PUXADINHOS DE MADEIRA
A Folha de São Paulo de 17/02/09 transmite críticas à construção provisória de “puxadinhos de madeira” em escola, com o objetivo de ampliar rapidamente a capacidade de atendimento aos alunos. E, em 19/02/09, o mesmo jornal transcreve o desagrado do Governador em relação à matéria anterior que, segundo ele, não vê o todo, mas pesca pequenos episódios para criticar a administração.
A discussão comporta dois aspectos: primeiro, porque a condenação a priori de escolas e casas de madeira? Segundo, é melhor ter uma solução simplificada, mas aplicável imediatamente, ou esperar a existência de verbas maiores, para resolver os problemas, sabe-se lá quando?
É importante, nesse particular, retroceder à administração Wladimir Piza, que implantou a atividade escolar na Prefeitura, nos idos de 1956. Preocupado com o enorme contingente de crianças que não tinham acesso à rede estadual de educação, o Prefeito resolveu implantar 2.000 salas de aula, para o que necessitava construir escolas em profusão.
Em pouco mais de um ano foram construídas as escolas necessárias, todas de madeira…Trinta anos após, muitos delas ainda funcionavam.
Atitude semelhante teve o prefeito José Tardelli, de Itapetininga, que, por volta de 1988, construiu escolas de madeira, a custo reduzidíssimo porque as fez aproveitando o eucalipto da grande reserva florestal que o Estado tem na região. Mais ainda, montou uma marcenaria que não só preparou o material para as construções, como também fabricou as carteiras e demais mobiliário necessário.
Há entretanto um preconceito com a construção de madeira. Quando fui Secretário de Estado da Habitação, em 1987/88, fiz desenvolver um projeto de casas populares de madeira, a serem fornecidas sob a forma de kits, que poderiam ser montados pelos interessados em poucos dias. A madeira seria proveniente do manejo sustentado dos parques florestais do Estado, que poderia produzir algo como 20.000 unidades por ano, a um custo irrisório. Mas a rejeição foi muito grande, em parte induzida por construtoras e fabricantes de materiais tradicionais de construção.
Os críticos não sabiam que mais da metade das habitações nos EUA é feita de madeira; que grande parte das construções chilenas também o é.
Evidentemente, não se trata de casas de material de tapume; mas é possível construí-las com conforto térmico e acústico, com madeira tratada contra fungos, em processo de aprimoramento progressivo. O argumento contra desconforto não procede, portanto.
Há o risco de incêndio. Mas ele só existe quando os fios condutores de eletricidade estão desencapados; quando a cozinha opera com gás, carvão ou lenha; quando as casas são coladas umas nas outras, facilitando a propagação do incêndio e dificultando o combate a ele.
Os investimentos necessários em escolas e em habitação popular são gigantescos, mormente quando se pensa em construir 1 milhão de moradias a serem vendidas por valor simbólico. A par de ser isso inviável, não há razão para que o futuro morador da casa popular, que ademais será seu proprietário, não pague nada por isso, ao mesmo tempo em que habitualmente tem telefones celulares e, por vezes, até automóveis. É preciso não estimular a crença de que não é preciso trabalhar, para poder viver condignamente.
Os “puxadinhos” – ao que se viu nas matérias citadas – são provisórios e, por isso, plenamente justificáveis. Mas ninguém poderia, de sã consciência, condenar edificações baseadas em matérias e processos construtivos mais baratos, que permitissem acelerar o seu usufruto por aqueles que deles necessitam.
Afinal de contas, sabe-se hoje que o atendimento da demanda habitacional atual, na Região Metropolitana de São Paulo, necessita 42 anos de construção, considerados os custos atuais e as verbas do Estado, que não são pequenas. Vamos abrir inscrições para os nossos netos?
Adriano M. Branco

