – tradicionalmente um civil – deveria ser Comandante-Chefe do Exército e da Armada. Consideremos agora o fato dos militares haverem tomado sobre os ombros as incumbências da diplomacia do após-guerra. Não pretendo criticar a obra do general Marshall no oriente. Nem a do general Beedle Smith em Moscou. Nem contesto que o almirante Leahy seja o melhor conselheiro que o Presidente jamais possuiu, sobre assuntos diplomáticos. Mas argumento que os postos eminentes devem ser devolvidos aos civis, pois não se coaduna com uma democracia não guerreira, como a dos Estados Unidos da América, depender dos uniformes para informações e orientação, nos negócios internacionais. As personalidades militares que ingressarem na área da política ou no serviço diplomático americano deverão primeiro separar-se das forças armadas e retirar-se para a vida civil.
O perigo de uma diplomacia militar é evidente: os militares comandam o exército e um exército só será uma força de progresso se for o instrumento de uma política progressista exterior. Isto porque, homem algum, por mais elevada que seja a sua mentalidade e competência, estará em condições de ter sob seu controle a política exterior e as forças armadas. A atitude de nossas tropas no estrangeiro é um testemunho da relevância em defesa desta tese, porque os nossos GI se convenceram – e, na maioria, alegremente – de que deviam vencer a guerra e renunciaram ao confronto de seu lar, ao aconchego de suas mulheres e filhos, pela responsabilidade de lutar e vencer. Os tumultuosos “voltemos para casa” dos GI só se verificaram depois de Potsdam, quando ainda parecia ser – e era – um trabalho definido para a democracia, conquistar o ninho do fascismo.
Mas logo que se tornou óbvio que as coisas pelas quais haviam lutado – principalmente a “paz por muitas gerações” garantida ao mundo graças à concórdia dos Três Grandes em Teerã – ia por água abaixo, o alarido que se erguia de Paris a Tóquio foi sendo sensivelmente registrado em Washington.
Devo acentuar que não me oponho à manutenção de um grande número de americanos em armas. Pelo contrário, subscrevo este ponto de vista, desde que este exército seja parte da força de segurança estipulada pela Carta da Nações Unidas e desde que as Nações Unidas procedam segundo o acordo que foi a sua base e princípio, isto é, a união cada vez maior entre os Três Grandes.
E lícito pois fazer a seguinte interrogação: Que podemos nós fazer, nós, não simples funcionários do governo americano, mas algo mais alto, isto é, cidadãos americanos? Que podemos nós fazer para garantir o retorno do nosso governo ao caminho indicado por Franklin Roosevelt?
Para responder a ela, devo citar em poucas palavras a lição que me foi ensinada, primeiro pela história e depois pela observação de meu pai, quando Presidente. Os maiores presidentes do nosso país foram, estou certo, os que melhor sentiram e responderam à vontade consciente e inteligente de seu povo. Lincoln não pode assinar o Ato de Emancipação, libertando os escravos, até quase dois anos depois de começada a guerra civil, não porque não houvesse pressão do Norte para impedí-lo, mas porque não houve pressão suficiente. Numa democracia americana, há uma relação entre o povo e seu Presidente, que, raramente, é o que deve ser. Nós, que, somos soberanos, que somos cidadãos americanos, temos o dever de ajudar qualquer Presidente que esteja fadado a ser um grande Presidente. Se Franklin Roosevelt foi um grande Presidente, ele o foi principalmente graças à inteligência articulada do povo americano durante o tempo de seu mandato na Casa Branca.
4. APRECIAÇÕES FINAIS
Nos capítulos 3.1 e 3.5, Elliot Roosevelt descreveu, como testemunha viva da história, os principais lances do conflito mundial dos anos 40; no capítulo 3.6 o autor identifica com clareza os desvios a que estavam sendo submetidos os compromissos assumidos pelas principais potências, logo ao término da guerra, especialmente devido à morte do presidente Roosevelt. Seu filho Elliott vaticinou, já em 1946 ou 1947, as graves crises que o mundo vivenciaria, em razão do abandono daquela visão de futuro traçada por seu pai.
A humanidade viveu dramaticamente esses descaminhos. As colônias, não libertadas segundo os acordos firmados, buscaram a sua libertação pelas armas, gerando conflitos que ainda hoje, 7 décadas após a guerra mundial, estão vivos. O neo-colonialismo, que se seguiu ao colonialismo, promoveu guerras, uma após outra, como as da Coréia, Vietnã, Golfo Pérsico, Iraque, etc. enquanto um capitalismo predador sufocou a humanidade até explodir a economia dos países mais ricos, arrastando os mais pobres no maremoto econômico que sacudiu o mundo.
Algo de novo?
Certamente não. Basta ler Elliott para perceber que a volta ao começo, à grande crise de 1929, não era imprevisível. Em sua conclusão o autor menciona o caso do Irã, dizendo: “seria alta comédia, se não fosse ao mesmo tempo ladeada de amargura”. Passados mais de 60 anos, qual é uma das grandes manchetes do dia? O Irã, com uma cronologia de lutas e dissenções, que o Estado de São Paulo resume em sua edição de 21/03/09, começando pelo golpe de 1953 urdido pela CIA, passando pela guerra de 1980 financiada pelos EUA e pela classificação de “Eixo do Mal” em 2002, para desembocar num impasse de alto risco, é bem a conseqüência do abandono da política de paz preconizada por Roosevelt.
Felizmente parece que o novo presidente dos EUA, Barack Obama, enxerga isso. Reconhece a gravidade das intervenções de seu país no resto do mundo e vai procurar uma mudança de rumos. Reconhece, enfim, que o país, “forjado pela democracia e pela crença inabalável no poder da empresa e oportunidade”, “fundados em nossos valores”, segundo disse o ministro Gordon Brown, traçou para o mundo um modelo de democracia e de livre iniciativa que só serviu para ele próprio. Até que a criatura se voltasse contra o criador…
Será necessário, portanto, consertar a economia nos moldes do New Deal e, para isso, o ministro inglês quer um New Deal “Global”. Mas é preciso recordar que o New Deal de Roosevelt era parte de um ideário de solidariedade entre os povos e de auto-determinação das nações, sem o qual poderemos ver tudo repetido de novo.
E mais ainda: essa aliança das nações pela paz tem necessariamente que levar em conta a sustentabilidade do desenvolvimento e dos limites das ações contra o meio ambiente. Sem isso, de nada valerá a solidariedade universal e muito menos o direito às oportunidades.
O discurso de Obama até aqui é bom, salvo no que respeita ao compromisso de garantir os altos e inviáveis níveis de vida de seus governos, que vem sendo sustentado pelo resto do mundo, como já declarara De Gaule décadas atrás. Mas falta a outra metade do discurso, que é o compromisso com os interesses globais da humanidade, com a equidade universal. Aí sim, será possível falar em um New Deal Global.

