OS TRÓLEIBUS ESTÃO DE VOLTA
O uso de tróleibus em São Paulo é de um pioneirismo sem par. Desde 1913, renomados engenheiros paulistas se dedicaram ao assunto, produzindo artigos como o do engº. Valentini, na Revista de Engenharia (1913), o do engº. Plínio de Queiroz na Revista Viação (1929), os do engº. Hilário Derboni na Revista Engenharia (1928 e 1929), o engº. Prestes Maia em seu Plano de Avenidas (1930) e do engº. Catullo Branco no Boletim do Instituto de Engenharia (1933). Mas foi nos projetos da Comissão de Estudos de Transporte Coletivo, da Prefeitura Municipal de São Paulo (1943) que surgiu uma proposta a ser materializada a partir da criação da Companhia Municipal de Transportes Coletivos – CMTC, implantada em 1947, passadas as dificuldades oriundas da 2ª Guerra Mundial. O eng° Áulio Clemente Ferreira, encarregado da concretização da idéia, logrou possibilitar a inauguração da primeira linha de tróleibus, em 1949.
O novo sistema foi muito bem recebido pela população e alcançou resultados técnicos e econômicos muito bons. Mas, após a primeira importação de 30 carros e a importação de mais 50, por volta de 1954, ficou cada vez mais difícil importá-los e, sobretudo, mantê-los. A demanda reprimida foi aliviada através da importação de 75 tróleibus usados, dos Estados Unidos, em torno de 1956.
Em 1963, quando era prefeito Francisco Prestes Maia, foi nomeado diretor da CMTC o engenheiro Cláudio Jacoponi, que decidiu enfrentar o problema. Não conseguindo importar mais veículos e nem obter propostas adequadas de reforma dos tróleibus da Companhia, resolveu adotar medida heróica: implantar uma linha de montagem em oficinas da CMTC.
Os tróleibus em geral tinham vida útil de 20 anos, a partir de uma durabilidade de 10 anos do chassi e da carroceria e da durabilidade do equipamento elétrico de 30 anos. Como os carros que se tornavam inservíveis não eram reformados, a CMTC acumulara grande quantidade de equipamentos de tração elétrica. Dentre eles os dos 50 tróleibus alemães comprados novos em 1954 e que começaram a dar problemas estruturais 5 ou 6 anos após.
Eu tive a satisfação de colaborar com o Jacoponi, como consultor, para projetar uma carroceria a ser fabricada na CMTC, à qual se agregariam os chassis (alguns novos, feitos no Brasil e outros tantos reformados) e todos os conjuntos de tração elétrica disponíveis. Com a ajuda da empresa Metropolitana, do Rio de Janeiro, que forneceu os primeiros kits de carroceria para montagem na CMTC, as análises de projeto efetuadas pelo professor Otávio Gaspar Ricardo, e a competente atividade de fabricação do Gaetano Ferolla, foi possível reconstruir perto de 180 tróleibus, que salvaram o sistema paulistano.
Anos mais tarde, na gestão Olavo Setubal, a Prefeitura decidiu implantar corredores de tróleibus na Cidade, como proposto pelo plano SISTRAN, desenvolvido pelo consórcio de projetistas Sondotécnica/Montreal e conduzido pelo engº. Mário Laranjeira de Mendonça. O ponto de partida foi a atualização tecnológica dos tróleibus e o desenvolvimento de empresas nacionais para construí-las. Feito o novo projeto com grande sucesso, a CMTC adquiriu 200 veículos, com opção para mais 90.
Em 1994, com a concessão dos ônibus e tróleibus da CMTC à iniciativa privada, coube ao presidente da Companhia, engº. Francisco Christovam, orientar um novo programa de reformas e aquisições novas, todas elas confiadas à indústria nacional. Com isso, deu-se novo fôlego ao transporte eletrificado. A esse tempo, projetou-se um sistema de Veículos Leves sobre Pneumáticos – VLP, com projeto e equipamentos encomendados à iniciativa privada. Esperou-se daí mais um grande passo, como foram os de 77/80 e os anteriores mencionados.
Nada porém se concluiu e os tróleibus entraram em desgraça. De lá para cá, a extensão das linhas eletrificadas desceu de 328 km de rede bifilar dupla para cerca de 200 km e a frota foi reduzida de 534 para 213 veículos.
Hoje temos uma pequena rede de ônibus elétricos, no exato momento em que modernos sistemas sobre pneus se implantam na Europa, em corredores guiados, com grande capacidade de transporte e com inovações notáveis.


É chegada a hora de São Paulo enfrentar uma nova decisão, aproveitando toda a experiência colhida no passado, quando a necessidade de capacitação industrial era um desafio verdadeiramente difícil. No momento em que o trânsito chega ao caos, nada melhor do que ampliar o METRÔ, modernizar a CPTM e implantar um grande programa de corredores de tróleibus.


Caro Adriano,
Parabéns pelo site, mas sobretudo parabéns pela perseverança que, junto com a criatividade, é sua marca e exemplo.
Forte abraço, Pedro Novis.