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De Branco a Branco

(Resposta oferecida por Adriano Branco em Março de 1985, ao artigo de Frederico Branco, publicado no Jornal da Tarde em 27/02/1985, com o mesmo título)

 

 

Prezado Frederico

 

Foi uma alegria ler a sua carta publicada em 27/Fevereiro/1985 pelo Jornal da Tarde, sob o título “De Branco a Branco”, pois não só recebi notícias suas como tive o ensejo de, aproveitando a sua colaboração, prestar-lhe os devidos esclarecimentos, bem como à coletividade. Peço-lhe escusas, de saída, por nem sequer saber que você possui casa em Itanhaém e, assim, não ter cuidado adequadamente das estradas que o conduzem ao justo lazer.

Infelizmente eu andava distraído com a renovação de 3.500 quilômetros de rodovias que, em todo o Estado, encontrei quase intransitáveis, por absoluto abandono da conservação; com crateras nos acostamentos da Castello Branco, da D. Pedro I e outras, que andavam matando gente; com o “funil da morte” em São José do Rio Preto, com a “estrada da morte”, assim classificada por oito bispos da região de Barretos, com os 12 “trevos da morte”, que já cataloguei nos reclamos da coletividade interiorana; com o asfaltamento de quatro mil quilômetros de estradas vicinais – que pretendo realizar – onde tantas vezes o pequeno lavrador tem perdido todo o fruto do seu trabalho, porque a safra não escoa no tempo das chuvas; com a centena de passarelas sobre as rodovias, em locais onde morrem pessoas a todo instante; com a conservação das estradas de terra municipais, para que a professora possa chegar ao grupo escolar, o leite possa ser levado à usina, o bóia-fria possa ir ao trabalho, o transporte coletivo possa operar. Essas coisas aborrecidas, que falam de trabalho, de acidentes e de lama ao longo de 160.000 quilômetros de estradas rurais, de 20.000 quilômetros de rodovias estaduais que escoam a produção, acabam levando-nos a esquecer dos amigos e dos parentes que precisam descansar no Litoral.

Por isso lhe agradeço a chamada de atenção. Lembro-me de meu avô referir-se aos 17 irmãos que tivera. Imagino quantos primos, como você, eu tenho neste Estado, aos quais não estou dando a devida atenção.

É verdade que muitos deles e outros amigos agora se fazem lembrar; tantos deles me têm procurado para colaborar, recordando a estradinha que precisa ser asfaltada ou oferecendo a competência de seus filhos e de seus amigos para o trabalho nas empresas públicas. Vários deles foram nossos adversários políticos e críticos ideológicos; mas são altruístas e querem cooperar com o governo.

Vou consertar a estrada que nos leva a Itanhaém; afinal de contas eu também tenho casa lá. E tenho um sítio, onde abrigo o meu bode, para não ter que levá-lo no automóvel e passar pelo sofrimento que você padece com o seu cachorrinho, coitado. Você pensou que eu poderia estar indo por outro meio, que não a estrada; talvez de dirigível. Não meu caro! Eu também sofro naquela Pedro Taques infernal, que o Estado maldosamente construiu para nos tirar o prazer de viajar pela praia. Por isso, vou consertá-la e vou duplicá-la, de Cubatão à Praia Grande. Afinal, a família tem várias casas em Itanhaém…

É verdade que agora me sobra pouco tempo para ir descansar. No carnaval você foi prudentemente na sexta-feira pela manhã. Mesmo assim, encontrou tráfego difícil de descida, pois não nos havia ocorrido suspender o tráfego dos caminhões, esses chatos que insistem em transportar as riquezas nacionais, para que os turistas ganhassem aí preciosos 15 minutos da descida da serra. Eu realmente fico um pouco na dúvida se não poderá ocorrer algum prejuízo à sociedade, proibindo uma semana inteira o transporte de carga no sistema Anchieta-Imigrantes. Fico preocupado com algum congestionamento do Porto de Santos que isso possa causar.

 Mas acho que você tem razão. Afinal este é o país do carnaval, que bem pode começar na sexta-feira. Eu, infelizmente, só pude ir sexta à noite e dei uma paradinha na Imigrantes, até a uma da manhã de sábado, para ajudar o Dr. Bottura, presidente do DERSA, que comandava pessoalmente, com toda a sua equipe, a coordenação do tráfego nas estradas, apoiado no serviço magistral da Polícia  Rodoviária e na colaboração verdadeiramente emocionante da Jovem Pan. Na outra ponta das comunicações estava o Dr. Leão, diretor do Departamento Hidroviário, agilizando as balsas do Guarujá, de Bertioga, da Ilhabela. Fiquei comovido com a dedicação dos meus companheiros, que voltaram à faina em todos os outros dias do carnaval, para minimizar o sofrimento dos que precisam ardentemente do lazer.

Vai melhorar ainda; vamos duplicar de vez a Piaçaguera-Guarujá e aperfeiçoar a tecnologia operacional do Sistema Anchieta-Imigrantes. As balsas, que estavam indo a pique no governo passado, deram show no carnaval; mas também vão receber reforço de verbas. Nós só não vamos poder é fazer uma nova descida da serra, que seria a glória! Mas isso não dá! Custa 200 milhões de dólares e parece muito dinheiro só para aliviar o tráfego em três ou quatro fins de semana prolongados, pois em todos os outros dias não há problemas. E se eu tivesse esse dinheiro, primo, asfaltaria mais quatro mil quilômetros de estradas vicinais ou atacaria o grande programa de melhoramentos da rede básica do Estado, que tem prioridades que já somam três bilhões de cruzeiros! Problemas muito mais sérios do que os buracos que os turistas indisciplinados fizeram nos acostamentos da Pedro Taques.

Para finalizar, caro Frederico, após lhe prometer tantos melhoramentos para facilitar o seu merecido lazer, tenho de lhe dizer que, infelizmente, não posso dispensar o seu rico dinheirinho para o pedágio. Eu sei que 3.400 são pesados para quem faz uma viagem de automóvel a Itanhaém. Afinal de contas, só o custo de automóvel – ida e voltam – já beira a casa dos 150.000. E tem a bóia, a cerveja e a papita do totó. E o cigarro, meu Deus, como anda caro; isso sem falar do whisky, que ficou proibitivo.

O governo tem-se preocupado com isso. Quando o pedágio foi instituído, há 14 anos, na Dersa, você pagava cerca de dois dólares ou o equivalente a 14 litros de gasolina. Com o valor daquela tarifa você comprava 20 exemplares de jornal. Agora, o minguado pedágio vale menos de um dólar, não paga dois litros de gasolina e mal chega ao preço de três jornais. Mesmo assim, é indispensável.

Neste ano, estamos pretendendo gastar, só na conservação de estradas, 820 bilhões de cruzeiros. A TRU, taxa Federal que todo mundo pensa que sustenta esses serviços, vai entrar com 50 bilhões, sendo 25 condicionados a novos investimentos determinados pela União. O pedágio ajuda mais: ele vai colaborar com 180 bilhões. As estradas da Dersa, que são todas pedagiadas, serão auto-suficientes. Mas as ampliações, como a duplicação da Pedro Taques e outras, tem de ser feitas com o rico dinheirinho do contribuinte, principalmente daquele que sequer tem automóvel, que, é a maioria da população e de já está arcando com mais de 70% da própria conservação. Você não acha justo que o interessado direto, o próprio usuário, pague um pouquinho mais?

Sinceramente agradecido a você por lembrar-se com conselhos tão úteis e proporcionar-me este bate-papo, subscrevo-me.

 

 

Adriano M Branco

24/07/08

 


 

 

 

Sobre Adriano Branco

Eng. Adriano Murgel Branco Adriano Murgel Branco, paulistano de 76 anos, é administrador e engenheiro eletricista formado por uma das melhores escolas de engenharia do país - a Universidade Mackenzie. Branco, foi consultor no Brasil e em Moçambique, professor universitário, ocupou inúmeros cargos públicos, entre eles o de secretário da Habitação e secretário dos Transportes do Estado de São Paulo, nos anos 80. Ocupou também, cargos privados como o de diretor da Coplan, da Trol S.A., da TCL, da Caio entre outras. Ministrou palestras no Brasil,México,Colômbia,Venezuela,Equador, Paraguai, Argentina, Uruguai, Peru e Chile sobre transporte, segurança rodoviária e habitação. É autor de mais de duas centenas de artigos em jornais e revistas, publicadas até na Inglaterra e Alemanha. Em 1972, foi publicada sua primeira monografia sobre Acidentes Rodoviários; em 1975 é publicada a Normatização Brasileira de Defesa Rodoviárias. Teve também três de suas monografias publicadas em 1978: Trólebus,Tendências Modernas dos transportes Coletivos Pneumáticos e Transportes Urbanos por Trólebus; nos anos oitenta foram publicadas: Uma visão Sistêmica do Transporte Urbano, O Transporte Urbano no Brasil e A Prevenção dos Recursos Hídricos no Estado de São Paulo. Seus livros mais ressentem são Segurança Rodoviária, O Financiamento de Obras e de Serviços Públicos, em parceria com o Adilson Abreu Dallari, e Desenvolvimento Sustentável na Gestão de Serviços Públicos, em parceria com o economista Márcio Henrique Bernardes Martins.

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