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A UNIVERSIDADE VIRTUAL

      Em 1980 estávamos todos preocupados em dar um grande impulso nos transportes brasileiros e, para isso, foram programados debates prévios entre EBTU, GEIPOT, CNPQ, FINEP, ANTP e colaboradores de muitas origens. Lembro-me então de uma reunião havida no Instituto Mauá de Tecnologia em que se discutiu a necessidade de formação de pessoal para a grande tarefa que se desenhava para um horizonte de 20 anos.

      Alguém trouxera um estudo mostrando que, até o ano 2.000, seria preciso formar/treinar 9 milhões de pessoas para o setor, desde operários das ferrovias até comandantes de aviação. Enfim, tudo. Naquele momento o pessoal especializado do Geipot aventou a possibilidade de aquele organismo se ocupar dessa tarefa.

      Com poucos cálculos ficou visível a absoluta impossibilidade de algum órgão governamental carregar sozinho aquela cruz. Então lembrei de que o Brasil tem milhares de salas de aula ociosas e milhares de técnicos e professores que poderiam compor a grande força tarefa. Ficaria para o Governo estabelecer o programa, enunciar as disciplinas, escolher os parceiros e pilotar o grande comboio.

      Aos poucos a idéia foi ganhando corpo, chegando a uma concepção que denominamos de “universidade virtual”. E, mais adiante, expandimos essa concepção para cruzar a capacitação de pessoal com gerenciamento dos projetos. Para isto, credenciar-se-ia um conjunto de empresas, públicas e privadas, que necessitassem de novas tecnologias, para encarregá-las de conduzir projetos, dentro da universidade virtual, que interessassem a mais de um cliente. Por exemplo, para desenvolver-se um modelo novo de desvio ferroviário, de interesse da FEPASA, da RFFSA e do Metrô, seria encarregado este último de gerenciar o projeto, valendo-se do concurso técnico, por exemplo, do IPT, parceiro da “rede tecnológica”.

      Esse conjunto de procedimentos empolgou tanto a FINEP que seu diretor presente à última reunião, o saudoso brigadeiro Hélio Keller, falou grosso: todos os projetos que se realizarem sob esse formato serão financiados pela FINEP!

      A idéia básica foi aprovada por todos. Mais tarde eu a reapresentei ao Conselho Estadual de Ciência e Tecnologia (por volta de 1983) que a acolheu. Mas, como tantas coisas neste País, não prosperou.

      Leio agora, entretanto, notícia estampada nos jornais segundo a qual “São Paulo vai sediar 35 redes de pesquisas” (Estadão, 25/11/08). E o que S.Paulo vai fazer é parte de um plano integrado nacional, através do qual o Ministério de Ciências e Tecnologia comporá uma rede de pesquisa estratégica, com mais de 90 Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia. A proposta é ótima; mas precisa não esquecer de dar guarida à pesquisa aplicada, bem como à necessária presença do demandatário dos estudos e dos centros educacionais e de pesquisa privados. É preciso estimular o cliente e contar com o apoio dele, inclusive financeiro.

      Lembro-me de outro episódio, da mesma época, que é muito significativo. Recebi no Instituto Mauá de tecnologia, dois amigos que vinham obtendo muito sucesso na produção e venda de cosméticos e que desejavam trocar idéias, sem compromissos. Ao longo do papo, eu lhes disse: “porque não pesquisar a tecnologia dos índios? Quem tem a capacidade de curar picada de cobra com produtos da selva, com certeza será capaz de ter ou desenvolver cosméticos. Será uma experiência muito interessante montar um grupo de trabalho composto de cientistas e pagés…”

      Parecia brincadeira, mas não era. Eu colhera recentemente em Caracas alentada bibliografia sobre a selva amazônica e seus milagres e estava convencido da viabilidade da proposta. Os meus interlocutores também se convenceram.

      Perguntem hoje, aos meus amigos da Natura, se não foi um sucesso. Sucesso de Tecnologia, sucesso comercial e sucesso nas relações entre os técnicos e os indígenas, muito bem conduzidas pelos empresários. 
 

Adriano M. Branco

27/11/08

 


 

 

 

Sobre Adriano Branco

Eng. Adriano Murgel Branco Adriano Murgel Branco, paulistano de 76 anos, é administrador e engenheiro eletricista formado por uma das melhores escolas de engenharia do país - a Universidade Mackenzie. Branco, foi consultor no Brasil e em Moçambique, professor universitário, ocupou inúmeros cargos públicos, entre eles o de secretário da Habitação e secretário dos Transportes do Estado de São Paulo, nos anos 80. Ocupou também, cargos privados como o de diretor da Coplan, da Trol S.A., da TCL, da Caio entre outras. Ministrou palestras no Brasil,México,Colômbia,Venezuela,Equador, Paraguai, Argentina, Uruguai, Peru e Chile sobre transporte, segurança rodoviária e habitação. É autor de mais de duas centenas de artigos em jornais e revistas, publicadas até na Inglaterra e Alemanha. Em 1972, foi publicada sua primeira monografia sobre Acidentes Rodoviários; em 1975 é publicada a Normatização Brasileira de Defesa Rodoviárias. Teve também três de suas monografias publicadas em 1978: Trólebus,Tendências Modernas dos transportes Coletivos Pneumáticos e Transportes Urbanos por Trólebus; nos anos oitenta foram publicadas: Uma visão Sistêmica do Transporte Urbano, O Transporte Urbano no Brasil e A Prevenção dos Recursos Hídricos no Estado de São Paulo. Seus livros mais ressentem são Segurança Rodoviária, O Financiamento de Obras e de Serviços Públicos, em parceria com o Adilson Abreu Dallari, e Desenvolvimento Sustentável na Gestão de Serviços Públicos, em parceria com o economista Márcio Henrique Bernardes Martins.

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