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TREM A VAPOR PARA BRASÍLIA – II

Adriano M. Branco

26/08/08

 

 

         Dias atrás reproduzi o artigo com o título acima, que escrevi em 28/05/1967. Naquele texto referi a reportagem publicada pela Folha de São Paulo, em 15/03/1967, sobre a inauguração do bendito trem, como sendo um precioso relato da inoperância – e até ridículo – feito da administração pública.

         Homenageio aqui o jornalista Almyr Gajardoni pelo “saboroso” relato que fez e que transcrevo abaixo, perguntando: será que mudamos muito, no setor ferroviário, nestes 40 anos?

 

 

PRIMEIRO TREM A BRASÍLIA CHEGA ATRASADO 4 HORAS

 

 

Folha de São Paulo

15/03/1967

 

 

Brasília, 14 (Folha) – Com quatro horas de atraso, chegou hoje a Brasília o primeiro trem de ferro, conduzindo o ministro Juarez Távora, que embarcara a poucos quilômetros da cidade. A composição levou 15 horas para percorrer 245 quilômetros (de Pires do Rio a Brasília) perfazendo pouco mais de 18 quilômetros por hora.

Cerca de cinco mil pessoas esperavam impacientemente das 12 às 18 horas para ouvir o “primeiro de trem de ferro em Brasília”. Pelas 16 horas, já desesperançosos, os populares começaram a abandonar o local, onde seria realizada a solenidade; às 15:30, todas as autoridades presentes, já se haviam retirado. O primeiro a deixar o local foi o prefeito Plínio Catanhede, acompanhado do brigadeiro Laveniere Wanderley, chefe do EMFA, do coronel Meira Matos, comandante da PE, e do arcebispo d. Newton de Almeida.

 

         BOATOS

 

         De vez em quando, soltavam-se fogos de artifício e surgiam novas esperanças no povo que começava a bater palmas e a gritar “lá vem ele”. Mas o trem não aparecia. Pelas 17 horas, já com três de atraso, começaram a surgir os boatos de que ele havia descarrilado ou que partes da estrada haviam sido destruídas pelas chuvas. Logo surgia uma notícia mais precisa: Um avião da FAB havia localizado a composição de 10 pequenos vagões parada a uns 60 quilômetros do Distrito Federal. Mas não se sabia o motivo da parada.

 

         CHEGADA

 

         Finalmente às horas, surgia no céu um pouco de fumaça e um fraco apito se ouvia. Era, finalmente, com quatro horas de atraso, o primeiro trem de ferro que chegava ao Distrito Federal. Milhares de foguetes estouravam. O povo gritava e batia palmas. À frente, vinha a máquina (do Batalhão Ferroviário), uma pequena “maria-fumaça”, com tração a lenha. Atrás, dez pequenos vagões (Alfa), que conduziam cerca de 40 pessoas, funcionários do DNEF, oficiais do Batalhão Ferroviário e o ministro da Viação, marechal Juarez Távora.

 

         BENÇÃO

 

         Parada a composição diante do palanque, dela desceu primeiramente o ministro Juarez Távora, que foi cumprimentado por diversos oficiais do Batalhão Ferroviário e por populares. Numerosos radialistas e pessoas cercaram o ministro. A máquina apitava sem cessar, o que o obrigava a gritar para que se fizesse ouvir. Anunciou que haveria uma pequena solenidade religiosa, com a benção da máquina pelo mons. Roberto, representante do arcebispo de Brasília.

 

         PRÊMIO

 

         Após solenidade, o ministro dirigiu-se ao palanque, de onde dirigiu rápidas palavras aos presentes. Ressalto logo de início que a estrada não estava conclusa e que “muitos meses ainda eram necessários para que o tráfego nela pudesse ser normal”.

         Disse o ministro Juarez Távora que a chegada do trem ao Distrito Federal “era um prêmio que apagava todos os dissabores e frustrações que porventura houvesse em sua vida pública”. Acrescentou que realizara um sonho de um velho, já na hora de se recolher à vida privada.

         Após declarar que a estrada ora inaugurada traria imenso progresso para o Brasil, rendeu homenagens ao Departamento Nacional de Estradas de Ferro (DNEF), ao Batalhão Ferroviário e aos engenheiros, operários e soldados “que trabalharam 24 horas por dia” para que a estrada ficasse pronta.

 

 

 

 

Locomotiva andou até de caminhão para realizar sonho do ministro

 

 

Almyr Gajardoni

Folha de São Paulo 15/03/1967

 

 

 

         O marechal Juarez Távora preparou a mais cara encenação da temporada, para coroar o seu último dia de ministro da Viação: a chegada a Brasília de um trem que, tendo cumprido uma suposta viagem experimental, afirmaria a conclusão da ligação ferroviária Brasília-Pires do Rio e, a partir daí, com o sistema ferroviário nacional.

 

O trem em que o Sr. Juarez Távora entrou em Brasília, apitando alegremente para a multidão entusiástica, não andou mais que cinco quilômetros sobre os trilhos custosamente assentados nos últimos dias. Na verdade, foi transportado de caminhão, para que o ministro pudesse ter a sua apoteose final. O verdadeiro trem que partiu de Pires do Rio, levando a comitiva de convidados, também não conseguiu andar muito (88 quilômetros) e a partir daí os viajantes foram transferidos para pequenas automotrizes que, mais leves e maleáveis, puderam cumprir – ainda assim a duras penas – todo o percurso.

 


A Estrada

 

A ferrovia Brasília-Pires do Rio tem apenas 245 quilômetros de extensão, e sua construção, mesmo em caráter precário, custou até agora a importância de 25.797.000 cruzeiros novos. O assentamento dos trilhos foi concluído às carreiras, em dois trechos, nas últimas horas, a fim de que pudesse ser feita a viagem experimental. Apesar de ter todas suas obras de arte concluídas, não apresentam, absolutamente, condições de tráfego, e a previsão dos técnicos que nela trabalham, tanto do DNEF quanto do Batalhão Ferroviário, é que somente no fim do corrente ano, na melhor das hipóteses, haverá viagens normais entre as duas cidades.

Quando o trem partia de Pires do Rio, ainda havia operários, ao longo do leito, assentando os últimos trilhos. Trabalharam sem interrupção durante os três últimos dias, sendo que a última refeição regular por eles feita foi o almoço de ontem.

Às 2h45 parte o trem de Pires do Rio, uma velha locomotiva “Maria Fumaça” puxando dois vagões de passageiros. Antes da partida, uma encenação enorme: vários radioreporteres da Capital da República subiram à máquina, entrevistaram o maquinista, gravaram e regravaram o apito. A comitiva não tem gente importante: o general Antonio Negreiros Andrade Pinto, diretor do DVT; o coronel Enio Pinheiro, comandante do 4º Batalhão Ferroviário; alguns técnicos do DNEF e jornalistas de Brasília.

São servidas bebidas e comidas. Todos que já haviam feito uma custosa viagem rodoviária para chegar a Pires do Rio preferiram dormir, apesar do impressionante sacolejo do trem. Tudo é otimismo ainda, embora já se saiba que choveu muito ali pela frente.

 

O trem ficou

 

Às 6h20, percorridos 88 quilômetros, chegou-se ao ponto final da viagem do trem. O apito gravado pelos radioreporteres não seria ouvido em Brasília. Todos foram transferidos para dez automotrizes, especialmente trazidas de Araxá, Araguari, Goiânia, Divinópolis, numa demonstração de que já se previa a impraticabilidade do trem.

As automotrizes partem a 25 quilômetros por hora, um pouco mais do que fazia o trenzinho. Mas logo, às 7 horas, chegaríamos ao primeiro trecho ruim da estrada: os trilhos mal colocados sobre os dormentes, presos por parafusos somente meio apertados alternadamente um sim, outro não. Os trilhos apresentam uma estranha e inacreditável sinuosidade, lateral e vertical. Demora-se duas horas para percorrer pouco mais de dez quilômetros.

Às 7h20, o primeiro ajuntamento de pessoas, num acampamento da companhia construtora. Foguetes e bandeirolas. Mas logo às 7h45 chega outro trecho muito ruim, onde os trilhos mal haviam sido acabados de assentar. Os operários, contratados a salário mínimo pelo Batalhão Ferroviário, estão ao lado da ferrovia para ajudar nas emergências, que são muitas. Praticamente os trilhos têm de ser ajeitados diante de cada carro, que avançam lentamente. A maioria dos dormentes está solta; os que têm parafusos, têm-nos apertados pela metade.

 

Descarrilamentos

 

Às 8h40, ocorrem três descarrilamentos. Os pequenos carros, leves e maleáveis, são repostos nos trilhos em pouco mais de trinta minutos, graças aos trabalhadores que ainda continuam a acompanhar o comboio, a pé. Aproveitam, então, para reclamar das condições de trabalho; a última refeição foi ontem, na hora do almoço; não dormem há três dias; os cigarros se acabaram.

Às 9 horas, completamos os cem quilômetros. Mas às 9h10 ocorre novo descarrilamento. Uma hora depois, chegamos a novo acampamento, onde há outro grupo de pessoas com bandeirolas e foguetes. A partir daí, entramos num trecho melhor acabado e as máquinas passam a desenvolver a impressionante velocidade de 40 quilômetros por hora. Pelo roteiro traçado para a viagem, estávamos atrasados duas horas. Mas o atraso foi inteiramente recuperado em duas horas de boa correria. Às 12h30, enxergamos a estrada asfaltada que vem de Belo Horizonte.

“Estamos chegando” – é o grito de todos. E estávamos mesmo, mas sem saber que o pior estava ainda por vir.

 

O pior em Brasília

 

Às 13h30, chegamos ao trecho final, já próximo a Brasília, cujos trilhos praticamente estavam sendo acabados de assentar. Todo comboio é retirado porque duzentos metros de trilho abriram a passagem do primeiro carro. Chove fortemente. Consertado esse pedaço, abrem-se novamente os trilhos e todos ficam retidos. Somente conseguimos andar novamente às 14h30, para pararmos em seguida, devido a novo descarrilamento. Dez minutos depois de reiniciada a marcha, descarrila o carro chefe, onde viajam o general e o coronel.

Entramos num trecho horroroso: lama, trilhos completamente tortos, dormentes soltos. A marcha pode ser medida aos palmos, senão mesmo aos centímetros. Somente às 17 horas vencemos o trecho ruim, que não tem mais de dois quilômetros de extensão.

 

O apito de Juarez

 

A essa altura, toda a comitiva está exausta, esfomeada e desejosa de chegar rapidamente. Mas o caminho está interrompido por uma locomotiva, também “Maria Fumaça”, que veio de caminhão especialmente para que Juarez cumprisse a sua promessa de entrar em Brasília apitando. Sai a locomotiva, para percorrer os últimos cinco quilômetros de ferrovia, seguida pelas automotrizes.

O “trem-faz-de-conta” foi direto a estação, mas as automotrizes iriam ainda precisar da ajuda do povo de Brasília para vencer esses últimos quilômetros. Novos enguiços no cruzamento de uma rodovia exigem cooperação de todos. Às 18 horas chegamos à estação, também com a ferrovia improvisada. Uma imensa multidão delira com o apito que o ministro faz soar. Seguem-se os discursos de praxe e a ferrovia dá-se por inaugurada. Para só funcionar daqui um ano.

 


 

 

 

Sobre Adriano Branco

Eng. Adriano Murgel Branco Adriano Murgel Branco, paulistano de 76 anos, é administrador e engenheiro eletricista formado por uma das melhores escolas de engenharia do país - a Universidade Mackenzie. Branco, foi consultor no Brasil e em Moçambique, professor universitário, ocupou inúmeros cargos públicos, entre eles o de secretário da Habitação e secretário dos Transportes do Estado de São Paulo, nos anos 80. Ocupou também, cargos privados como o de diretor da Coplan, da Trol S.A., da TCL, da Caio entre outras. Ministrou palestras no Brasil,México,Colômbia,Venezuela,Equador, Paraguai, Argentina, Uruguai, Peru e Chile sobre transporte, segurança rodoviária e habitação. É autor de mais de duas centenas de artigos em jornais e revistas, publicadas até na Inglaterra e Alemanha. Em 1972, foi publicada sua primeira monografia sobre Acidentes Rodoviários; em 1975 é publicada a Normatização Brasileira de Defesa Rodoviárias. Teve também três de suas monografias publicadas em 1978: Trólebus,Tendências Modernas dos transportes Coletivos Pneumáticos e Transportes Urbanos por Trólebus; nos anos oitenta foram publicadas: Uma visão Sistêmica do Transporte Urbano, O Transporte Urbano no Brasil e A Prevenção dos Recursos Hídricos no Estado de São Paulo. Seus livros mais ressentem são Segurança Rodoviária, O Financiamento de Obras e de Serviços Públicos, em parceria com o Adilson Abreu Dallari, e Desenvolvimento Sustentável na Gestão de Serviços Públicos, em parceria com o economista Márcio Henrique Bernardes Martins.

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