O MUNDO DOS DESPERDÍCIOS
Artigo publicado no jornal O Estado de São Paulo em 19/01/2009.
Tenho repetido à exaustão o grave problema que afeta hoje o mundo inteiro, que reside no fato de que a humanidade demanda recursos naturais em quantidade muito maior (30% a mais) do que a capacidade de reposição do globo terrestre. E, o que é pior, é que nem por isso a humanidade tem um nível satisfatório de vida. Basta ver que há 1,4 bilhões de pessoas vivendo abaixo do nível de pobreza para concluir que, se superarmos esse nível, o desgaste dos recursos naturais será ainda mais insuportável.
Urge, portanto, reduzir drasticamente o consumo dos recursos naturais, o que equivale a alterar profundamente os hábitos de vida. Não é possível continuar a gastar, em cada deslocamento por automóvel na Região Metropolitana de São Paulo, 26 vezes mais energia do que se o transporte fosse feito por metrô. Além disso, como o rendimento térmico dos motores de automóveis é muito baixo, cerca de 75%, ou mais, do combustível que ele consome se transforma em poluição, que exige mais recursos para reduzir os seus efeitos.
A conseqüência do fato apontado é que a Região Metropolitana de São Paulo perde, anualmente, só com problemas de transporte e trânsito, o equivalente a todo o seu orçamento anual.
Ter consciência disso já foi um grande avanço. Mas estamos ainda querendo enxergar os fenômenos econômicos segundo as relações de custo-benefício. Vale dizer que, se a despeito da enorme demanda de combustíveis e da utilização de processos altamente danosos ao meio ambiente, a receita e a despesa do transporte se equilibram, está tudo bem. É assim que historicamente a Cidade de São Paulo tem avaliado os seus transportes, optando pelo uso dos ônibus a diesel (de tecnologia ultrapassada) e erradicando o sistema de tróleibus. Na verdade, os custos ambientais, na sua maior acepção, são jogados na conta das “externalidades negativas”, suportadas por toda a comunidade. Hazel Hederson mostra em seu livro Mercado Ético que tais externalidades são mero eufemismo para encobrir custos reais, que cumpre reduzir.
Em 1982 eu me preocupava com o fato de que, no CEASA, jogavam-se fora 80 toneladas de alimentos vegetais por dia. Levei então o Instituto Mauá de Tecnologia a desenvolver uma sopa, enriquecida com proteínas, a ser enlatada, para garantir um ano de durabilidade, e distribuída pela população pobre. Chegou-se a bom termo e até se montou no CEASA uma pequena fábrica, com o apoio da fundação Ayrton Senna, hoje desativada. E porque?
Chegou-se (“eles” chegaram) à conclusão de que, produzida em pequena escala, a sopa custaria o mesmo do que outros alimentos enlatados, fabricados pela indústria de alimentos. Então, a viabilidade econômica estava comprometida. Pareceu verdade.
Empolgado com nossos estudos o eng. Roberto Muylaert, então presidente da Fundação Anchieta, mandou fazer reportagem sobre as diversas formas dos desperdícios brasileiros, editando em 1992 um filme denominado Brasil – País dos Desperdícios. É chocante o documentário, do qual extraio um depoimento estarrecedor. Entrevistado um pequeno produtor de milho em Minas Gerais, ele disse ter, habitualmente, perdas de 70%! São os carunchos, os ratos, a umidade, o transporte, etc. etc. que causam isso.
Espantada, a jornalista perguntou: “mas o senhor não pode melhorar o seu processo de armazenamento e transporte?”. Ao que ele respondeu: “fica muito caro”. E ela retrucou: “para isso você conta o financiamento do Banco do Brasil”. A resposta foi triste: “aí eu perco minha terra”…
Esse pequeno produtor – e as nossas grandes safras dependem muito dos pequenos produtores – encontrava, afinal, o seu equilíbrio econômico. Perdia 70% de sua safra, mas conseguia sobreviver, sem o risco de empenhar a sua terra para modernizar-se. A famosa “viabilidade econômica”, acoplada à “taxa interna de retorno”, estava resolvida.
O sitiante perdia 70% de seu produto; o CEASA jogava fora 80 toneladas de alimentos todos os dias. Mas, no frigir dos ovos (por falar em ovos, o município de Bastos – maior produtor do Brasil – perdia 10% de sua produção de ovos por falta de pavimentação de uma estrada de 15 km que, quando feita, reduziu as perdas para 2%…) estava tudo nos conformes. Na conformidade de um conceito econômico que não leva em conta as perdas ambientais, pois estas são meras externalidades negativas.
Veja-se que, se o pequeno agricultor perdesse só 10% de seu milho, ele poderia realizar a mesma produção em um terço da área, consumindo um terço dos fertilizantes, da água e da própria força de trabalho. Nossos descendentes, beneficiados por que o mundo não acabou, agradeceriam.
As milhares de toneladas de alimentos que se perdem no CEASA, nos transportes, etc., etc., significam demandas feitas à Natureza sem qualquer retorno.
Resolver esses problemas da produtividade nacional não é apenas um problema econômico: é, acima de tudo, uma “questão ética”, como bem demonstrou o cientista Samuel M. Branco em seu livro “Meio Ambiente, Uma Questão Moral”.
Mas a economia do País também agradeceria. Afinal de contas, segundo os autores do livro “Produtividade no Brasil: A Chave do Desenvolvimento Acelerado”, a produtividade do trabalho no Brasil equivale a apenas 27% daquela dos Estados Unidos. Nada mais importante hoje, diante da crise financeira mundial, do que investir na infra-estrutura para elevar a produtividade. Vice-versa, é de extrema importância elevar a produtividade para ter recursos para a infra-estrutura.
Isso significa que não é salvando a indústria de automóveis que vamos salvar o mundo. Melhor será investir na produtividade dos bens essenciais à vida, da educação à agricultura, passando pelos transportes sustentáveis. É no metrô, é nas sobras do CEASA, é na roça do caboclo que vamos encontrar saída para o nosso elevado nível de pobreza, sem desgastar o Planeta, vale dizer, sem comprometer a vida das gerações futuras.
Adriano M Branco

