Adriano Murgel Branco fala sobre sua carreira
1 – Este ano quem será agraciado com o título de “Eminente Engenheiro do Ano” é o engenheiro eletricista Adriano Murgel Branco. Ex – Diretor da CMTC, Ex-secretário de Transportes e de Habitação do Estado de São Paulo, atualmente, é diretor da AM Branco Consultores e preside uma entidade assistencial. Ele concedeu entrevista ao Jornal do Instituto de Engenharia
2 – Jornal do Instituto de Engenharia – Quando o senhor optou pela Engenharia?
AMB – As opções mais reconhecidas, na época eram as carreiras de médico, engenheiro e advogado. Por influência de meu pai e tios, já no ginásio eu escolhera a engenharia.
3 – Jornal do Instituto de Engenharia – O senhor é, então, de uma família de engenheiros? .
AMB – Tipicamente de engenheiros, todos eles ligados ao serviço público. Meu pai controlava as concessões municipais de eletricidade, transportes, gás, etc. Meu tio Catullo Branco idealizou o aproveitamento múltiplo do Rio Tietê, sob um conceito novo. Outro tio, Orlando Murgel, foi diretor de quase todas as ferrovias do Estado de São Paulo. Todos eles conversavam muito com os jovens, relatando suas experiências.
4 – Jornal do Instituto de Engenharia – Onde o senhor se graduou e como foi sua passagem pela Universidade?
AMB – Sou formado pelo Mackenzie, em 1956. Não fui o melhor aluno da turma, mas não fui o pior … Um estudante razoável. Dediquei-me muito à chamada política universitária, ocupando os cargos de Diretor do Centro Acadêmico e Vice-Presidente da União Estadual dos Estudantes. Nessa atividade, convivi com muitos estudantes de outras escolas e tornei-me um orador experiente e polemista. Escrevi muito, incorporando esse hábito à minha vida.
5 – Jornal do Instituto de Engenharia – Quais foram suas principais realizações?
AMB – Comecei a minha carreira como engenheiro da CMTC, onde fui chefe do laboratório de materiais, chefe das oficinas, chefe de departamentos de ônibus, bondes e tróleibus e chefe de Assessoria Técnica da Superintendência. Saí para dedicar-me à consultoria. Em 1963 fui trabalhar com o eng° Dilson Funaro, em cujas indústrias fiquei 10 anos. Mesmo assim, não me afastei de minha vocação pública, tendo me dedicado paralelamente à grande discussão das questões de trânsito e transporte coletivo que se deram em 1976/77 e também aos problemas de segurança rodoviária, sobre os quais produzi o meu primeiro livro. Após essa fase e mais dois anos de dedicação exclusiva à segurança das rodovias, aceitei convite do Dr. Olavo Setubal para a Diretoria da CMTC, onde me dediquei à implantação de um ambicioso plano de corredores de tróleibus, havendo modernizado por completo a tecnologia dos veículos. Após isso, voltei às atividades de consultoria, quando o Senador Montoro convidou-me para colaborar em seu plano de governo, o que fiz, nas áreas de transportes e de controle de enchentes. Eleito Governador, Montoro convidou-me para presidente da CMTC (através do prefeito interino) e para presidente do Metrô e Emplasa, funções que não aceitei por estar envolvido na implantação do Centro de Pesquisas do Instituto Mauá de Tecnologia. Mas aceitei colaborar como secretário executivo do Conselho de Infra-Estrutura e membro dos Conselhos Estaduais de Ciência e Tecnologia e de Energia.
6 – Jornal do Instituto de Engenharia – Quando o senhor foi convidado para ser secretário?
AMB – Quatorze meses após assumir o governo, Montoro convidou-me para ser Secretário dos Transportes.
7 – Jornal do Instituto de Engenharia – Como foi sua atuação?
AMB – Acredito que tenha sido boa. Dediquei-me de corpo e alma aos vários setores da Secretaria e aos seus órgãos dirigentes (VASP, DERSA, DER, DH, DAESP e FEPASA) procurando sanear as finanças e, ao mesmo tempo, planejar o futuro. O trabalho de gestão, dessa enorme corporação de 50 mil trabalhadores, foi planejado e acompanhado no detalhe. A marca mais visível foi o programa de estradas vicinais, através do qual contratamos 7.500km de estradas, concluindo 3.500km e deixando 4.000km em vários estágios de construção. Foram cerca de 500 estradas!
8 – Jornal do Instituto de Engenharia – Havia recurso para a implantação de todo o programa?
AMB – No início não. Mas o sucesso da gestão estimulou a alocação de novos recursos, inclusive federais. Com estes, conveniamos com municípios a construção de 340 estações rodoviárias de passageiros. Com recursos externos, lançamos o amplo Programa de Recuperação e Melhoria Ferroviária, assim como um grande programa de aumento de capacidade do setor rodoviário. Com o saneamento da VASP, modernizamos toda a sua frota. E assim por diante.
9 – Jornal do Instituto de Engenharia – E, hoje, como as coisas caminham?
AMB – Infelizmente muita coisa se perdeu no setor dos transportes. O sistema ferroviário foi abandonado e hoje 93% das cargas do Estado se transportam por caminhões; é o caminho para o colapso. A VASP foi vendida por dinheiro nenhum e faliu. Mas é melhor falar do que prosperou. Eu fui Secretário de Estado da Habitação por dois anos, no Governo Quércia. Criei o Fórum Nacional de Secretários de Habitação (como o fizera na área dos transportes), o que redundou numa mobilização nacional em favor da idéia de que moradia popular deveria ser tratada como encargo público e não mera operação de financiamento, como o fora até então. No Estado de São Paulo a tese vingou, gerando verbas próprias que permitiram construir 400 mil casas de lá para cá.
10 – Jornal do Instituto de Engenharia – Eu vi que na entrada do seu escritório há muitos diplomas.
AMB – É verdade. Eu recebi homenagens de quase 100 municípios e de várias outras entidades; 30 delas representadas por títulos de cidadania. Foi o reflexo de muito trabalho e muita presença. Só no ano de 1986, visitei 240 municípios. O Diploma de que mais me orgulho é o da Ordem do Mérito do Trabalho.
11 – Jornal do Instituto de Engenharia – O senhor foi convidado para ser secretário outras vezes?
AMB – Sim. Ao todo, fui convidado 6 vezes para secretário de estado e 3 vezes para secretário municipal. Para direção de empresas públicas 4 vezes. Mas só aceitei 3 desses 13 convites. Exerci também cargos de conselheiro em seis entidades públicas estaduais e uma municipal. E fui diretor de cinco empresas privadas.
12 – Jornal do Instituto de Engenharia – E se o senhor fosse convidado de novo?
AMB – Não aceitaria. Com 77 anos já não tenho a energia de 20 anos atrás. Também guardo algumas decepções que me afastaram dos cargos públicos. Mas sinto não ter podido colaborar mais intensamente com alguns governadores, embora esteja sempre pronto para o debate dos problemas públicos.
13 – Jornal do Instituto de Engenharia – E o magistério superior?
AMB – Ele me acompanhou a vida inteira. Nos primeiros sete anos da minha carreira eu também fui professor no Mackenzie. Depois participei da fundação do Instituto Mauá de Tecnologia e fui professor da sua Escola de Engenharia, até completar 35 anos de atividade e me aposentar. Lá eu lecionei Administração Industrial e Organização. Também lecionei no nível de pós-graduação de segurança de tráfego e criei o curso de aperfeiçoamento de engenheiros na área de administração. Depois fiz o projeto de uma faculdade de administração, aprovada após a minha aposentadoria. Trabalhei muito pelo Instituto Mauá. Assim foi esta carreira até hoje.
14 – Jornal do Instituto de Engenharia – O senhor foi para Moçambique. Em que momento e por quê?
Há trabalhos que são missionários e que não se pode recusar. Eu fui quatro vezes a Moçambique, a convite do Ministro dos Transportes e do embaixador brasileiro lá. Tive a oportunidade de participar de seminários sobre a economia local e de produzir dois estudos alentados sobre transportes e habitação, acompanhado em duas vezes por excelentes amigos: o prof. Mário Pinheiro de Andrade (que levou novas técnicas de planejamento) e o eng. Francisco Christovam, meu parceiro em transportes e habitação. Posso dizer que fiz a minha parte, sem qualquer remuneração, por um país pobre e sofrido.
15 – Jornal do Instituto de Engenharia – O senhor tem atuado atualmente em entidades do terceiro setor. O senhor pode falar um pouco sobre isto?
AMB – Zelar pelos mais desassistidos é um dever, mas também uma alegria. Quando perdi minha primeira esposa procurei algum consolo realizando um plano nosso: criar uma creche em Itanhaém. Faz 20 anos. Temos 90 crianças pobres. Somos ajudados por vários bons amigos.
16 – Jornal do Instituto de Engenharia – Quais são suas recomendações para recém-formados e estudantes de Engenharia?
A engenharia incorpora cada vez mais às suas atividades os conceitos de sustentabilidade, de equidade social, de responsabilidade social e ambiental. Essa é a direção a tomar e não a do exibicionismo monumental. Quando você vê os monstrengos erigidos para engrandecer as ditaduras, como o de Mussolini em Milão, o do general Franco em Madri, o de Hitler em Berlim, e compara com a catedral de Brasília, que representa a súplica e ao mesmo tempo a doação, percebe que a grande obra do engenheiro não é aquela do mero peso em concreto. Plínio de Queiroz, ex presidente do Instituto de Engenharia e do Instituto Mauá de Tecnologia e engenheiro notável, teorizava, no fim de sua vida, sobre o que chamou de “engenharia global”, ou seja, a engenharia com objetivos sócio-econômicos e ambientais.
17 – Jornal do Instituto de Engenharia – Quais são suas sugestões para os problemas de infra-estrutura no Brasil?
AMB – A infra-estrutura brasileira está plena de gargalos, que impedem o desenvolvimento nacional: nas rodovias, ferrovias, portos, aeroportos, etc. Esse atraso na infra-estrutura é decorrência das quase duas décadas em que a economia brasileira foi manietada pelas regras do Consenso de Washington, hoje tidas como desastrosas para os países pobres. A crise mundial, entretanto, está apontando para o investimento em infra-estruturas como solução para os problemas do desenvolvimento. É hora de o Brasil sair da estagnação em que vive há três décadas.
18 – Jornal do Instituto de Engenharia – Mas e a associação criada por empresas ferroviárias?
AMB – O modelo de concessão ferroviária não funcionou. As ferrovias abandonam os trechos menos lucrativos, como se eles não constituíssem obrigação contratual; querem ficar só com o filé. Ademais, não investem nem de longe o que se esperaria que fizessem. Os resultados alarmantes estão à vista: São Paulo transporta 93% de suas cargas por caminhão, enquanto esse índice é de 30% nos Estados Unidos.
19 – Jornal do Instituto de Engenharia – Por falar em PAC, qual a sua opinião a respeito desse programa?
AMB – É uma benção dos céus o Brasil ter, neste momento, um programa de investimento em infra-estrutura, que é o caminho apontado para fugir da recessão. Eu falei disso nas duas vezes em que fui Secretário de Estado e apoiei os meus estudos no retorno social dos investimentos prioritários. Mas é necessário consolidá-lo e ampliá-lo. A Região Metropolitana de São Paulo sozinha tem carências de infra-estruturas que demandarão mais de 150 bilhões de reais em 10 anos. Para enfrentar esses grandes números é preciso conhecer os retornos e utilizar meios de captar as mais valias oriundas dos investimentos. Não dá para dizer que a Região não terá 50 bilhões de reais em 10 anos, para os transportes, quando ela própria perde entre 30 e 40 bilhões todos os anos, devido aos problemas de trânsito e de transporte. Por outro lado, é preciso uma união de forças políticas em favor do PAC, ao invés do diz-que-disse que se vê por aí.
20 – Jornal do Instituto de Engenharia – A iniciativa privada não poderia ajudar?
AMB – A utilização dos recursos e dos créditos da iniciativa privada para desenvolver um grande programa de infra-estruturas é a chave da solução. Mas é preciso trocar a especulação imobiliária pelo investimento na requalificação urbana, gerando resultados que paguem os investimentos em equipamentos de serviços públicos necessários. Essa é a linha de ação em desenvolvimento pela Prefeitura, que prepara a Lei Geral da Concessão Urbanística.


Fico muito satisfeito de saber que o ilustre engenheiro Adriano Murgel Branco foi agraciado com esse título. Acompanhei seu trabalho como Secretário Estadual de Transportes do Governo Montoro, ficando muito bem impressionado pelo seu trabalho.