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TRÂNSITO, TRANSPORTE E PRODUTIVIDADE

Adriano M. Branco

05/08/08

 

 

 

         Sob o título acima, a Folha de São Paulo publicou, em 07/05/1967, mais um artigo meu em que se procurou correlacionar a produtividade nacional com os problemas do transporte e do trânsito.

         Passados quarenta anos, o que se vê é a confirmação das advertências feitas, já que se estima hoje que os prejuízos causados à sociedade metropolitana, em razão daqueles problemas, estão na casa dos 30 a 40 bilhões de reais por ano.

         É fruto da perda de produtividade anunciada no texto de 1967, que segue:

 

 

 

         Em artigo publicado por esta folha em 09 de abril procuramos demonstrar que só o aumento da produtividade nacional pode levar o país ao tão aspirado e decantado desenvolvimento econômico. Salientamos ainda, a importância de que se reveste a eficiência da atividade pública na luta pelo aumento da produtividade nacional.

         As deficiências do trânsito, numa cidade do tamanho e importância de São Paulo, constituem um dos focos importantes da improdutividade do país, tornando-se indispensável e urgente a sua correção. Por isso, temo-nos dedicado com grande intensidade ao problema, procurando contribuir, por pouco que seja, no processo de desenvolvimento nacional.

         Acabamos de entregar ao Departamento Estadual de Trânsito uma colaboração concreta, qual seja, o esboço de um programa de reorganização do Trânsito em São Paulo. Evidentemente, não se trata de um novo ”plano diretor de trânsito”, como pensariam alguns, capaz de dar nova estrutura ao trafego em nossa capital; mas consiste realmente num programa, esboçado em poucos dias, em que se procurou estabelecer a linha de conduta a ser adotada por quem deseje efetiva e tecnicamente resolver o importante problema.

         Qualquer plano que se preze não pode dispensar de analise detalhada dos objetivos que tem em foco, da situação existente e dos meios capazes de modificar o estado atual até transformá-lo na forma planejada. Assim, procuramos oferecer nesse programa um histórico dos problemas de trânsito e transportes em São Paulo, os fundamentos básicos de um plano de trafego urbano, compreendendo os aspectos principais e complementares da circulação e os métodos aplicáveis à solução; aproveitamos ainda a recente experiência, para elaborar uma analise do chamado plano da Fontec, apresentando sugestões sobre o que fazer a curto prazo e estabelecendo um programa de reorganização do DET e de planejamento do trânsito a médios e longos prazos.

         Dessas trinta e poucas páginas de relatório extraímos, porém, um tema ao qual pretendemos agora dar maior ênfase: o transporte. Temos insistido, ao longo de artigos, entrevistas e conferências, em que o transporte coletivo urbano exerce influencia decisiva no trânsito das cidades. É da necessidade básica da locomoção dos habitantes que decorre o sistema de transporte, a estrutura viária e, como última conseqüência, a disciplina da circulação, que é o trânsito.

         As cidades mais ricas do mundo tem se dado ao luxo de substituir o transporte coletivo pelo particular, chegando ao absurdo de possuir e utilizar na locomoção urbana cerca de um carro para cada habitante! Essa perspectiva assustadora de perda do senso de economia e de produtividade tem levado as administrações públicas a se preocuparem seriamente com a questão, concluindo que, a prosseguir tal irracionalidade, em pouco tempo os centros das grandes metrópoles se converterão em áreas exclusivamente utilizadas para a circulação de veículos. Alem dessa possível e onerosíssima desfiguração das cidades, outros problemas de caráter sócio-econômico e até mesmo de higiene e segurança da população surgem progressivamente, em conseqüência do abandono do transporte coletivo. Em Nova York, por exemplo, a maior preocupação das autoridades, hoje, relaciona-se com o elevadíssimo índice de poluição atmosférica, causado pelo excesso de veículos na via pública e capaz, com pequeno, acréscimo de criar condições de intoxicação generalizada dos habitantes.

         A perfeita consciência desse problema, por parte dos técnicos e administradores públicos europeus e norte-americanos (principalmente estes, que vivem já aspectos angustiantes da questão), está gerando uma renovação desusada do interesse pelo transporte coletivo, especialmente no campo do transporte rápido, subterrâneo, elevado ou de superfície. Nos Estados Unidos, especialmente, desenvolvem-se estudos de grande importância para dotar as cidades de modernos sistemas de transportes, mesmo naquelas onde já existem instaladas extensas redes de metropolitano.

         Não será por outras razões que o eminente professor e urbanista britânico Collin Buchanan, autor de relevantes estudos de trânsito para as principais cidades inglesas, afirmou em seu livro Trafic in Towns, que o aperfeiçoamento e o barateamento do transporte coletivo são a chave da solução do trânsito a longo prazo. Esse ensinamento de transcendental importância nos levou a afirmar no <<Programa de Reorganização do Trânsito em São Paulo>>, que há três tipos de medidas a adotar em nossa Capital, segundo os prazos de resultados: 1º) Reorganização administrativa do DET e correções imediatas (por tentativa) no sistema de circulação; 2º) A médio prazo, planejamento de trânsito a partir de um levantamento de origem e destino dos veículos e com aplicação de técnicas adequadas de tratamento estatístico e de engenharia de tráfego; 3º) A prazo maior, a planificação do trânsito a partir do plano de transporte coletivos de superfície, que é inevitável e urgente realizar em São Paulo.

         É, de certa forma, pouco razoável que se prossiga indefinidamente realizando obras viárias, que se destinam à circulação, sem que se planeje essa circulação. Em São Paulo, assume proporção muito avantajada a aplicação dos recursos orçamentários do Município nessas obras viárias, o que, por si só, justificaria um estudo aprofundado de suas reais necessidades. Apraz-nos, por isso, verificar que a mentalidade dos governos começa a se modificar, abandonando o lema de que São Paulo carece de tanta coisa que tudo o que se fizer é bom. É bom aquilo que não só resolva um problema da população, mas o resolva de forma permanente e econômica: não será bom a longo prazo, compensar uma deficiência de transportes públicos com a abertura de avenidas para uma circulação exagerada e antieconômica de automóveis particulares.

         A administração municipal de São Paulo está dando o melhor exemplo dessa consciência de planejamento e de produtividade, na medida em que determina o estudo detalhado do transporte metropolitano, bem como, agora há poucos dias, o do desenvolvimento urbano da cidade. Pena é que esses dois importantes planos tenham sido lançados isolada e descoordenadamente, não obstante a recente criação do Grupo Executivo de Planejamento (GEP) tenda a forçar a mutua vinculação de tais estudos. De qualquer maneira, é o principio de uma nova era, em se substituirá o empirismo, o imediatismo político e eleiçoeiro pela planificação urbana, inteligente e produtiva.

         Enquanto porém, se estudam o metropolitano e o desenvolvimento urbano, como ficarão o transporte de superfície e o trânsito? Por que não adotar medidas de médio prazo tendentes a aliviar o congestionamento das vias e a oferecer um transporte coletivo mais razoável? É sabido que a coordenação dos transportes públicos de São Paulo há muito que se perdeu, não obstante constituísse ela o principal objetivo dos alentados estudos da antiga Comissão de Estudos de Transportes Coletivos elaborados em 1940.

         A perda do controle do transporte coletivo pela CMTC, responsável legal por esse importante serviço público, gerou uma situação, a partir de 1960 de total improvisação da execução e de nenhum planejamento dos serviços. Há muitos anos que a nossa capital desconhece a origem e destino dos habitantes e que não tem qualquer possibilidade de planejamento dos transportes urbanos.

         Por esse motivo e tendo em conta o início de importante pesquisa a cargo das firmas empreiteiras do estudo de viabilidade econômica do metropolitano, vimos insistindo em que esses estudos ofereçam, como sub-produto, elementos para um reexame dos transportes de superfície. É inadmissível, mesmo, que não se aproveite essa oportunidade de ouro para reformular o sistema de superfície, oferecendo condições a médio prazo, de melhoria substancial do trânsito e de orientação mais econômica para os planos de obras viárias em execução.

         Já fomos, como mero sapateiro, além dos sapatos sugerindo esse caminho à empresa nacional que estuda o metropolitano e à Diretoria da CMTC. Alertamos igualmente o DET, através do programa a ele oferecido, da possibilidade aqui aventada, propondo, por isso mesmo, que um Conselho de Planejamento de Trânsito, que venha a ser criado, conte com a presença de representantes da Prefeitura e da CMTC para melhor articulação e aproveitamento desses planos. Parece, enfim, que há total receptividade para tais idéias, muitas das quais já ocorridas às próprias entidades visitadas; não sabemos, porém, de ação concreta visando o tal fim. E medidas desse gênero se concretizarão mais rapidamente na medida em que houver um aumento crescente da consciência geral de produtividade, pela qual nos devemos bater incansavelmente.

         Focalizando apenas o problema do trânsito, cremos possível um entendimento rápido do DET com a Prefeitura, objetivando a obtenção do maior número de elementos e no menor espaço de tempo, dos que os escritórios de planejamento que trabalham no projeto do metropolitano colherão nos próximos meses e até de alguns dados específicos, que podem ser adicionados às suas pesquisas, para a elaboração de um plano relativamente rápido de tráfego urbano. É tudo uma questão de entendimento, de que tanto tem carecido a cidade de São Paulo.

         O objetivo particular, enfim, deste nosso comentário é, além de repisar a tecla da eficiência nacional, insistir na importância do planejamento dos transportes no programa de aumento da produtividade global do país. Não é sem razão que o já mencionado prof. Buchanam afirma que “o transporte exerce uma das maiores influências construtoras das nações – e educação sendo a outra – básicas para tudo o mais.”

 

 

 

Artigo Publicado pela Folha de São Paulo, em 07/05/1967.

 

 


 

 

 

Sobre Adriano Branco

Eng. Adriano Murgel Branco Adriano Murgel Branco, paulistano de 76 anos, é administrador e engenheiro eletricista formado por uma das melhores escolas de engenharia do país - a Universidade Mackenzie. Branco, foi consultor no Brasil e em Moçambique, professor universitário, ocupou inúmeros cargos públicos, entre eles o de secretário da Habitação e secretário dos Transportes do Estado de São Paulo, nos anos 80. Ocupou também, cargos privados como o de diretor da Coplan, da Trol S.A., da TCL, da Caio entre outras. Ministrou palestras no Brasil,México,Colômbia,Venezuela,Equador, Paraguai, Argentina, Uruguai, Peru e Chile sobre transporte, segurança rodoviária e habitação. É autor de mais de duas centenas de artigos em jornais e revistas, publicadas até na Inglaterra e Alemanha. Em 1972, foi publicada sua primeira monografia sobre Acidentes Rodoviários; em 1975 é publicada a Normatização Brasileira de Defesa Rodoviárias. Teve também três de suas monografias publicadas em 1978: Trólebus,Tendências Modernas dos transportes Coletivos Pneumáticos e Transportes Urbanos por Trólebus; nos anos oitenta foram publicadas: Uma visão Sistêmica do Transporte Urbano, O Transporte Urbano no Brasil e A Prevenção dos Recursos Hídricos no Estado de São Paulo. Seus livros mais ressentem são Segurança Rodoviária, O Financiamento de Obras e de Serviços Públicos, em parceria com o Adilson Abreu Dallari, e Desenvolvimento Sustentável na Gestão de Serviços Públicos, em parceria com o economista Márcio Henrique Bernardes Martins.

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