A CRISE NO SETOR AUTOMOBILÍSTICO
O jornal “O Estado de São Paulo” nos brindou, em sua edição de 23 de Novembro, com duas paginas de debate sobre o sério problema da crise automobilística nos EUA, com evidentes reflexos no mundo todo. Transcreveu um artigo de um eminente professor de Harvard e publicou duas matérias “Made in Brasil”, mas com rica colheita de opiniões norte-americanas abalizadas, sobre o tema.
Em linhas gerais, todos apontam como graves erros da indústria automobilística americana o descaso com as regras mais comezinhas de administração e a produção cada vez maior de veículos grandes, consumidores de combustível em excesso, poluidores e perigosos nas estradas.
Não é de hoje que critico essa linha produção, inclusive no meu livro “Segurança Rodoviária” publicado em 1.999.
Advoguei inclusive a proibição de uso de veículos agressivos, cheios de badulaques externos que agravam os acidentes. Algo como os chifres de boi nos automóveis texanos…Os carros dessa linha são, ademais, instáveis (veja a advertência de um dos modelos brasileiros, feita pela fábrica, segundo a qual o veiculo pode tombar!), devendo se impor para eles, menor velocidade.
Tudo errado há muito tempo. Os automóveis americanos são os mais poluidores porque há um consenso nacional de que não se deve limitar a poluição. Consenso que levou os Estados Unidos a rejeitar o Protocolo de Kyoto. E hoje os americanos se defendem, acusando a China de ser o país mais poluidor, esquecendo (ou omitindo a informação) de que aquele país tem população 4 vezes maior do que a americana, o que vale dizer que sua poluição “per capita” é 4 vezes menor do que a dos EUA.
Mas também a China está errada nessa corrida ao automóvel. O mundo inteiro precisa tomar consciência de que os hábitos de consumo da humanidade toda já a levaram a consumir mais recursos naturais do que a Terra pode repor, mesmo tendo 1,4 bilhões de pessoas abaixo do nível de pobreza. Os EUA consomem 5 vezes mais de que sua capacidade de reposição.
Para onde isso vai?
Em estudo feito em São Paulo 10 anos atrás eu já constatara que uma viagem media por automóvel, na Região Metropolitana, consome 26 vezes mais energia do que a viagem media por metrô. E consome energia poluente e escassa.
O que se diz, em contrapartida, é que custa muito caro o investimento em metrô. Mais ainda, os articulistas citados crêem que o automóvel veio para ficar e os EUA não terão como fugir do subsidio à cambaleante indústria automobilística.
Em outra época, foi a General Motors que financiou a empresas de transporte público nos EUA para retirarem os bondes e os tróleibus, substituindo-os por ônibus, e estimulando os automóveis. Deu até processo que, lá como cá, não resultou em nada.
Enquanto as mutretas deram certo, inclusive o jogo escuso dos financistas, com os dirigentes das empresas ganhando muitos milhões de dólares por ano, valeu a economia de mercado, a “mão invisível do mercado” como quis Adam Smith, mas como a defenderam vigorosamente ilustres economistas como Fredman, que acreditava que o lucro das empresas era sua única razão de ser. Mas as contas não deram certo e os ferrenhos adeptos da não intervenção do Estado na economia realizaram no mundo todo a maior intervenção da história econômica.
Mas voltemos à comparação entre o transporte individual e o público. A diferença de consumo de energia não incomodou ninguém, sobretudo até 1970, quando o barril de petróleo custava dois dólares. Veio a incomodar, porém, quando se percebeu que o petróleo poderia acabar (ou encarecer sobremaneira), que a poluição ambiental começava a causar desastres irreversíveis e que o congestionamento das cidades assumia custos crescentes e gigantescos.
As cidades americanas enfrentaram estes problemas investindo bilhões de dólares no sistema viário, moldando cidades pouco concentradas, em geral, porque o automóvel resolvia os deslocamentos. Mas nós, só remetemos para a periferia os pobres, dependendo essencialmente dos transportes coletivos, cuja insuficiência crescente legou congestionamentos insuportáveis.
Hoje se avalia que os congestionamentos na Região Metropolitana de São Paulo custam à coletividade algo como 40 bilhões de reais por ano. E diz-se que não temos recursos para os planos de transporte público de massa (ver Prioridade na Rede), avaliados em cerca de 50 bilhões de reais em 10 anos.
É claro que a população, aplicando boa parte da sua capacidade aquisitiva em poluição, perda de tempo no congestionamento, perda de produtividade no trabalho quotidiano, sem qualquer resultado produtivo, acaba não tendo poupança capaz de dirigir aos investimentos produtivos, como seria o financiamento das obras públicas.
Temos os recursos, mas jogamos fora!
Mas o tema não é novo . Tenho já escrito – e vou repetir todos os dias – que, em 1958, já se constatara que as perdas causadas à população da Cidade pelo mau transporte custavam o equivalente a uma vez e meia o orçamento da Cidade. Hoje é a mesma coisa, incluindo as perdas na RMSP. Conclusão: de 1958 a 2008 (50 anos) desperdiçamos 1 trilhão de dólares!
Estas contas, sem ainda enfatizar as conseqüências sociais dessa situação, nos mostram que está no transporte coletivo – e só nele – a solução do problema. Se não tivemos visão de futuro para enxergar isso, que aproveitemos a triste experiência que, aqui, causam perdas no transporte; lá proporcionam a falência do País.
Jeffrey Sachs, citado na reportagem de Sergio Augusto, admite que a completa reformulação da indústria automobilística, mediante uma “vital” parceria com o Governo, é essencial para solucionar a debacle financeira, a crise energética e a catástrofe ambiental. Na minha opinião, não soluciona mais, sem o transporte coletivo.
Mas havemos de reconhecer que a proposta é melhor do que dizia o magnata americano Rupert Murdoch, citado por Sergio Augusto, ante a notícia da invasão do Iraque: “a guerra seria a melhor coisa do mundo do ponto de vista econômico. Melhor do que a redução de impostos em qualquer país”.
Adriano M. Branco
26/011/08


Sólidas argumentações sobre tema da mais alta relevância, abordando o interesse social e, em especial, o descontrolado consumo de energia que a humanidade, como um todo, se faz de muda e surda, esperando por um milagre que permita continuar com seus predatórios e dispendiosos costumes.